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Clube x Seleção: quais as diferenças do trabalho de análise de desempenho?

Há cerca de um ano, trabalhei na comissão técnica da Seleção do Equador. Não tenho palavras para descrever o tamanho da honra que é vestir uma camiseta que representa toda uma nação. Ainda mais, no meu caso, sendo estrangeira. Mas é um trabalho muito diferente e desafiador se comparado ao dia a dia no clube. Ali, na seleção, não há tempo para errar.

A principal diferença entre trabalhar em um clube e em uma seleção é o dia a dia. Você não tem um grupo de jogadores, o convívio, a resenha, o empírico e, pelo menos no meu caso, principalmente, a análise diária do atleta. Em um time, você convive com o atleta sete dias por semana. Com o nosso calendário, com jogos quarta e domingo, não há tempo para descanso. Mas também há tempo para desenvolver, acompanhar e trabalhar com o atleta no processo de análise de desempenho. É um trabalho contínuo, um organismo vivo.

Na seleção, é o contrária. O trabalho é contínuo, mas os jogadores não estão ali. E não é só isso. De convocação em convocação é preciso analisar centenas de jogos apenas para saber quem são os 23 melhores que servirão ao sistema do treinador. No Equador, éramos duas analistas apenas para assistir jogos e cruzar dados que fariam com que a treinadora realizasse a convocação. Partidas in loco e pela televisão, todos os dias. Você não pode errar. É muita análise prévia para não cometer erros.

E isso que nem estamos falando sobre a análise dos jogos da própria seleção, onde o trabalho é idêntico ao do clube.

Você tem poucas convocações durante um ano. O prazo máximo normalmente é de dez dias com o grupo completo. No primeiro dia, fazemos testes físicos e pequenas avaliações. A partir daí, você trabalha um sistema de jogo e vê como os atletas compreendem o processo. Só que nestes dez dias, há um jogo ou dois. Ou seja, o tempo de trabalho é muito curto. A avaliação se dá jogo a jogo.

Entretanto, assim como em qualquer time, o imediatismo impera. Pouco importa se a seleção não convive com os jogadores, não tem intimidade, não conhece o jogador no dia a dia ou tantas outras variáveis que não são colocadas na balança na hora da avaliação. O que importa é o resultado. Em tese, quanto mais tempo você está ao lado do atleta, maior é a compreensão você tem dele. Não tendo o dia a dia, a dificuldade é de tentar entender o que está acontecendo no clube deste atleta e qual é a maneira que ele contribui com o clube dele aumenta. Através das características dele, precisamos saber como trabalhar com ele dentro do campo conosco. Tudo isso antes de convocá-lo.

É um trabalho muito grande. A gente precisa dar ênfase em todas as informações da maneira mais rápida possível para que ele entenda o processo do time naquele contexto. É como se fosse o VAR.

Você já parou para pensar que em um período de um, dois, três ou (quando demora) cinco minutos, diversas câmeras registraram uma jogada de um possível impedimento. A partir do gol marcado, estas câmeras enviam as imagens para um software que aplica através de dezenas de cálculos e ângulos linhas tridimensionais minuciosas para saber se de fato um atleta estava centímetros à frente do outro? E, em tese, o trabalho é infalível. Correto? Parece complicado analisando deste jeito, mas é exatamente assim que é o processo de análise de uma seleção funciona.

Muito trabalho em pouquíssimo tempo. E não se pode errar.

Texto de Michele Kanitz.

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