
Foto: Fernando Torres / CBF
Hoje quero falar sobre um tema que considero fundamental para o futuro da formação de atletas no Brasil — e também um desejo antigo de muitos analistas de mercado: a criação de uma liga Sub-23 ou, no mínimo, a utilização obrigatória dessa categoria em competições nacionais.
O futebol brasileiro vive um paradoxo que atravessa décadas. Produz talentos em grande escala, mas perde uma parte significativa justamente no momento mais crítico da formação: a transição entre a base e o profissional. É nesse vazio que o Sub-23 deveria atuar como ponte estratégica — mas, na prática, segue tratado como luxo, não como necessidade.
O Brasil tem mais de 700 clubes profissionais. Se incluirmos equipes amadoras filiadas às federações, ultrapassamos a marca de mil. Mas a realidade é desigual: a maioria não possui estrutura para manter categorias de base completas. Muitas disputam apenas Sub-15 e Sub-17, porque é o mínimo obrigatório.
Os grandes clubes, por outro lado, começam muito mais cedo. Hoje é comum ver estruturas Sub-7 a Sub-20, somando, em média, cerca de 300 atletas só na formação. E é justamente aí que o funil se torna cruel. A grande parte dos atletas é desligada entre o Sub-17 e o Sub-20, sem maturidade física, emocional ou competitiva para ingressar no profissional. Jogadores que ainda precisam de tempo, minutagem e ambiente simplesmente desaparecem do sistema.
Países com estruturas sólidas — como Portugal, Espanha, Holanda e Inglaterra — entenderam há muito tempo que transição é fase, não evento. Aqui ainda apostamos na lógica ultrapassada de que o jogador “vira” aos 18. Se não virou, não serve.
Quando estouram a idade, três caminhos se repetem: alguns sobem ao profissional, alguns são emprestados, e outros deixam o futebol. Mas mesmo quem sobe enfrenta o mesmo obstáculo: falta de minutagem. Sem jogos, não há desenvolvimento — e o ciclo negativo se repete.
Sempre digo que os pilares essenciais da formação são estrutura, bons profissionais e competição. O atleta chega ao profissional, mas deixa de competir. Faltam jogos pesados, repetição, ritmo. Sem isso, não há evolução consistente. Enquanto isso, seguimos vendo atletas que só atingem sua melhor versão depois dos 23 anos — como Bruno Henrique e Júnior Santos, exemplos claros de jogadores que explodiram mais tarde, quando finalmente receberam oportunidade, sequência e contexto.
Esses casos mostram que não existe idade “limite” para o surgimento de um grande jogador. O futebol brasileiro precisa parar de tratar qualquer atleta acima dos 20 anos como “tarde demais”, porque muitas carreiras começam a decolar exatamente nessa fase de maturação física, técnica e mental.
O resultado é um grande vazio entre o Sub-20 e o profissional. Um buraco estrutural que precisa ser preenchido com urgência se quisermos continuar formando talentos, e não perdendo-os para o mercado — ou para o esquecimento.
No cenário internacional, essa transição é levada a sério. A EFL Championship, segunda divisão da Inglaterra, é uma liga nacional estruturada para esse público. Na Holanda e na Espanha, equipes como Ajax, PSV, Barcelona, Real Madrid, Sporting Gijón e Athletic Bilbao colocam times de transição para disputar divisões profissionais, enfrentando adultos, veteranos e equipes experientes. Isso acelera maturação, reduz desperdício e aumenta retorno técnico e financeiro. Nos Estados Unidos, a USL League Two cumpre o mesmo papel. Em todos esses países, o Sub-23 é investimento. No Brasil, ainda é visto como gasto.
A CBF tentou corrigir essa lacuna em 2017 com o Campeonato Brasileiro de Aspirantes, mas a iniciativa falhou: pouca adesão, nenhuma obrigatoriedade, calendário fraco. Em 2023, o torneio foi encerrado. Faltou consistência, continuidade e compromisso estrutural.
Sub-23 como solução
A implementação real do Sub-23 no Brasil, portanto, não é um detalhe: é uma necessidade urgente. Com o sub-23, seria atacado três problemas fundamentais:
O primeiro é o desenvolvimento tardio. Zagueiros, laterais e volantes — entre outros — frequentemente amadurecem mais tarde. Sem espaço, desaparecem antes de estarem prontos. O segundo é a competitividade: chegar ao profissional com 60, 80 ou 100 jogos, como ocorre na Europa, transforma a trajetória do atleta. No Brasil, muitos sobem com dez. O terceiro é o financeiro: jogadores mal preparados são emprestados ou vendidos por valores baixos, desperdiçando potencial esportivo e econômico.
Existe também um ponto estratégico que muitos clubes ignoram: o Sub-23 é o maior laboratório de internacionalização possível. Títulos, amistosos, excursões — tudo isso amplia repertório, competitividade e visão de mundo do jogador e coloca o clube em outro patamar de exposição.
Outro argumento incontornável vem da própria FIFA: para a entidade, o período formativo vai até os 23 anos. Tanto o Mecanismo de Solidariedade quanto o Direito de Formação consideram o Sub-23 parte da formação. Se a FIFA entende isso, por que o Brasil insiste em tratar esses atletas como “prontos ou descartáveis” aos 20?
Sem o Sub-23, os clubes promovem atletas ao profissional antes da hora ou simplesmente os descartam, mesmo quando foram destaque na base. E é justamente nesse cenário que o Sub-23 se torna decisivo: é o ambiente ideal de transição, onde o jogador desenvolve maturidade física, tática, mental e emocional antes de enfrentar a pressão do elenco principal. Reduz desperdício de talento, aumenta retorno técnico e protege investimentos.
O Sub-23 também é essencial para a gestão do elenco profissional. Serve como campo para atletas que retornam de lesão, espaço para jogadores pouco utilizados ganharem ritmo e ambiente para jovens que sobem da base ou reforços recém-chegados se adaptarem. Em mercados sérios, isso é básico. No Brasil, ainda é negligenciado.
Do ponto de vista da análise de mercado, o impacto seria gigantesco. Hoje existe um vazio estatístico entre o Sub-20 e o profissional. Com uma categoria Sub-23 estruturada, analistas teriam muito mais material para avaliação — jogos, dados físicos, evolução técnica, comportamento tático, comparações consistentes. Deixariam de depender de apostas e passariam a trabalhar com informação real.
É importante lembrar que muitos atletas atingem o auge físico entre os 23 e os 26 anos. A evolução física não é linear. A base trabalha técnica, mobilidade, entendimento do jogo. A maturidade muscular, intensidade e consistência vêm depois — exatamente onde o Brasil mais falha. E não basta maturidade física: a pressão emocional do futebol profissional exige preparação mental que raramente está consolidada antes dos 20. O Sub-23 é o meio-termo psicológico ideal.
No aspecto financeiro, os resultados são igualmente claros. Em aula recente no FootHub, o diretor do Botafogo, Alessandro Brito, mencionou que o custo anual da operação Sub-23 do clube gira em torno de seis milhões de reais. À primeira vista, parece alto. Mas se torna insignificante quando comparado ao retorno. Dessa estrutura surgiram Jefinho, Janderson e Newton, além de dar experiência a Kauê e Matheus Nascimento. Somente com as vendas de Jefinho para o Lyon e de Janderson para o Vitória, o Botafogo obteve retorno estimado em quase seis vezes o valor investido. É a prova concreta: Sub-23 não é despesa, é multiplicador de ativos.
A verdade é que, com o Sub-23, clubes e analistas deixam de trabalhar apenas com apostas precoces e passam a tomar decisões baseadas em informação, contexto real e evolução competitiva. Hoje, ou o atleta sobe sem estar pronto ou é descartado. O Sub-23 é o ambiente que transforma potencial em realidade — e investimento em resultado.
E não pense que isso é privilégio de clubes grandes. Instituições menores podem montar estruturas eficientes com integração ao elenco profissional, parcerias para empréstimos, calendários regionais, captação de atletas desligados, patrocínios específicos e uso inteligente de tecnologia e educação. É possível, viável e sustentável.
No fim das contas, trata-se de lógica: quando a transição é estruturada, os melhores ficam, ganham ritmo, desenvolvem maturidade e só sobem quando estão prontos. O resultado é previsibilidade, menos desperdício, mais retorno técnico e financeiro.
Em resumo: o Sub-23 não cria talento — ele impede que o sistema continue perdendo o talento que já tem.
Que o Sub-23 é importante todo mundo já sabe — ou, depois de tudo isso, espero ter convencido você. Mas meu objetivo aqui não é apenas defender o óbvio. É abrir uma discussão necessária entre dirigentes, federações, CBF, empresários, atletas, famílias, imprensa e todos os que vivem o futebol por dentro. A transição não pode continuar sendo tratada como responsabilidade isolada de um setor. Ela é um elo estratégico da cadeia.
É claro que há limitações. Regulamentos impedem que um clube ou grupo dispute a mesma competição com duas equipes. Mas isso não inviabiliza o Sub-23. Pelo contrário: dentro do caos do nosso calendário, há brechas inteligentes que podem — e devem — ser aproveitadas. O Sub-23 pode disputar partidas dos estaduais, copas como a Copa Paulista, Copa Rio ou Santa Catarina e fazer parte de uma liga nacional mais longa e consistente. Isso amplia competitividade e aumenta maturidade.
Além disso, é a ferramenta ideal para internacionalizar clubes. Excursões e experiências na Europa — onde quase todos os clubes têm Sub-23 — expõem o atleta, aceleram desenvolvimento e criam vitrine. No Brasil, isso não existe. Lá fora, é rotina.
A discussão está aberta. E agora quero ouvir vocês: dirigentes, treinadores, analistas, atletas, pais e quem vive o futebol. Como estruturar um Sub-23 inteligente, sustentável e integrado ao calendário brasileiro? Que modelo faz mais sentido para o país?
Porque, se continuarmos ignorando essa etapa, não estaremos apenas perdendo talentos — estaremos perdendo o futuro.
Texto de Rommel Romeiro

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