
Se você já ouviu falar no tal do “gorila invisível”, sabe do que estou falando. É aquele experimento clássico da psicologia: mostram um vídeo de pessoas passando a bola e pedem pra contar quantos passes foram feitos. No meio da cena, um sujeito vestido de gorila atravessa a quadra, olha para a câmera e até bate no peito. Metade das pessoas não vê o bicho. Simplesmente não vê. A atenção está tão focada na bola que o cérebro apaga o gorila da realidade.
Agora, coloque esse gorila no Brasil de hoje. Só que, em vez de atravessar uma quadra, ele compete com TikTok, YouTube e joguinhos de celular. Se antes a atenção humana já era limitada, hoje virou artigo de luxo. Se antes o problema era enxergar o gorila, agora é conseguir enxergar qualquer coisa que dure mais que 15 segundos.
E isso não é só papo de psicólogo. É a realidade de quem tenta ensinar esporte para crianças com repertório motor cada vez mais baixo.

A tela como novo “campo de jogo”
Vamos falar a real: criança brasileira de 2025 passa mais tempo deslizando o dedo no celular do que chutando bola, pulando corda ou correndo atrás de pipa. A tela virou o novo “campo de jogo”. Só que esse campo não tem espaço, não exige esforço físico, não treina coordenação motora. Treina só o polegar.
O problema? A prática esportiva depende de atenção focada e de repertório motor acumulado. Se antes as crianças já tinham dificuldade de aprender fundamentos básicos — chutar, arremessar, saltar, equilibrar-se — agora a lacuna é ainda maior. Porque chegam no treino com corpo e mente treinados para outra coisa: dispersar rápido, desistir rápido, trocar de estímulo rápido.
É como querer jogar um clássico do Brasileirão com um time que só treinou videogame no modo “fácil”.
O gorila invisível agora tem wi-fi
Quando Christopher Chabris e Daniel Simons criaram o experimento do gorila invisível, o objetivo era mostrar que a atenção humana é seletiva. Nós vemos só uma parte do que está acontecendo, e ignoramos o resto. É o chamado cegueira por desatenção.
Agora imagine essa cegueira multiplicada por notificações. O celular vibra no bolso, a criança pensa no meme que viu mais cedo, alguém passa correndo atrás, o treinador fala de posicionamento… e metade da instrução simplesmente não entra. É como se o gorila tivesse ganhado wi-fi e agora estivesse em todos os cantos, gritando “olha pra mim” enquanto você tenta ensinar um passe de dois toques.
Resultado: crianças com dificuldade em manter atenção em sequências motoras simples. E isso explica o baixo repertório motor. Elas não praticam. E quando praticam, não focam.
Repertório motor: o álbum de figurinhas vazio
Aprender esporte é como completar um álbum de figurinhas. Cada movimento básico — correr, saltar, arremessar, equilibrar-se — é uma figurinha colada. Quanto mais figurinhas, mais completo o álbum, mais fácil jogar.
Só que a criança que cresce grudada na tela tem o álbum quase vazio. Não sabe correr direito, tropeça ao saltar, chuta torto, não tem coordenação. O resultado aparece no treino: demora mais a aprender, desiste mais rápido, sente-se frustrada. O professor se desespera. Os pais culpam a escola. Mas o problema começou antes: na atenção sequestrada pelas telas.
E não, não é drama de “antigamente era melhor”. É dado. Pesquisas mostram aumento de sedentarismo infantil, queda no tempo de brincadeiras ao ar livre e déficit de coordenação motora grossa. O gorila invisível se transformou em gorila digital. Invisível não porque não existe, mas porque a gente finge que não vê.
O brasileiro e o multitarefa (ou a ilusão dele)
Brasileiro adora dizer que é multitarefa. Que consegue ver TV, checar o WhatsApp e prestar atenção na conversa ao mesmo tempo. Spoiler: não consegue. O cérebro alterna entre tarefas, perdendo pedaços de cada uma. Com crianças, isso é ainda pior.
No treino esportivo, isso significa que elas não conseguem repetir movimentos com qualidade. Erram fundamentos básicos porque a cabeça está em outro lugar. E como o corpo precisa de repetição focada para aprender, o aprendizado fica pela metade.
É como tentar treinar pênalti enquanto olha a escalação do Cartola. Não vai sair gol.
O custo invisível: mais que esporte, desenvolvimento humano
Não é só sobre formar atletas. É sobre formar pessoas. Crianças com baixo repertório motor tendem a se frustrar mais, evitar desafios físicos e até se afastar do convívio social que o esporte proporciona. A falta de atenção crônica mina não apenas o treino, mas a vida escolar, a resiliência emocional e a disciplina.
No fim, estamos criando gerações que enxergam o gorila só quando ele dança no TikTok. E ignoram tudo o mais que exige paciência, foco e corpo em movimento.
Conclusão: hora de mostrar o gorila na quadra
Se antes a atenção limitada já era um gargalo para o ensino esportivo, agora ela está em crise. O desafio dos professores não é só ensinar fundamentos. É competir com a tela, com o apelo fácil do digital, com a dopamina instantânea que vicia o cérebro das crianças.
O gorila invisível virou visível. Está aí, sentado ao lado da quadra, com um celular na mão. O que você, professor, vai fazer com isso? Vai ignorar, ou vai usar criatividade para chamar atenção de volta para o jogo real, aquele que ensina corpo, mente e convivência?
A pergunta é dura: se o gorila já não é mais invisível, será que não somos nós que estamos fingindo que ele não existe?
Texto de Diogo Brito & Homero Junior

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