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Foto: Lesley Ribeiro/CBF

A recente iniciativa da CBF de criar um Grupo de Debates focado na base do futebol brasileiro é um passo inegavelmente correto e elogiável. Reconhecer que o futuro da nossa Seleção e a saúde financeira dos clubes dependem da formação que ocorre entre o sub-7 e o sub-20 é o ponto de partida para recuperarmos o protagonismo mundial. Contudo, para que esse grupo não seja apenas um fórum de boas intenções, ele carece de um elemento essencial: representatividade real.

O legado do MCFFB e profissionais que pensam a formação na base durante décadas

Não se constrói o futuro ignorando quem pavimentou parte do caminho. Não se pode falar em organização da base no Brasil sem citar o Movimento dos Clubes Formadores do Futebol Brasileiro (MCFFB). O que nasceu como uma ideia embrionária em 2011, tornou-se realidade em 2012, visando ampliar o diálogo entre os clubes detentores do Certificado de Clube Formador (CCF) e aprimorar o desenvolvimento técnico e ético da nossa formação

O MCFFB foi o grande artífice da criação dos campeonatos nacionais de base, com o apoio da CBF, e da implementação de uma ética de respeito institucional que freou o aliciamento predatório.

Membros desse Movimento, assim como Coordenadores, Treinadores e outros profissionais, que estão no “olho do furacão” há décadas, precisam ser parte obrigatória deste debate. Sem eles, corre-se o risco de criar teorias que não sobrevivem à realidade dos CTs brasileiros.

Nomes que são referência acadêmica e prática, como os Professores Eduardo Húngaro, Israel Teoldo, João Paulo Medina, Próspero Paoli e outros, devem estar no centro dessa discussão.

Alinhamento Global: Ciência e Pedagogia

O Debate deve ser pautado por referências técnicas modernas. O documento da CONMEBOL sobre a metodologia do futebol de base na América do Sul (Programa Evolução), que contou com a colaboração de Teoldo e Paoli, foca na biologia do desenvolvimento e na pedagogia do esporte e já aponta caminhos fundamentais para o debate. A premissa é clara: não podemos tratar o jovem como um “adulto em miniatura”.

Para que haja uma padronização nacional, o Grupo de Debates da CBF deve focar em pontos vitais:

Unidade Cronológica e Categorias – Atualmente, há uma desconexão entre as Federações Estaduais, e como pensam os Clubes, sobre quando iniciar o trabalho de campo (alguns aos 7, outros aos 9; tantos outros aos 10 ou 11). Essa desconexão se agrava no formato das competições.

Além disso, diante do baixo êxito do sub-23 no país, é urgente rediscutirmos a transição final. Propor categorias como o sub-19 e o sub-21, oferecendo uma janela maior para atletas de maturação tardia.

Padronização Evolutiva – É necessário adequar o tamanho do campo e o número de jogadores por idade. Hoje, muitas federações colocam crianças de 11 anos em campos oficiais , priorizando o vigor físico em detrimento do talento técnico. Precisamos priorizar o contato com a bola e o raciocínio em curto espaço.

Metodologia – Respeitar as fases de desenvolvimento, focando em coordenação motora na infância e deixando todo rigor tático e físico para a pós-puberdade.

O documento da CONMEBOL destaca as idades certas para treinamento de certas valências e debater isso com as Federações e Clubes pode ser vital para que os calendários de jogos não exijam força física antes da técnica.

Licenciamento de Clubes Formadores – Critérios mais rígidos de infraestrutura e suporte multidisciplinar.

Capacitação obrigatória – Padronização de captação obrigatória para os profissionais que formam e moldam os atletas.

– Respeito à Maturação Biológica – Defendo que os clubes tenham a opção de utilizar atletas nascidos no segundo semestre de cada ano em categoria inferior, ao menos durante o primeiro semestre do ano, até que completem 16 anos. Um jovem nascido entre julho e dezembro compete em desvantagem física, o que muitas vezes mascara seu talento. Permitir que atue, por exemplo, no sub-10 antes de subir definitivamente ao sub-11, é uma medida de justiça e preservação de talentos.

Calendário: Respeito ao Atleta e à Educação

A reestruturação do calendário de base no Brasil é urgente para conciliar a formação esportiva com a vida acadêmica (jogos que exigem viagens para menores de 18 anos não podem ser disputados em meio de semana, por exemplo). Padronizar torneios estaduais é o primeiro passo para equilibrar a competitividade.

Um exemplo crítico é a tradicional Copa São Paulo Sub-20. Atualmente, devido ao conflito com o calendário do futebol profissional, prejudica tanto a transição do atleta quanto a logísitica do torneio. Antecipá-la para o período entre novembro e dezembro garantiria o devido descanso e as  férias dos jogadores.

Da mesma forma, o Campeonato Brasileiro sub-15 poderia finalmente ser implementado em formato regionalizado durante o mês de julho (aproveitando o recesso escolar e disputado em sede única por região). Os quatro primeiros colocados de cada região disputariam as finais em dezembro, em centros de excelência, como a Granja Comary ou os Centros de Treinamento legados da Copa do Mundo.

Outro ponto crucial para o debate é o excesso de jogos na base em detrimento ao treinamento. A preparação técnica, tática, física e psicológica é fundamental em todas as fases da carreira, mas torna-se ainda mais vital na fase de formação.

Uma Estrutura de Gestão Profissional na CBF

Mudar a cultura da base exige dedicação integral e não apenas reuniões esporádicas.

Implementar essas mudanças nas Federações Estaduais, adaptação dos Clubes, exige política, convencimento e, acima de tudo, trabalho e braço operacional.

Por isso, defendo que a CBF constitua uma equipe técnica de 3 a 5 gestores de base , contratos pela entidade com dedicação exclusiva. Esses profissionais (e temos excelentes espalhados pelo Brasil) seriam embaixadores da metodologia, percorrendo o país para unificar processos e garantir que o nível técnico suba de forma homogênea.

Esse trabalho de “formiguinha” é um projeto de médio e longo prazo para criar uma linguagem metodológica unificada no Brasil.

O Resultado Final

O futebol brasileiro não se resolve com fórmulas mágicas nem somente com boas intenções, mas sim com gestão profissionalizada e respeito a quem já realiza o trabalho no dia a dia. Reformular a base exige tempo e dedicação. Ao final, não serão apenas os clubes beneficiados; teremos uma formação de excelência, um mercado interno valorizado e uma Seleção Brasileira capaz de demonstrar que o melhor futebol do planeta é praticado aqui.

Desejo que a CBF obtenha êxito com essa iniciativa. O futebol brasileiro necessita dessa evolução e agradece. Seguimos na torcida!

Indicações de Leitura:

Muito Além da Bola – O Futebol que Transforma – João Paulo Medina / Heloisa Rios / Rafael Lacerda

Para um Futebol Jogado com Ideias – Israel Teoldo / José Guilherme / Júlio Garganta

Na próxima coluna: Abordaremos a importância da COMUNICAÇÃO no ambiente interno e externo do futebol.Não percam!

Links para as colunas anteriores:

– Por que formamos jogadores?

– Quem forma os jogadores? O capital humano como o verdadeiro craque da base. 1ª parte

– Quem forma os jogadores? O capital humano como o verdadeiro craque da base.  (2ª parte)

– Hipotecando o Futuro: Por que o Futebol Brasileiro Prefere Comprar o Mediano à Lapidar o Ouro?

Texto de Carlos Brazil

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