estante de livros
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Biblioteca Ruy Carlos Ostermann #1 – os livros de Roger Machado

O FootHub surgiu com espaço físico em 2018 onde as pessoas poderiam trabalhar, fazer reuniões, debater e trocar experiências sobre futebol. Em uma visita ao local, Roger Machado comentou que sentia falta de ter um lugar onde fosse possível tomar um café e encontrar livros voltados para o esporte. 

Essa fala do treinador ficou martelando na nossa cabeça e resolvemos juntar nossas bibliotecas. Na época, cada um pegou alguns livros que tinham em casa e levou para o FootHub, começando a construção do nosso aspirante acervo.

Em outro momento, Cristiane Ostermann doou livros de autoria do seu pai, o jornalista e ex-cronista esportivo Ruy Carlos Ostermann. Ruy, hoje junto ao FootHub no meio digital, é uma grande personalidade da comunicação esportiva no Brasil. Com o passar do tempo ganhou o apelido de “Professor”, oriundo da formação em Filosofia. Seu imenso conhecimento o tornou exemplo para tantos comentaristas ainda na ativa. 

Foi com a contribuição desses dois nomes do futebol e da crônica, ambas instituições que cresceram de mãos dadas na construção da identidade do jeito de jogar do brasileiro, que nasceu a Biblioteca Ruy Carlos Ostermann: um espaço cheio de indicações de livros que contam a história do futebol, que muito se mistura com a história da sociedade. E hoje trazemos esse projeto de volta, desta vez no nosso espaço online e com convidados.

Não poderíamos estrear esse conteúdo com outro convidado que não justamente Roger Machado. Foi com a observação dele que amadurecemos o que você lê aqui hoje. Além disso, em 2020, o técnico, que é um dos principais nomes do movimento negro no futebol, lançou o selo Diálogos da Diáspora, afim publicar 50 livros de autores negros, índios e quilombolas e – 10 já lançados no ano passado.

Confira aqui três indicações de livros de Roger Machado!


Ganhadores: A greve negra de 1857 na Bahia, João José Reis

Em Ganhadores, o historiador João José Reis reconstitui a história dos negros de ganho, protagonistas de uma insólita greve que paralisou o transporte na capital baiana durante vários dias em 1857.

Esses trabalhadores escravizados, libertos ou livres, todos africanos ou seus descendentes, se organizavam em grupos de trabalho e percorriam a cidade de cima a baixo fazendo todo tipo de serviço, sobretudo o carrego de pessoas e objetos ou a venda de alimentos e outras mercadorias. Em 1857, porém, a Câmara Municipal baixou uma postura impondo-lhes medidas que combinavam arrocho fiscal e controle policial. Mas os ganhadores, que já viviam dia e noite sob a vigilância e a violência de autoridades e senhores, não se deixariam abater. O resultado foi a primeira mobilização grevista no Brasil a paralisar todo um setor vital da economia urbana.

Fala, Roger! “Esse livro é importante para mim porque ele retrata um contexto histórico, com uma historiografia muito rica, que mostra uma parte da escravidão e uma revolta de um povo, já muito insatisfeito com a situação, resolveu se rebelar fazendo a greve. É um livro muito rico do ponto de vista histórico, pra quem gosta de saber mesmo sobre a história do Brasil.”


O desenvolvimento do jogar segundo a periodização tática, Marisa Silva

A obra de Marisa Silva foi sem dúvida uma das mais importantes dos últimos anos, no âmbito do panorama futebolístico nacional. Explana todo o conteúdo de suporte do conceito de periodização táctica, passando a operacionalizar os conteúdos e trabalho diário do treinador, de acordo com esta abordagem.

Fala, Roger! “Esse foi um dos primeiros livros que eu li sobre periodização tática. O estudo estava chegando no Brasil através do Vítor Frade, seu idealizador, e que com um título provocativo trazia alguns elementos que por um lado instigava a busca de entender o que significava e por outro gerava muito preconceito e questionamento a respeito deste método.

Mais tarde, ao conhecer mais, eu fui me dar conta que essa é uma metodologia adaptada sobretudo do futebol brasileiro, que nada mais era do que você partir do jogar para estruturar. Estruturar uma equipe, desenvolvendo todas as outras relações, condicionamentos e necessidades entendendo que o jogo é um fenômeno tático decidido por ações técnico físicas, o que tem tudo a ver com o futebol brasileiro. 

Foi um livro muito importante para construir minha forma de enxergar o jogo e a metodologia que eu aplicaria no meu modelo de trabalho.”


Necropolítica, Achille Mbembe

Neste ensaio, Achille Mbembe debate sobre “as formas contemporâneas que subjugam a vida ao poder da morte (necropolítica) reconfiguram profundamente as relações entre resistência, sacrifício e terror”. Através da noção de necropolítica e de necropoder, o autor fala sobre as várias maneiras pelas quais, em nosso mundo contemporâneo, as armas de fogo são dispostas com o objetivo de provocar a destruição máxima de pessoas e criar “mundos de morte”, formas únicas e novas de existência social, nas quais vastas populações são submetidas a condições de vida que lhes conferem o estatuto de “mortos-vivos”.

Fala, Roger! “Michael Foucault cunhou a expressão biopolítica ou biopoder, que mostra como os governantes, ou quem está no poder, através de políticas públicas, determinam como as pessoas vão ser, viver e morrer. Achille Mbembe, entendendo que essa expressão não conseguia na sua magnitude lidar com algumas particularidades de determinadas populações, estudou e cunhou necropoder, em que com políticas públicas de omissão ou de proposição determinam onde, como e quando as pessoas vão morrer, para falar sobre as especificidades da população negra e do racismo. 

Eu vejo esse livro muito importante e necessário para entender como quem está no poder age deliberadamente para decidir quem vai sobreviver ou morrer em um país como o nosso.”

Texto de Equipe FootHub.

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