
Foto: Reprodução/Fluminense
Quem realmente forma os craques brasileiros? Não é o organograma, mas as pessoas. Essa coluna é sobre capital humano na formação. E é um tema tão importante e denso que não conseguirei abordar completamente em uma publicação apenas. Vamos à primeira parte.
A formação não é apenas sobre o que treinar, mas como ensinar
O futebol brasileiro sempre se orgulhou de ser um exportador de talentos (o maior do mundo), mas precisamos entender que o “ouro” não brota sozinho. O capital humano (do massagista aos coordenadores e executivo) é o ecossistema que permite ao talento florescer. Formar um atleta é um ato de pedagogia de alto rendimento. Se não investirmos em profissionais que equilibrem o rigor científico (hard skills) com a sensibilidade humana (soft skills), continuaremos dependendo de milagres individuais em vez de processos de excelência.
O Brasil é reconhecido mundialmente como o “celeiro de craques”. No entanto, raramente paramos para analisar a engrenagem por trás da produção. A pergunta que deve nortear nossa gestão esportiva não é apenas “quem estamos formando?”, mas sim: “com quem estamos formando?” O talento bruto do jovem brasileiro é uma vantagem comparativa, mas sem o capital humano adequado para lapidá-lo, o desperdício de potencial é inevitável.
Na semana passada, escrevemos sobre o “Por quê formamos jogadores?” e na mesma coluna, citei a importância do “Com quem”. Citamos que uma boa formação no Brasil depende de uma engrenagem composta por: Pessoas, Projetos, Planejamento, Comunicação e Investimentos, e destacamos as pessoas, afirmando que sem pessoas capacitadas; sem as pessoas certas alinhadas ao propósito (o “Porquê”), o melhor planejamento do mundo vira apenas papel esquecido em uma gaveta.
Você que trabalha em clubes de futebol já deve ter ouvido: “coloca esse profissional na base para mim. Ele não se encaixa no profissional”, ou ainda: “tenho um grande amigo que está desempregado, passando necessidade; você não consegue nada pra ele na base, não?”. E tantas outras expressões. Isso era natural em clubes de futebol há 20 anos atrás e, por mais incrível que possa parecer, ainda acontece em alguns clubes nos dias de hoje. Essas práticas, embora alguma vezes compreensíveis em contexto de dificuldades financeiras, comprometem a qualidade técnica da formação.
Como já mencionamos, a base não pode ser tratada como apêndice em um clube de futebol, mas o alicerce estratégico de qualquer um que pretenda ser sustentável. É preciso contratar profissionais capacitados e que sejam valorizados. Receber indicações de profissionais é importante e salutar; entretanto, ter profissionais alinhados ao planejamento e metodologia do clube é o que fará o clube ter um trabalho de excelência na formação. E como fazer isso?
É importante que o gestor saiba entrevistar o profissional, que saiba fazer questionamentos importantes para cada função (que são muitas) e que saiba exatamente o que espera das respostas dos candidatos dentro do departamento de futebol de base. Tenho plena convicção de que a abordagem correta minimiza problemas e qualifica o staff. Entretanto, muitas vezes nos clubes de futebol, vale mais a indicação de um Diretor Estatutário, do Presidente, do que um processo alinhado para a devida contratação.
O gestor de futebol de base deve ter conhecimento suficiente para ajudar o RH do clube nas contratações, assim como na formação de um plano de carreira e cargos e salários para o
departamento.
Tive a oportunidade de ler os três livros do Elio Carravetta (leitura obrigatória para quem trabalha com o futebol, principalmente o de formação) e em um deles, ele coloca:
“Procurei entender em décadas, o que o futebol tem de simples e o que tem de complexo. E isso não é simples. Precisei da ajuda das pessoas ao meu redor para buscar esse entendimento.”
Elio Caravetta
Por que contratar, treinar e valorizar profissionais de base é a jogada mais inteligente do futebol brasileiro?
Imagine um clube que gasta R$ 50 milhões em um atacante estrangeiro, mas paga um baixo salário para os treinadores que formam seus futuros craques. Parece absurdo? Mas essa é a realidade de muitos times brasileiros. Enquanto clubes Europeus constroem impérios a partir de suas academias, nós continuamos tratando os profissionais de base como coadjuvantes.
O Problema: A Desvalorização Paradoxal
No Brasil, o profissional de base vive uma contradição perversa: é responsável pelo ativo mais valioso do clube, mas recebe menos atenção e investimento. Essa desvalorização não é apenas injusta; é um tiro no pé estratégico para qualquer instituição que almeja sucesso sustentável.
A Solução: Valorização Efetiva – Reconhecer quem constrói o patrimônio
Valorizar não é apenas pagar melhor (embora isso seja fundamental); é criar um “ecossistema de reconhecimento” que englobe:
Formação Contínua/Atualização Técnica – Investir na evolução de quem forma os que evoluem. Investir em capacitação custa menos do que um percentual baixo do que se gasta com um, apenas um, jogador mediano do elenco principal, com retorno infinitamente maior.
Parcerias com Universidades para cursos customizados, intercâmbios internacionais para observar metodologias que são referência no mundo e mentorias internas, são apenas alguns exemplos do que pode ser feito.
Remuneração competitiva – Profissionais qualificados merecem salários que reflitam sua importância estratégica para o clube.
Plano de Carreira – Oferecer oportunidades de crescimento dentro da estrutura do clube.
Reconhecimento público – Destacar o trabalho desses profissionais em comunicações institucionais e eventos.
Participação nos Resultados – Bônus por jogadores revelados que se consolidam no profissional ou são vendidos.
Mas, independentemente do que o clube pode ou deve oferecer, os profissionais de base não podem parar no tempo (aliás, acredito que nenhum profissional em qualquer profissão deveria). O futebol evolui rapidamente, e metodologias que funcionavam há cinco anos podem estar obsoletas hoje. Não podemos formar jogadores para o passado, mas sim para o futuro.
Mas atenção, Presidentes e Diretores de clubes de futebol! O custo de reposição de um bom profissional de base (recrutamento, treinamento e adaptação) é incalculável. Retê-lo, sem dúvida, é mais barato e mais eficiente para a continuidade do trabalho. Economizar no salário de quem lapida seus diamantes é a forma mais rápida de vender joias a preço de bijuteria; e depois reclamar que o Brasil não produz mais craques.
Na próxima coluna, mostraremos os números que comprovam: investir em quem forma é o melhor negócio do futebol brasileiro. Até lá!
Texto de Carlos Brazil

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