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Assessor de imprensa e executivo de futebol: uma relação de confiança e tomada de decisão

Pouco tempo atrás em um workshop sobre Assessoria de Imprensa e Gerenciamento de Crise, um estudante soltou uma pérola: “De jornalismo e futebol, todo mundo entende um pouco”. Exageros à parte, há uma provocação saborosa e proveitosa na fala a partir do momento em que são dois assuntos diariamente debatidos em ambientes privados e públicos.

Um clube de futebol, embora uma instituição privada, goza de elementos que o validariam como órgão de interesse público tamanho é o número de pessoas que por ele estão envolvidos. Envolvidos emocionalmente e, claro, cobrando. Sendo assim, seus personagens estão diariamente expostos ao crivo. A exposição cada vez maior dos jornalistas também, principalmente em redes sociais, coloca a pedra do bodoque agora no centro da vidraça.  Nos dias atuais, o bombardeio do pelotão de fuzilamento está permanentemente de plantão. Os alvos? O jornalismo e o futebol, temas de domínio público como brincou seriamente o aluno em sala de aula.

Uma das prerrogativas do jornalismo é trabalhar diante da ruptura da normalidade. Quando um acontecimento rompe a linha do comum, os diversos valores-notícias estudados em faculdades brotam de tudo que é lado. Para que de alguma maneira sejam reconhecidos pela sociedade, no entanto, é preciso haver uma percepção do cenário e dependendo do caso, uma desaprovação púbica que indique uma crise a partir dele. 

Muitos são os valores notícias: notoriedade do acontecimento ou da figura envolvida, proximidade ao fato, relevância, novidade, notabilidade, surpresa, conflito e escândalo. Perceba que ao mesmo tempo em que estamos falando de conceitos de comunicação, todos eles encontram guarida no terreno futebolístico.

A importância do assessor

É neste ponto que penso ser fundamental a presença de um jornalista no vestiário de um clube de futebol. A passagem pela academia e por uma redação solidificam as estratégias que este profissional venha a contribuir em circunstâncias nevrálgicas as quais um time, um jogador, um treinador e um dirigente estão expostos rotineiramente. Diante de um calendário quase centenário de jogos de uma temporada, os dilemas se avolumam todas as semanas. Não há trégua. E em se tratando de um esporte de altíssima visibilidade nacional, seus agentes dormem abraçados no travesseiro da lupa.

Costumava dizer quando trabalhei na assessoria do Grêmio que quando a coisa está calma é que precisamos estar alertas. A tensão é que nos coloca despertos, atentos para o que pode vir a acontecer. Portanto, antecipar cenários, elencar possibilidades e principalmente indicar um comportamento a seguir é uma contribuição que um assessor não pode abrir mão, ainda que se arrisque diante do patrão ou dos chefes.

No organograma do gabinete acarpetado ou no azulejo do vestiário, há hierarquias a cumprir. E mesmo cumpridas, há caminhos bifurcados a percorrer. Lembremos que, no Brasil, os executivos dividem a pasta com dirigentes políticos e quando há divergências naturais quando várias cabeças compõem o departamento de futebol, de qual lado deve ficar o assessor: no do chefe ou no do colega?

“Um clube de futebol tem diversos tipos de comando. Presidente, vice-presidentes e os profissionais contratados para cargos de gestão, como é o caso de um diretor executivo. Vejo que o mais importante é que o assessor saiba transitar em todas as áreas e possa atender os seus superiores com eficiência

Gabriel Cardoso, assessor de imprensa do Internacional.

Adversário colorado na disputa do título do Campeonato Brasileiro 2020, Marcelo Flaeschen, colega da mesma função no Flamengo, contribui com uma visão de uma praça com características diferentes das conhecidas na Província de São Pedro:

“É preciso entender, primeiro, a cultura de cada clube e suas rotinas. No Rio Grande do Sul, os estatutários têm muita força, concedem entrevista todo pós-jogo. Há uma grande valorização dos vice-presidentes. No Rio, por exemplo, não ocorre isso. Eles aparecem mais em momentos pontuais, e os diretores executivos têm mais voz no dia a dia. Todos têm sua importância dentro do processo. Compreender o contexto em que está inserido ajuda o assessor de imprensa a administrar as informações e a rotina com seus chefes. ”

Marcelo Flaeschen, assessor de imprensa do Flamengo.

Fernando Carvalho foi um dirigente vitorioso no Internacional com décadas de serviços prestados ao clube. Prestes a ministrar o curso “Executivo de Futebol” aqui no Foothub, o ex-presidente enxerga um horizonte diferente da perspectiva atual:“O moderno executivo caminha para ser o chefe no lugar do vice que com o tempo se extinguirá. ” Nos principais clubes brasileiros, o executivo ganhou um protagonismo significativo.

Clique aqui para saber mais sobre o curso Executivo de Futebol, ministrado por Fernando Carvalho e com participações especiais de Alexandre Mattos, Jorge Macedo e do próprio JP Fontoura, autor desse texto.

Ocorre que por serem ainda entidades com formatação política, além da remuneração alta em alguns casos, o reconhecimento deste profissional pode desagradar internamente. Vaidade, ciúme e ego são elementos reluzentes no mundo da bola. Ao assessor cabe esta observação no sentido de que é ele muitas vezes o responsável por decidir – embora não devesse e o público externo não saiba – quem irá “dar a cara à tapa” como se fala na linguagem popular. No futebol, falar depois de uma vitória e depois de uma derrota são duas situações diametralmente opostas.

“Uma liderança da área da comunicação deve ter no assessor de imprensa um de seus principais porta vozes. Hoje em dia com redes sociais, site, revistas dos clubes, todas têm que ter a mesma linha de conduta e isso passa pelo pensamento do futebol e é direcionado ao assessor de imprensa que a partir daí distribui da melhor forma possível esse conteúdo.”

Cícero Souza, gerente de futebol do Palmeiras, aponta para uma pista importante quando estamos debatendo a relação entre o executivo de futebol e o assessor de imprensa.

“Antes de qualquer coisa, deve ser uma relação de confiança, respeito e lealdade. Se não houver, não dará certo. Surgem crises desnecessárias e otimizam outras. São duas funções estratégicas que precisam caminhar juntas, principalmente nos momentos de tomada de decisão”,

Completa, Marcelo Flaeschen.

Ao mesmo tempo em que assessora os alvos, mas não fala por eles, o jornalista deve trabalhar ao máximo na tentativa de sedimentar um discurso que seja bom para a instituição, mas que não traga prejuízos nas relações internas e muito menos consequências externas pelas quais não se têm controle. E isso não é tarefa fácil nem para o assessor nem para o assessorado, este sim responsável pela fala. Por isso, a capacidade comunicacional, o relacionamento saudável com a imprensa e lealdade com os comandados são habilidades que, caso seja o porta voz do clube, o executivo deve ter em mente desenvolver. É ele quem representa o todo.

O executivo deve estabelecer uma relação de subordinação em relação a todos do setor, executando a política do Conselho de gestão ou órgão equivalente”, conclui Carvalho. No clube gaúcho, Gabriel Cardoso, trabalhou com o dirigente e sintetiza a relação destes profissionais.

“Vejo que é muito importante que exista proximidade e um bom alinhamento diário. O executivo é quem participa de todos os processos dentro de um departamento de futebol e é importante que ele mantenha o assessor de imprensa informado sobre diversos assuntos com o intuito de antever algumas ações e de planejar a comunicação, não precisando agir apenas para suprir demandas. ”

Agir de forma pró ativa é algo talvez mais importante do que a agilidade na reação para apagar algum incêndio. Gerir com competência diminui o risco de crise. Gerir com incompetência proporciona cenários para tal. Em um vestiário é comum que os problemas não estejam ligados aos resultados, mas são potencializados quando estes não vêm.

É natural em um ambiente peculiar existir uma bomba relógio a explodir bem perto de onde caminham todos, mas nem todos enxergam o cronômetro regressivo. Seja porque não se preocupam com o estrago, seja por desconhecimento ou por fata de visão mesmo. Os estilhaços quando as janelas explodem para fora certamente terão o assessor de joelhos os juntando. Portanto, incutir em todos os locais de trânsito o sentimento de confiança é essencial.

 “Entendo que o assessor tem que ter livre circulação pelo departamento de futebol entendendo tudo o que está acontecendo para ajudar na elaboração de como contextualizar torcida e imprensa daquilo que está sendo feito

Cícero Souza, Gerente de Futebol do Palmeiras

Engana-se quem pensa que é apenas nas quartas e domingos que os acontecimentos do futebol tendem a romper a fronteira da normalidade. O dia a dia de um grande clube é um eletrocardiograma de emoções, picos de tensão, negociações, negações, permissões e reflexões que fazem do jogo apenas um exemplo como uma fotografia. Mostra uma imagem e um significado, mas não necessariamente clareia o fato. 

Por fim, assim como um jogador durante os noventa minutos de jogo fica aproximadamente três de posse da bola, ainda assim ele pode ser decisivo. Guardadas as proporções, uma boa tabelinha entre um assessor e um executivo pode significar um gol para o clube. E saldo de gols é critério de desempate. Tomadas de decisão fazem parte do futebol. Todos os dias. Quem não quer tomar decisões, melhor tomar outro rumo.

Texto de João Paulo Fontoura.

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