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A perspectiva ecológica e os contributos para estímulo da criatividade no futebol

No texto anterior, trouxe algumas reflexões a cerca da criatividade no futebol e como o ambiente por si só pode potencializá-la ao passo que também pode restringi-la. No texto de hoje, trarei brevemente a luz a perspectiva ecológica, que tem norteado muitas culturas futebolísticas e dado muitas contribuições para que essas possam obter sucesso na formação do atleta-cidadão e potencializado a criatividade dentro do jogar.

O pai da Teoria Bioecológica se chama Urie Bronfenbrenner e essa teoria tem exercido forte influência no que diz respeito aos conhecimentos associados ao desenvolvimento do ser humano, justamente por entender que o desenvolvimento humano se dá principalmente a partir da grande interatividade com o todo ao longo da vida. Para Bronfenbrener (1979), esse processo  pode ser entendido como uma via de “mão dupla” no que diz respeito a influência que o meio exerce sobre todos os ciclos de desenvolvimento do ser humano.

Em linhas gerais, a Teoria Bioecológica do Desenvolvimento Humano define pessoa em desenvolvimento como resultado da interação do ambiente e suas modificações ao longo do tempo. Nessa perspectiva, o ambiente ou contexto sempre terão importante papel na atividade esportiva, ressaltando a importância de conhecer o meio ao qual o esporte está inserido, as características pessoais dos atletas, suas disposições para a prática e a evolução do trabalho no campo esportivo (Santos, Aguinaldo & Gomes, 2020).

No que diz respeito ao futebol e a criatividade, a interação com o ambiente (tempo de prática, qualidade da prática, constrangimentos aplicados em sessões de treinamento, feedbacks recebidos ou a ausência dos mesmos, a famosa “rodagem” dos atletas, a quantidade de horas-praticadas, o envolvimento com outros esportes e etc) exerce considerável influência na criação de repertório e autonomia de decisão ao longo do desenvolvimento dos atletas, possibilitando encontrar soluções mais ou menos criativas para solucionar problemas em jogos.

Para que o estímulo a autonomia ocorra é preciso que se pense a respeito das propostas de atividades e constrangimentos no jogar dentro dos treinamentos que, com a evolução do “tatiquês”, pôde-se observar uma grande tendência voltada para a estruturação das sessões de treino voltadas para a automatização de comportamentos que precisam ser apresentados durante uma partida. Entretanto, dificilmente atividades com propostas rígidas possibilitarão soluções criativas e conseguirão se aproximar da não-linearidade dos fatos e circunstâncias de uma partida.

Em competição, os recursos materiais utilizados têm características diferentes, tal como o espaço para atuar, que normalmente é mais reduzido em treino. A coordenação do jogador é baseada na capacidade de se adaptar às mudanças do contexto, e um treino que vise a automatização é realizado na ausência desta necessidade de adaptação (Araújo, D. 2010).

O exercício que devemos fazer enquanto treinadores, auxiliares, preparadores e até mesmo gestores está associado a criação de um ambiente que possua qualidade em suas propostas e  intervenções para que esses indivíduos sejam potencializados em conjunto às suas características individuais inerentes das experiências que viveram, juntamente com o que se pretende enquanto instituição e equipe. Algumas ferramentas simples podem ser utilizadas por esses profissionais para criar um ambiente propício para o desenvolvimento de ações mais criativas, como por exemplo, o feedback (Textos sobre feedback, parte 1 e parte 2).

Diante disso, Araújo (2010) traz alguns pontos importantes para que possamos utilizar a perspectiva ecológica como importante referencial teórico para estimular a criatividade dos atletas. São eles:

  1. Manter a complexidade das tarefas de decisão tal como acontece no contexto de jogo;
  2. Os constrangimentos das tarefas devem ter um elevado valor de diagnóstico para o atleta;
  3. Incluir situações que evoluam no tempo e apresentem decisões inter-relacionadas;
  4. Permitir que os atletas possam agir no contexto de forma a detectar informação que guie as suas ações para atingir os seus objectivos (autonomia);
  5. A informação contextual guia o comportamento decisional; (feedback)
  6. Os padrões dinâmicos desse comportamento decisional; (tomada de decisão)
  7. A concepção representativa das tarefas (estruturação e manipulação) que representem ao máximo estados competitivos pretendidos.

Texto de Raíssa Jacob.

Referências

ARAÚJO, Duarte. A dinâmica ecológica da táctica individual em desportos de equipa com bola. La táctica individual en los deportes de equipo. Girona: UdG/CEEF, p. 65-74, 2011.

Bronfenbrenner U.  e ecology of human development: experiments by nature and design. Cambridge: Harvard University Press; 1979.

CHOW, Jia Yi et al. Ecological dynamics and transfer from practice to performance in sport. Skill acquisition in sport, p. 330-344, 2019.

DOMINGUES, Marcio Pinto; CAVICHIOLI, Fernando; GONÇALVES, Carlos Eduardo. Perspectiva ecológica na determinação de percursos desportivos contrastantes em jovens futebolistas. Revista Brasileira de Educação Física e Esporte, v. 28, p. 249-261, 2014.

SANTOS, Aguinaldo & Gomes, Fabio & Bichels, Aline & Gomes, Antônio & Vagetti, Gislaine & Oliveira, Valdomiro. Teoria bioecológica aplicada ao esporte: uma revisão integrativa. Revista Brasileira de Psicologia do Esporte. 9. 10.31501/rbpe.v9i3.11358, 2020.

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