jogador chutando bola
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Inovação no futebol não é apenas tecnologia

Quando se fala em inovação muitas pessoas automaticamente pensam em tecnologia, robôs, inteligência artificial etc. Quando é inovação no futebol os primeiros pensamentos remetem às questões de marketing, banco de dados, Scouting e análise de desempenho.

Porém, a inovação não é apenas sobre tecnologia.

No aspecto de captar e formar atletas, o Athletico Paranaense foi inovador nos últimos anos. Ficar na zona de conforto é cômodo, mas também um grande risco em médio e longo prazo, principalmente em um clube de futebol, um sistema vivo e em constante movimento.

A coisa mais arriscada que podemos fazer é manter o status quo.

Bob Iger, CEO da Disney

Recentemente li um artigo sobre a reformulação da equipe de futebol americano do Cleveland Browns, que nos últimos anos foi a de pior desempenho, chegando a vencer apenas uma partida em 32 jogos. O Chief Strategy Officer (CSO) da franquia, Paul DePodesta, destacou um ponto interessante e que me lembrou alguns dos debates que aconteciam no cotidiano do CAP. Em tradução de minha autoria, a frase: “Você precisa estar ciente de onde está no ciclo de vida da sua organização. Você tem tantas chances, ou janelas de oportunidade e, quando essas janelas estão abertas, requer uma certa mentalidade. Nosso objetivo não é ser um 9-7 ou 10-6 (números de vitórias/derrotas numa temporada). Estamos chegando mais longe do que isso”.

Ou seja, a zona de conforto não pode ser uma opção para equipes (com histórico recente vencedor ou não). Como diria Tim Brown, considerado o pai do Design Thinking, “a inovação requer, acima de tudo, uma disposição para abraçar o caos”.

E qual foi esse caos que o CAP abraçou nos últimos anos? Listo alguns pontos importantes nesse processo:

  • Amplo debate de ideias na construção do que hoje é chamado de “Jogo CAP”. Discutir ideias e não pessoas;
  • Forte atuação na captação de base. Nesse aspecto não existe um modelo ou receita que basta copiar e colocar em prática em outro clube. É preciso conhecer a cultura do clube, seu modelo de jogo e os objetivos estratégicos. Um clube pode atuar de forma mais regional, captando atletas das cidades ou estados mais próximos à sua localização geográfica, restringindo o raio de atuação e dominando bem essa região. Já uma equipe com maior poder de investimento pode captar de forma mais descentralizada, atuando com observadores e parceiros em diversos estados. Porém, a assertividade também precisa ser maior, pois o custo de manter um profissional atuando longe do clube e de trazer um atleta que more em estados mais distantes para um período de testes ou avaliação é alto;
  • Processos! Sejam os primários, de suporte ou gerenciamento. A ideia de criar algo novo ou aperfeiçoar o que está sendo feito permeia o cotidiano do clube.

Inovação na prática

No texto Existe uma fórmula de sucesso para formar jogadores?”, falei um pouco sobre como o CAP teve uma temporada 2020 muito interessante nas categorias de base, em especial Sub-20 e Sub-17, que disputaram as competições nacionais. Fazendo um levantamento dos atletas das duas equipes, é interessante analisar a mescla entre jogadores recém chegados ao clube com outros já inseridos com mais profundidade nas metodologias de ensino da instituição.

Vamos aos dados. Atletas que chegaram ao clube em:

  • 2019/2020 (Scouting + Desenvolvimento): 51%
  • 2017/2018 (Scouting ++ Desenvolvimento): 42%
  • 2015/2016  (Scouting +++ Desenvolvimento): 7%

Os dados mostram como funciona o funil do futebol, onde são poucos o que chegam ao fim do processo de formação e iniciam uma nova etapa ainda mais concorrida que é a estabilização e promoção no futebol profissional.

É possível observar que um pouco mais da metade dos elencos Sub-20 e Sub-17 tem até dois anos de clube, muitos oriundos de uma forma mais agressiva de captação apostando em atletas com passagens por equipes profissionais ou com históricos de seleção de base. Foram contratados atletas do Criciúma, Figueirense, Cruzeiro, Internacional e clubes do interior paulista.

E a outra metade já apresenta uma exposição maior ao trabalho de desenvolvimento. A formação de um cidadão (consequentemente de um atleta) passa invariavelmente pela educação: formal, complementar, social, comportamental e esportiva. É possível conhecer um pouco mais sobre essa visão na entrevista que o treinador Eduardo Barros concedeu ao Footure.

Essa formação é amparada dentro de uma metodologia de trabalho, disseminada internamente para todos os colaboradores que fazem parte do processo de formação, seja por meio de um documento orientador, de workshops e debates entre comissões. Em paralelo a isso, é preciso ter a clareza de quais são as carências do elenco e ter uma diretriz na captação de atletas. Todo esse trabalho foi construído coletivamente, algo que pode parecer básico, mas que no futebol brasileiro ainda é raro. A forma de aprender e buscar referências internas e externas revela um pouco dessa inovação que o CAP vem promovendo. E toda inovação só acontece quando há uma liderança forte e inovadora.

Como bem destacou o Rodrigo Romano, no artigo “A Era da Inovação”, a   “inovação deve se tornar algo cultural, uma visão implementada dentro das organizações, independente de um departamento” e “vemos o futebol brasileiro muito crítico quanto aos erros, criando grandes vilões nas disputas dentro de campo. A consequência disso é o medo da inovação, evitando opiniões contrárias por um lado, mas o avanço por outro”.

Nos últimos anos, sob a liderança do presidente Mario Celso Petraglia, o Athletico conseguiu implementar algumas novidades na gestão do Futebol. No dia a dia, essa cultura de inovação pôde ser amparada por diversos diretores, gerentes e coordenadores que estão ou estiveram no clube nos últimos seis anos.

Dentre alguns exemplos, é possível destacar algumas parcerias que trouxeram novas metodologias e visões sobre como formar um atleta, como ensinar e como melhorar os ambientes de treino e jogo. A parceria com a empresa americana EXOS (2015), referência em performance esportiva, trouxe uma nova rotina para os atletas e, em paralelo, capacitou os profissionais do clube de diversas áreas ligadas à Performance e à Saúde. Ainda na parte de performance, algumas tecnologias também contribuem, como a nova academia com os equipamentos Keiser e parcerias para o monitoramento de carga dos atletas com a Catapult. Algo pouco divulgado, mas que merece destaque, é que a Arena da Baixada é o primeiro estádio da América Latina a utilizar o ClearSky, a tecnologia de sistema de posicionamento local (LPS) da Catapult.

Na parte de gestão e desenvolvimento do futebol, o CAP contou com outras consultorias, como a belga Double Pass (2018), que fez uma análise completa a partir de itens previamente respondidos, entrevistas com diversos profissionais e atletas do clube, observações de treinos e jogos, e posteriormente a apresentação de um relatório com sugestões e itens que poderiam ser aperfeiçoados ou implementados em curto, médio e longo prazo.

Outras consultorias recentes aconteceram com a Universidade do Futebol e InConnection (2019), que juntas trouxeram de forma inovadora para o futebol uma mudança de uma organização hierárquica tradicional (com caixas e silos) para uma organização matricial, com foco em melhorar a eficiência de comunicação interna, desenvolver lideranças e ter uma cultura de formação em torno do chamado “Jogo CAP”.

Até aqui trouxe exemplos de inovações que envolvem uma cultura alinhada e forte e outras que necessitam de investimento. Entretanto, é possível inovar sem custos ou com investimentos pequenos. Esse é o tema da próxima coluna!

Texto de Caio Derosso.

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