jogadores em silêncio
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O assessor de imprensa e os silêncios

Costumo brincar com amigos advogados que no direito vale é o que está nos autos, sendo verdade ou mentira. Se a justiça é cega, o martelo batido então pode ser surdo. No jornalismo, pressupõe-se trabalhar com a verdade. Amigos advogados, na mesma medida, me provocam afirmando cada um ter a sua. Exercer a função de assessor de imprensa no futebol é caminhar na linha tênue entre a obrigação estudada em faculdade e uma realidade do mercado de trabalho que impõe encruzilhadas pelo caminho. O silêncio é uma delas.

Os silêncios que ouvi

Em um rápido exercício de recordação tentei elencar uma série de silêncios dos quais me deparei quando estive na assessoria do Grêmio. Os gabinetes e o vestiário são apenas dois dos locais em que o público mais exige da imaginação para tentar desenhar o que lá acontece. Asseguro, no entanto que, em determinados momentos, o vestiário de um time recém derrotado é o lugar onde ninguém gostaria de estar. Imagine então iniciando a trabalhar.

 É o caso dos assessores de imprensa que convivem semanalmente com as incertezas dos resultados de campo e as certezas de alimentar a torcida com informação. Informação nesse caso é através da fala dos personagens da bola nas entrevistas que o povo apaixonado por futebol consome diariamente. O advento das coletivas incutiu neste profissional uma responsabilidade da qual a maioria não tem ideia do tamanho. Escolher quem dará a cara a tapa após uma derrota ou quem colherá os louros da vitória não é tão fácil quanto parece. 

“Na assessoria de um clube tem muitos interesses por trás da notícia. Ela pode ser interessante ao centroavante e desinteressante ao meia. Ela pode ser interessante para o diretor de futebol e não ao técnico. E você trabalha para todos”. Quem levanta o assunto é Juca Pacheco, assessor por 25 anos do São Paulo, no episódio 104 do Podcast Hoje Sim, comandado por Cléber Machado.  

Voltemos aos silêncios e às encruzilhadas. Faz parte da rotina de um assessor a indagação frequente, por vezes abusiva e acima do tom, para que respostas e explicações sejam dadas. Senão por nós mesmos, por quem assessoramos. E nem sempre isso é possível sair ao agrado de todos os envolvidos. Como já disse o ex-presidente do Inter Fernando Carvalho em uma aula do curso O Executivo de Futebol aqui no Foothub, há momentos de ficar quieto e dar a paleta para aturar as pancadas. Se pensado, esse silêncio é estratégico. Se não for bem comunicado, pode soar como represália, medo, omissão ou consentimento.

Outro ex-dirigente teve participação fundamental na construção desses conceitos na minha carreira. Nunca mais esqueci o ensinamento que aprendi com o falecido ex-superintendente de futebol do Grêmio por mais de cinco décadas Antônio Carlos Verardi. “O silêncio da concentração é diferente do silêncio do descompromisso”. Com os treinadores que trabalhei, Vanderlei Luxemburgo demonstrou ser o melhor cão farejador para identificar essa diferença de comportamento nos jogadores e agir imediatamente.

O pior silêncio de todos sem dúvida alguma é o da tristeza. Da percepção de impotência por não conseguir voltar no tempo e tentar fazer diferente. Digo que a janta pós-derrota é um dos piores momentos no futebol. Trata-se de uma obrigação da programação, claro, mas o silêncio impera, interrompido apenas pelo som dos talheres, enquanto jogadores fazem a refeição e comissão técnica e diretoria esperam os atletas saírem das mesas para conversarem mais à vontade.

Leia também no site do FootHub:

Copa do Nordeste, regional e digital, por EntreLinhas.

A cobertura da imprensa no esporte feminino, por Gabriela Matos.

O assessor de imprensa e o ídolo, por JP Fontoura.

Recentemente no Foothub Sessions o ex-assessor de imprensa da Seleção Brasileira de quatro Copas do Mundo, Rodrigo Paiva, relatou com riqueza de detalhes e serenidade na fala os momentos íntimos que sucederam o 7 a 1 diante da Alemanha. Imagine a cena e mais do que isso: preste atenção no tempo de duração e se pergunte se gostaria de viver esse bastidor.

Assista ao episódio do FootHub Sessions com Rodrigo Paiva.

“É uma coisa que me marcou para sempre na minha vida. Um silêncio de umas 3h desde a saída de Belo Horizonte, desembarque no Rio de Janeiro e deslocamento até a concentração na Granja Comary. No ônibus era uma escuridão só. Sempre que a gente descia a serra, nas ruas e na estrada era um mar de gente, incrível. E nesse dia não tinha ninguém. Nem para nos xingar. As pessoas perderam as forças até para nos xingar. Era um silêncio profundo. Não se ouvia ninguém falar nada, apenas sussurros”, recordou o jornalista.

As redes sociais trouxeram uma velocidade à exigência de respostas por parte das instituições que não é mole de acompanhar. Com o passar do tempo, porém, há de se observar que em determinadas situações não falar tem também um significado. Anos atrás a FIFA finalmente chancelou o título de campeão do mundo do Grêmio, de 1983. Eufóricos muitos torcedores correram para o celular para comemorar, cutucar os rivais e outros foram além. Depois de tanto tempo cobraram um posicionamento do clube a reforçar conquista. Nada feito. Literalmente.

Aos poucos, torcida e até mesmo a imprensa perceberam a estratégia institucional. Um título que há quase 40 anos brilha em azul neon a casa tricolor (antes do Olímpico e hoje a Arena) não precisava de um carimbo para que fosse novamente comemorado. Ao permanecer em silêncio, o clube mandou seu recado. Desta vez não falar nada teve enorme significado.

No início do ano participei de um outro Podcast. Vocês da Imprensa, com o apresentador Marcelo Barreto, do Sportv, debateu o relacionamento entre imprensa e clubes. Participou comigo a jornalista do grupo Globo Renata de Medeiros. Por mais de uma hora conversamos sobre aspectos e meandros da profissão. Tanto deste quanto de outros encontros de jornalistas é legal parar um pouco para ouvir o que eles têm a falar de uma profissão da qual todo mundo tem opinião a respeito.

Com quatro frases aqui reunidas, encaminho o encerramento. A primeira é minha mesmo: “ O que incomoda é a verdade”. A segunda, da Renata: “O meu pilar no jornalismo é a apuração. A terceira, do Rodrigo: Mentir é ruim. Omitir é uma boa opção. A verdade é o melhor, mas é preciso enfrentá-la com inteligência. Por fim, a do Juca: “O ativo de um assessor é o mesmo de qualquer jornalista. A sua credibilidade. ” Portanto, preste atenção. Se alguém às vezes fica em silêncio, talvez esteja querendo lhe dizer alguma coisa. Ou não.

Texto de João Paulo Fontoura.

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