Se você abrir qualquer site de notícias de futebol recentemente, irá encontrar uma ou mais notícias sobre crise nas finanças de clube de futebol da série A:
06 de outubro: São Paulo pode perder pontos no Brasileirão por transfer ban da FIFA.
24 de setembro: Com bets sob risco, clubes das Séries A e B negociam socorro financeiro do Governo
17 de setembro: Inter quita atrasados e antecipa pagamento aos jogadores com aporte de parceiro.
Um cenário bem preocupante, mas não incomum. Em 2015, por exemplo, os clubes também estavam em situação difícil e recorreram ao Profut (Programa de Modernização da Gestão e de Responsabilidade Fiscal do Futebol Brasileiro) para renegociar suas dívidas com a União e ganharem um certo alívio nas contas. Dois momentos distintos do nosso futebol e a mesma dificuldade de lidar com o dinheiro. Será que sempre estamos em crise?
Fui atrás de alguns números para entender a origem desse problema, utilizando como referência o relatório Convocados, estudo produzido pela Convocados Gestão e Futebol em parceria com a Outfield que analisa as finanças do futebol brasileiro.
A primeira hipótese seria um crescimento mais lento das receitas dos principais clubes brasileiros. Quando olhamos o primeiro gráfico abaixo, essa hipótese é descartada. Trabalhando com a série histórica de 2021 até 2025 divulgada pelo relatório, percebemos que o nível de receita dos 20 clubes da série A segue um crescimento contínuo, atingindo R$ 14 bilhões no ano de 2025. No período de cinco anos analisado tivemos aumento das receitas em quatro deles, sendo o mais recente de 2024 e 2025, cerca de 32% como consta no segundo gráfico.


O próximo indicador a ser investigado é a dívida dos clubes, onde o começam a ficar mais aparentes os motivos da crise. Aqui, no primeiro gráfico da sequência, percebe-se um aumento no nível da dívida de R$ 8 bilhões para R$ 17 bilhões, considerando o período entre 2021 e 2025, entre os clubes de série A e dívidas relevantes de série B. Já o segundo gráfico mostra uma das principais razões para este aumento, a dívida operacional. O relatório traz a exata explicação para o fato: “Crescimento da dívida líquida consolidada puxado pelo aumento das dívidas operacionais, basicamente aumento de valores a pagar a clubes por contratações de atletas (reflexo do aumento de investimentos).”


Agora que vimos os números, precisamos entrar no motivo de eles seguirem por este caminho. Existem alguns fatos que nos ajudam nesta explicação.
Entendendo as finanças
Em 2023, os clubes receberam adiantamentos de valores vinculados à venda de um percentual dos direitos comerciais de uma das ligas criadas no futebol brasileiro. Já em 2025 houve um aumento de 67% na participação das bets nas receitas comerciais dos clubes, saltando de R$ 615 milhões para R$ 1,05 bilhões. Voltando no tempo, consigo lembrar de luvas pelo contrato de televisão em 2012 e 2016, além do próprio Profut citado anteriormente nesse texto na década passada.
Estas entradas de dinheiro podem ser consideradas extraordinárias nos cofres dos clubes, altos valores que não eram esperados. Estes eventos tiveram como consequência um aumento geral de gastos, tanto com pagamento de transferências, quanto com salários de atletas, o que acabou inflacionando o mercado como um todo.
Cada vez que aparece uma nova fonte de receita, o futebol parece encontrar também uma nova razão para aumentar seus gastos.
O planejamento e a visão de longo prazo são conceitos que acabam ficando de lado, principalmente em clubes onde há maior pressão externa. No entanto, haverá um momento em que as entradas extraordinárias deixarão de acontecer, ou até mesmo não serão suficientes para atenuar a crise nas finanças já enraizada no mercado. Então será tarde demais para pensar em sustentabilidade financeira.
Texto de Rodrigo Romano



