treinador de futebol
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A escolha do treinador no futebol brasileiro

Olá, amigos e amigas do FootHub. Estou inaugurando um novo canal de comunicação por aqui e quero propor temas para debate e reflexão a vocês, que, assim como eu, estudam os mais variados tópicos de desenvolvimento do futebol do nosso país. Hoje trago um tópico sempre latente nas discussões e debates nos cursos de gestão no futebol brasileiro e que especialmente esta semana veio à tona na forma de um trabalho acadêmico: como dirigentes contratam e demitem treinadores no Brasil.

O brilhante jornalista Rodrigo Capelo, em sua coluna Negócios do Esporte, no Globoesporte.com (confira aqui a coluna completa), publica reportagem ampla sobre a tese do mestre científico em gestão esportiva Matheus Galdino, que leciona na Universidade de Biefeld, na Alemanha. O estudo teve ainda a colaboração de Lara Lesch e Pamela Wicker e publicado, em inglês, no jornal científico Sustainability.

Segundo o estudo, os dirigentes brasileiros contratam treinadores baseados em cinco fundamentos:

  • Disponibilidade: inclinação do técnico em assumir o cargo.
  • Resultados recentes: a leitura se restringe a perder ou ganhar.
  • Popularidade: percepção de torcedores e imprensa sobre a pessoa.
  • Média salarial: quanto promete pagar e qual a multa para rescindir.
  • Análise do cargo: julgamento especulativo do dirigente sobre objetivos.


Notem que na hora de contratar, não há qualquer abordagem técnica e tática com os profissionais. Da mesma forma, não há diálogo sobre o que modelo de jogo, expectativas, necessidades e metodologia de treino. Nas minhas participações em palestras e cursos no FootHub, procuro orientar exatamente o contrário desta triste realidade apresentada no estudo.

Antes da contratação, deve-se estabelecer o perfil adequado do profissional a ser buscado. O treinador será propositivo ou reativo? Estrategista ou conceitualista? Jovem ou experiente? Com bagagem e títulos ou em busca de afirmação? Concorda em ser uma parte da engrenagem ou quer a chave do vestiário?

Depois de todas estas respostas alinhavadas com o que se pretende, deve-se ir em busca dos nomes com o perfil desejado. Antes de firmar contrato, porém, é fundamental fazer um amplo debate com os profissionais elencados a respeito do sistema de jogo, do método de trabalho, da cultura do clube, do grupo de atletas, dos jogadores da base, das futuras contratações e, por fim, do acordo salarial. Deixar claras também a ambição da equipe e a estratégia para fazer isso acontecer.

Nestas conversas para a contratação do treinador, costumo apresentar nas aulas do FootHub um questionário do que deve ser tratado com o futuro profissional a ser contratado. As principais perguntas são estas:

1 – Como joga fora de casa contra um adversário superior?
2 – Como joga em casa com oponente inferior?
3 – Que tipo de estratégia implementa diante da força do adversário?
4 – Faz alterações durante o jogo usando atletas e sistemas não treinados ou experimentados?
5 – Como joga contra um time que tem um a menos? E como atua quando está com um a menos?
6 – Que tipo de características o time terá quando está vencendo ou perdendo? Quais as mudanças que costuma implementar nestas situações?

Nesta conversa, é fundamental cobrar uma relação de causa e efeito entre treinamento e atuação. Com isso, o dirigente terá condições de cobrar do profissional quando acontecem situações que o desagrade. Se já foi falado isso anteriormente, o gestor tem condições de abordar o treinador. A maioria dos técnicos tem resistência em discutir questões táticas e de treinos. Mas quando é abordado isso ainda no momento da contratação, o comandante fica mais à vontade para debater isso durante a convivência que vai durar meses e até mesmo anos.

Costumo falar também que a questão salarial deve ser o último tema a ser tratado, depois de todas as demais alinhavadas. Naturalmente, já se sabe de antemão uma ideia em conversas com representantes dos profissionais de quanto o treinador e sua comissão técnica custam ou custaram nos últimos trabalhos. Mas esse tema somente no final das tratativas.

Trata-se de um ritual necessário para minimizar erros. Por este estudo recentemente publicado, percebo que temos um longo caminho no futebol brasileiro a ser percorrido. Da minha parte, seguirei insistindo em uma abordagem mais profissional que apliquei na minha trajetória e julgo ser uma das maneiras de avançarmos daqui para frente.

Em breve, iremos abordar outro tema do mesmo estudo: como dirigentes brasileiros demitem os treinadores. Confira.

Texto de Fernando Carvalho.

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