futebol feminino
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O futebol feminino e o mito do ambiente livre de intolerância

Quem acompanha o futebol feminino certamente sabe que assuntos como a diversidade de gênero, sexual e racial fazem parte do dia a dia da modalidade.

O ambiente do futebol praticado por mulheres é, por uma natureza forjada na própria discriminação, mais propício a estes debates, contando com um número expressivo de atletas e profissionais altamente engajadas em pautas sociais, e que na vida pública e privada vivem as bandeiras sobre as quais se discute ainda de maneira embrionária em outros espaços esportivos.

Entretanto, nem mesmo esse ambiente aparentemente inclusivo é capaz de passar ileso a casos de intolerância e preconceito, como ficou evidente na última semana a partir do comentário discriminatório feito pela atleta Chu, atacante do Palmeiras e da Seleção Brasileira, a respeito do falecimento do ator e humorista Paulo Gustavo, o qual não vamos reproduzir aqui em respeito à memória do artista e porque, após a retratação pública da atleta, o clube informou que trataria do tema de maneira interna.

A verdade é que já existem muitos dedos apontados ao futebol feminino e às mulheres no mundo do futebol de modo geral e a ideia desta coluna é não engrossar o coro de acusações que tomou conta da pauta nos últimos dias, mas analisar este acontecimento como um exemplo que demonstra a fragilidade da ideia de que o futebol feminino é um ambiente livre da intolerância e das violências que infelizmente já se tornaram comuns no noticiário do esporte praticado por homens.

Discriminação é uma das barreiras históricas do futebol feminino no Brasil

Por muito tempo, foi aceita como algo comum a associação de características masculinizadas como forma de discriminação às atletas e torcedoras de futebol. A ideia de que a prática de alguns esportes era contrária à “natureza feminina” foi, inclusive, um dos argumentos mais fortes da proibição legal do futebol feminino que vigorou por quase 40 anos no Brasil. Essa mentalidade praticamente intrínseca em relação à modalidade normaliza a ideia de que o futebol não é “coisa de mulher” enquanto o termo mulher significa nesse contexto uma idealização do sexo feminino.

Se o histórico não é suficiente, o que não faltam são exemplos recentes de como esse pensamento se manifesta na prática. Com a obrigação da manutenção de equipes de futebol feminino imposta aos clubes pelas entidades de administração do desporto a partir de 2019, a modalidade passou a fazer parte dos noticiários esportivos com maior frequência, mas nem sempre por conta de assuntos que realmente gostaríamos de tratar.

Além do comentário discriminatório feito por Chu, já tivemos destaque a casos de racismo sofridos por atletas do Bahia por parte da equipe de transmissão de Napoli x Bahia na plataforma oficial de streaming contratada pela CBF para transmissão do Campeonato de Futebol da Série A1, comentários de cunho sexual feitos por uma equipe de rádio e por usuários do Instagram em relação às atletas do sub-16 do Internacional, além de sistemáticos ataques preconceituosos às redes sociais de atletas declaradamente homossexuais.

Ante todo este contexto, o fato de, ao contrário do que vemos no futebol praticado por homens, muitas atletas assumirem publicamente relacionamentos homoafetivos não é por si só uma prova de que o futebol feminino é um ambiente exatamente seguro em relação à discriminação sexual.


Dia 17 de maio é o dia Internacional contra a Homofobia e, como o ambiente do futebol não está livre dos preconceitos, o FootHub irá promover um evento gratuito para falar sobre a homofobia na estrutura do futebol. O webinar acontecerá no dia 17 de maio, às 19h30, com João Abel, jornalista e autor do livro “Bicha: homofobia estrutural no futebol”; Alline Calandrini, jornalista e ex-jogadora; e Gustavo Bandeira, pesquisador da UFRGS sobre homofobia e racismo nos estádios. Bora participar? ⚽️🏳️‍🌈

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Redes sociais são amplificadores das violências, mas também dos debates

Não por acaso os exemplos utilizados neste texto têm em comum o contexto da internet e das redes sociais. Cada vez mais vemos a discussão ser levantada a partir das manifestações de atletas, integrantes de comissões técnicas, torcidas, presidentes de entidades, jornalistas esportivos e demais agentes do futebol.

A revolta que o comentário da atleta gerou – assim como vimos acontecer em outros casos de posicionamentos de atletas na internet (e aí podemos discutir a repercussão de cada episódio) – demonstra que os personagens do futebol de modo geral vêm sendo cada vez mais cobrados a respeito de suas posturas fora de campo.  

Praticar ato discriminatório, desdenhoso ou ultrajante, relacionado a preconceito em razão de origem étnica, raça, sexo, cor, idade, condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência no âmbito do esporte é infração prevista no Código de Justiça Desportiva e a homofobia e a transfobia passaram a constar neste rol de violências a partir de 2019, segundo Recomendação do STJD que seguiu o entendimento do STF equiparando essas violências ao racismo, o que é considerado um grande avanço em relação ao tema, mas não garante, como qualquer outro texto legal, o fim do preconceito e da intolerância.

O futebol integra e reflete a sociedade e não é um mundo à parte dela, seja ele praticado por homens ou mulheres. A responsabilidade pela criação de um ambiente livre de intolerância é de todos e os recentes casos de discriminação que têm origem no ambiente interno do futebol feminino apenas reforçam o quanto essa é uma luta de toda a sociedade, uma vez que o preconceito é um inimigo geral.

Texto de Luiza Soares.

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