mulher na cbf academy
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Machismo, preconceito e respeito: precisamos conversar sobre a presença da mulher no vestiário de futebol

“Se você sair comigo, eu posso conseguir alguma coisa para você”. Infelizmente esta não foi a única frase preconceituosa que escutei no inicio da minha carreira. Mas por que? Por estar em um ambiente totalmente predominado por homens?

Às vezes o homem acha que pode oferecer regalias para que a mulher cresça. Aconteceu comigo. E pode acontecer com qualquer uma. Há alguns anos, eu admirava um profissional e acompanhava o seu trabalho de perto. Eu vi os times dele ganharem e encantarem. Eu quis muito conhecer aquela pessoa e, quando tive a oportunidade, teria preferido voltar no tempo e ficar com a imagem do trabalho que ele vinha executando. Aquele que eu imaginava ser uma coisa, era outra. Fiquei feliz em poder contar a minha trajetória e meu trabalho a ele, mas o interesse nunca foi profissional. Sempre foi pensando em qualquer coisa, menos futebol.

E isso aconteceu dentro de um clube onde profissionais trabalham o dia inteiro com futebol. As pessoas viram acontecer. Não quer dizer que elas concordem ou validem este comportamento, bem pelo contrário. Muitos me deram todo o suporte necessário para lidar com essa situação. Infelizmente, naquela época eu não sabia lidar com aquela situação. Eu pensava: Quem sou eu? Ele é homem, tem poder, respeito e está ali naquela posição há anos. Ele é muito maior que eu. Ele tem o direito de falar e fazer o que ele quer. Quem sou eu para contestar ele? Essa era eu. Hoje eu não sou mais essa pessoa.

Hoje eu sou analista de desempenho, instrutora da Conmebol, formada em Educação Física, especialista em futebol e tenho a Licença A da CBF. Eu sou a Michele Kanitz.

Os anos passaram e eu adquiri experiência. Os anos ao lado de profissionais que me fizeram amadurecer, ensinaram, abriram portas e me ajudaram a me tornar cada dia mais forte. No início, por desconhecer o meio, isto acontecia muito mais. Hoje, cada vez menos. É preciso abrir o olho e saber em quem confiar. Assim como acontece com todas, eu precisei provar que, além de ser mulher, eu também sou profissional. Assim nós conquistamos espaço e garantimos respeito.

A mulher no futebol

Eu estou há uma década trilhando este caminho e até hoje tem quem ache que o futebol masculino não é um ambiente para nós mulheres. “Vai para o futebol feminino, é mais fácil para ti”, eles me dizem. Por que? Não tem que ser assim. Tanto o futebol masculino quanto o feminino precisam de profissionais competentes para exercer as funções requeridas. A competência teria que bastar, não?

Eu conheço mulheres que gostariam de trabalhar com os homens e sequer tentam. Elas acham que não são bem-vindas. Não são bem-vindas por quem? Hoje a mulher pode – e deve – estar inserida neste meio. E para que uma mulher seja aceita em um ambiente que pode ser tão difícil, tem um local que merece ser destacado: o vestiário.

O vestiário é um ambiente sagrado. É ali que acontecem todos os rituais pré-jogo. É neste local que eu, analista de desempenho e auxiliar técnica, troco a última palavra com o treinador antes do jogo. É naquele lugar que passo as ultimas informações para os jogadores. É o espaço da nossa oração, da energia positiva, de sintonia, de união. É ali que viramos um time, uma família. Ali os corações precisam bater no mesmo ritmo. É lá onde se ganha ou perde um jogo. É no vestiário que as coisas acontecem. E não é um lugar para preconceitos.


Confira o texto do nosso parceiro JP Fontoura sobre a presença da mulher no vestiário.

Recolhendo meus butiás.


Para mim, frequentar um vestiário é algo comum. Seja masculino ou feminino. Eu trabalho há quase uma década com futebol e o vestiário é comos e fosse o meu escritório. É um lugar onde não deveria existir preconceito. Quando eu estou ali dentro, eu não sou a Michele. Eu sou analista, independente do meu sexo. Por que eu não poderia estar ali executando o meu trabalho? Não faz sentido para mim.

Mas para algumas pessoas faz. O preconceito existe em pessoas que desconhecem a realidade de um profissional que está trabalhando. Para duvidar da competência, basta não conhecer o processo. Na verdade, existem apenas dois tipos de pessoas no mundo do futebol: as que são profissionais e as que não são. Hoje, no clube em que eu trabalho, é muito fácil eu executar a minha função. O respeito é pré-requisito.

Eu já sofri com o machismo de homens e mulheres. De ambos os lados. Ele existe e é real.

“Mas como os atletas vão se vestir com uma mulher lá dentro?” Eu acho impressionante que o maior argumento de quem não quer a mulher no futebol masculino não funciona de maneira inversa. Afinal, Emily Lima e Pia Sundhage são as únicas mulheres da história a comandarem a Seleção Brasileira feminina. Antes delas, apenas homens tinham treinado a nossa seleção. Por que nunca questionamos como as meninas se vestiam com treinadores e demais membros da comissão homens no comando? A resposta é simples. Machismo. Isso não é relevante para o debate.

Mas eu posso tentar responder. No meu primeiro dia de Metropolitano (meu atual clube), após a minha apresentação perante a todos, o treinador ressaltou de ter uma profissional mulher na comissão. O entendimento da informação foi imediato. Ninguém perguntou sobre como e onde se vestir. Não foi preciso. A confiança no trabalho bastou.

O machismo e o abuso existem. Histórias como a que citei no início deste texto eu tenho várias. Elas não são exceção. Hoje, elas não acontecem mais. Eu aprendi a me defender e mostrar a profissional e a pessoa que eu sou. Durante todos os anos que trabalhei, busquei apenas respeito e reconhecimento. Busquei ser profissional. A minha única preocupação nos clubes é o trabalho. Eu conquistei isso com a história que eu construo todos os dias.

E se você homem que está lendo este texto me fizesse novamente a pergunta: “Eu posso conseguir alguma coisa para você?” A resposta é sim, pode. Eu quero respeito de você e todos os seus pares. Isso me basta.

Texto de Michele Kanitz.

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