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O modelo de multiclubs ownership (MCO), onde um mesmo dono comanda mais de uma instituição esportiva, vem se tornando tendência na indústria ao longo dos últimos anos e em 2022 chegou com força ao Brasil. O objetivo deste texto é investigar o modelo, destacando ainda os princípios inovadores existentes em um multiclube.

Explicando o conceito de multiclubes

O conceito de multiclubes é simples: um acionista único ou um grupo de acionistas, como conglomerados econômicos e fundos de investimento, possui participação societária de diferentes clubes em diferentes países. O principal exemplo é o City Football Group (CFG), grupo que comanda o Manchester City e mais 12 clubes, sendo o Bahia a aquisição mais recente. Outro caso histórico é do empresário Giampaolo Pozzo, atual proprietário da Udinese e Watford, que geriu ainda o Girona, da Espanha, entre 2009 e 2016

Este mercado tem se tornado cada vez mais popular, como mostram os gráficos do CIES Intelligence, de setembro de 2022. No primeiro deles está o número de MCOs, que atingiu 78 neste ano. O mais recente deles surgiu a partir da compra do Chelsea, da Inglaterra, por Todd Boehly, empresário americano que também possui participação societária nas franquias do Los Angeles Lakers (NBA) e Los Angeles Dodgers (MLB).

Já o segundo gráfico mostra o número total de clubes envolvidos em sociedades, que na época era de 195. Após a publicação, outros acordos já foram feitos, como o Bahia, com o City Football Group, e o Bournemouth, outro clube inglês negociado com um empresário americano.

A expansão além do velho continente

A grande novidade quando o assunto são os multiclubes é a entrada de investidores americanos no mercado, que passaram a ver o futebol como uma ótima oportunidade de negócio. O valor cada vez mais alto de franquias norte-americanas e a alta do dólar frente a outras moedas no mundo fazem com que os investidores mudem seus olhares para outros mercados.

Além dos exemplos citados anteriormente, o Milan também foi adquirido neste ano por instituições dos Estados Unidos. Foi o caso do fundo de investimento Redbird, que também possui o controle do Toulouse, da França, e participações minoritárias no Liverpool e Málaga, de Inglaterra e Espanha, respectivamente.

Neste mesmo sentido, o Brasil começa a ser visto como um mercado interessante para a entrada destes investidores. Além da negociação do Bahia com o CFG, Ronaldo se tornou acionista majoritário do Cruzeiro, tendo controle também do Valladolid, o grupo Eagle Football, de John Textor, adquiriu o Botafogo e a 777 Partners comprou 70% das ações da SAF do Vasco.

Segundo mencionado pelo consultor americano Jordan Gardner durante o evento World Football Summit 2022, novos empresários devem buscar clubes brasileiros para negócio, considerando o país como um importante centro também pela revelação constante de jovens talentos.

Cada MCO com sua estratégia

Ao analisar alguns dos 78 multiclubes existentes na indústria do futebol, além de depoimentos de proprietários dos MCOs, fica claro que cada conglomerado possui sua estratégia própria, variando de acordo com o entendimento e até mesmo a área de atuação dos acionistas.

Uma comparação interessante envolve o Grupo City com o Red Bull, multiclube representado no Brasil pelo RB Bragantino. A primeira empresa tem como estratégia o foco na manutenção de seu clube principal, Manchester City, como uma das principais instituições esportivas do mundo. Já o grupo de origem austríaca propõe uma filosofia comum entre seus clubes, aproveitando para negociar os atletas entre a rede.


Ao longo dos últimos meses, muita coisa aconteceu no futebol brasileiro quando falamos em SAF. Novos investidores entraram no futebol brasileiro, como a 777 Partners no Vasco e o City Group no Bahia, outros clubes ajustaram suas estruturas para alterar o modelo organizacional e foram vistas as primeiras consequências dentro de campo do modelo SAF, principalmente com Cruzeiro e Botafogo.

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Em entrevista para o site Off the Pitch, John Textor abordou um pouco as estratégias que vem sendo aplicadas no Botafogo e nos outros três clubes dos quais o empresário é acionista.

Se no caso do Grupo City a ideia é ter o Manchester City no topo de uma pirâmide, com os demais clubes servindo de apoio, o grupo Eagle Football deseja que todos os seus clubes tenham sucesso desportivo da mesma forma.

Em relação ao intercâmbio de atletas, a ideia é que os jogadores se transfiram de um clube ao outro com o objetivo de aumentar seu valor de mercado. Facilitar a transferência de atletas para novos mercados é o principal motivo de Textor ter ingressado no futebol, presumindo ainda que esse intercâmbio é positivo para o próprio atleta, que pode se tornar mais eficiente jogando em outro país.

Outro ponto destacado pelo empresário é o subaproveitamento da base de torcedores pelos clubes de futebol. A empresa de Textor foi responsável por criar alguns aplicativos de relacionamento com os consumidores, e o empresário entende que o futebol deve aproveitar essa área para impulsionar suas receitas.

Sendo assim, alguns critérios devem ser observados para a construção de um modelo de multiclub ownership:

1- Estilo de jogo: haverá um padrão único entre as equipes?

2- Desenvolvimento de jovens: os departamentos de base irão trabalhar em conjunto dividindo as melhores práticas e buscando revelar jogadores para diferentes mercados?

3- Scouting: como será construída a rede de observação de atletas ao redor do mundo?

4- Investimento financeiro: quanto será investido e quais as formas de recuperar a quantia?

– Negociação de atletas: haverá direcionamento para intercâmbio entre as equipes do MCO?

6- Sucesso esportivo: todos os clubes serão geridos para conquistar títulos da mesma forma?

Princípios da inovação encontrados no modelo

Depois de todo o contexto, é hora de falar da relação entre inovação e os multiclubes. Essa estrutura possui diversos princípios inovadores em sua forma de gerir um clube, e não foi à toa que foi citada como ponto positivo do Manchester City no ranking de 25 clubes mais inovadores do mundo, em que o clube inglês foi quarto colocado.

Compartilhar ferramentas, tecnologias e processos, práticas dos MCOs no futebol, caracterizam inovações em rede, onde uma empresa aproveita dos conhecimentos de parceiros para reduzir custos e melhorar o desenvolvimento de seus processos, além do crescimento de seus funcionários. No caso do futebol, ainda há o intercâmbio de atletas, que acaba sendo facilitado com a maior proximidade entre instituições de diferentes países.

Outro ponto importante para a inovação é a antecipação tendências que a conexão entre diferentes países proporciona, como comenta Giampaolo Pozzo, sobre sua atuação com Udinese e Watford:

“Foi uma jogada monumental que nos permitiu expandir nosso know-how e alinhar elementos de desenvolvimento dos clubes, dentro e fora do campo, como ainda acontece entre Udinese e Watford. Não há dúvida de que estar envolvido no futebol em diferentes países nos permitiu ampliar nossos horizontes e transferir os pontos fortes dos respectivos sistemas em toda a nossa família de clubes. Isso nos deu a oportunidade de modernizar nosso modelo de negócios e antecipar, com inovação e perspectiva, o que está acontecendo no futebol mundial agora e para onde o jogo está indo.”

O mercado brasileiro e os multiclubes

Para finalizar, cabe citar o futebol brasileiro e sua relação com este novo modelo. O Brasil vem sendo visto como um mercado barato e de fácil acesso, tendo na revelação de jogadores um dos aspectos mais atrativos para a chegada de novos investidores. Os resultados dos multiclubes que aqui atuarem em 2023 pode mostrar para o mercado global se o país do futebol é de fato uma oportunidade de investimento.

A lei da SAF, assim como uma possível liga de clubes, podem ser fatores cruciais para a chegada deste novo modelo, que também será responsável por impulsionar a inovação no futebol brasileiro. Nos resta aguardar as próximas negociações.

Texto de Rodrigo Romano.

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