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Na véspera da estreia do Brasil da Copa do Catar 2022, revolvo a memória sem muita dificuldade e lembro da Seleção de qualidade nunca suplantada. Efetivamente, acompanho Copas desde 1962, título brasileiro, obtido no Chile, quando ouvia os jogos pela Rádio Guaíba, e após, no dia seguinte, assistia ao “vídeo tape”, narração de Walter Abraão e Luiz Noriega, com patrocínio das Organizações Novo Mundo Vemag, na Tv Piratini, retransmissora local da TV Tupi. 

Em 1966 na Copa da Inglaterra, ouvia os jogos pelo rádio, porém não pude testemunhar os lances pelo vídeo tape no imediato dia, por estar de férias em local inacessível, mas consegui ver na íntegra os principais jogos algum tempo depois; o fracasso brasileiro por falta de planejamento, foi confrontado pelo surgimento do chamado “Futebol Força”, protagonizado pelas seleções de Alemanha e Inglaterra que decidiram o certame. Vitória do English Team, resultado até hoje contestado pelos germânicos em vista de gol atribuído a Hurst, que não teria  superado a linha fatal.

Antes de incursionar pelos argumentos sobre a seleção nunca superada, abro parênteses para discorrer sobre Copas decorridas entre 1962 no Chile e 2018 na Rússia, em cujo período  houve times notáveis que, de passagem quero referir. 

Em 1974 na Alemanha, seleção injustiçada 8 anos antes, pelo alegado erro de arbitragem, os germânicos com seu futebol pragmático e coletivo, logram êxito vencendo a final contra a Holanda, escrete alcunhada de “Laranja Mecânica” que apresentou futebol revolucionário, por sua intensidade, pelas suas mutações de sistema, pelo revezamento posicional constante e pela asfixiante marcação. Jogo coletivo, comandado pelo atacante  Cruyff, um dos maiores jogadores da história, precursor do futebol consagrado no FC Barcelona décadas depois, foi suplantado pela prática coletiva do “panzer” alemão de Franz Beckenbauer e Gerd Müller.

Em 1978, nossa lindeira Argentina sediou e venceu sua Copa, polêmica em face de discutível e duvidosa vitória contra o Peru – (quando conquistou bilhete de ingresso na final)-, tida como violada  por corrupção, apresentando futebol viril, competitivo, solidário, mesmo tendo a estrela Mário Kempes como melhor atleta da competição. Em 1982 na Espanha, a operária  Itália de Paolo Rossi, suplantou as estrelas brasileiras de Telê Santana, entre elas Zico, Falcão, Sócrates, Júnior e Oscar, nas quartas de final e na decisão atropelou a sempre presente Alemanha, com  prevalência do futebol coletivo. 

Em 1990, na Itália, vingou outra vez o esquadrão  alemão, após ter sido vice no México enfrentando Diego Armando Maradona, comandado pelo lateral Brehme -( autor do gol decisivo)- com futebol singelo, mas pragmático e  bem armado, conquistou o galardão máximo superando nossos irmãos portenhos em repetida decisão.

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https://cursos.foothub.com.br/public/products/aa396ca5-5443-4895-bd57-efd9a691248a: Uma seleção nunca superada

Em 1994, o Brasil de Parreira, jogando futebol reativo, com muita solidez defensiva e organização coletiva, chegou aos pênaltis em decisão contra a Itália e subiu ao pódio principal, após erro de Roberto Baggio na última bola da marca fatal. Em 1998, na França, treinado por Zagallo, nosso onze destacado favorito, foi fragorosamente suplantado pelo Scratch gaulês, em decisão em que luziram Zidane, Karembeu, Dugarry, Guivarch e Djorkaeff entre outros em detrimento do avariado Ronaldo Fenômeno e de Bebeto, Dunga, Roberto Carlos e Cafu.

Na Copa da Ásia, com “Big Phill” no comando brasileiro, mais uma vez a amarelinha  triunfou, repleta de craques, contudo pontificando  suas atuações pelo coletivo organizado ,onde o sistema prevaleceu sobre as individualidades. O coletivo também ressaltou na vitória italiana na Copa da Alemanha de 2006 em decisão contra Franca recheada de craques como Zinedine, Makelele, Thierry Henry, Abidal e Vieira. Os italianos  Materazzi, Grosso, Gattuso, Pirlo, Camoranesi, Totti, Luca Toni, sem brilho individual, somados ,constituíram força sem igual na consagração final do seu reativo futebol, que surpreendeu o mundo, mormente as pessoas residentes  na “bota”onde foram escorraçados na véspera da viagem de partida para o evento.

A África do Sul em 2010, sediou sua Copa e assistiu a uma final com protagonismo da maior seleção Espanhola de todos os tempos, base do FC Barcelona-( que cedeu 7 atletas)-  com destaque para  Pique, Villa, Fabregas, Xavi, Casillas, Sergio Ramos, Fernando Torres e o incomparável Iniesta que ao suplantar a eterna vice, Seleção Holandesa -( Robben ,Sneijder, Kuyt,Van Bommel)- obteve seu primeiro título na história das Copas. 

Em 2014 na nossa terra, a Alemanha atropelou seus rivais -( notadamente a seleção canarinho no trágico 7 x 1 do Mineirão)- e venceu o título na final contra a Argentina no Maracanã. Os germânicos de Neuer,  Schweinsteiger, Kramer, Muller, Kroos e Klose, organizadamente, venceram  aos portenhos Lionel Messi,  Mascherano, Rojo, Biglia, Aguero, Lavezzi, sem contestação tendo o conjunto a sustentar suas destacadas performances.

Em 2018, a Rússia recepcionou as 24 seleções e reservou a final para Franca, com uma geração de grandes “players” como Kante, Matuidi, Griezmann, Giroud, Pogba e o craque Mbappe e Croácia de futebol metódico  de Perisic, Rakitic, Mandzukic e o inexcedível Luka Modric, com vitória gaulesa justa pelo tanto que fez durante o certame e pela qualidade apresentada na decisão.

Notaram os leitores que, deliberadamente, deixei de analisar as Copas de 1962-( aquela que ouvi pelo rádio e assisti tapes no dia seguinte)-, 1986 e no meio delas nada referi a respeito do certame de 1970, maior de todos os tempos ocorrido no México. Como viram  em todas as Copas relacionadas e discorridas ao longo do texto, fiz questão de destacar as qualidades coletivas de todos os vencedores, mesmo naqueles times que apresentaram craques indiscutíveis de técnica reconhecida e aqui reforço e guizo essa conclusão; em 90% dos casos ,títulos são conquistados pelo todo, pelo coletivo, pelo sistema organizado e repetido a ponto de tornar-se familiar e natural.

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Todavia, não está proibido obter conquistas calcadas em individualidade, como foi o caso claro e insofismável das copas de 1962 no Chile, quando Garrincha foi um protagonista só igualado em 1986, por Diego Maradona no México em cujas conquistas esses dois singulares atletas fizeram diferença jamais vista em outras copas. 

Nas duas ocasiões havia equipes com atletas competitivos, alguns em final de carreira como Mauro Ramos, Zito, Nilton Santos, Vavá, Didi em 1962  no Estádio Nacional do Chile, outros de muita compreensão tática como Burruchaga, Olarticoechea, Rigieri, Braun em 1986 no Asteca,no México,  porém em ambos os casos todos sabendo que deviam atuar de forma a proteger Manoel dos Santos -( Garrincha)- e Diego. E protegidos eles venceram as duas copas para Brasil e Argentina por suas excepcionais e peculiares virtudes pessoais.

Reservei o epílogo desse longo -( tomara não enfadonho)-  texto, para a Seleção Brasileira de 1970, a fim de apontar a melhor de todas, verdadeira simbiose, pois coletiva com inúmeros craques harmonizados, mesmo oriundos de posições semelhantes-(do meio para frente continha 5 camisas 10, número que no passado identificava o melhor do time)-, competitiva, solidária, apresentava lances individuais de Pelé, -( esse o “primus inter paris”)-Jairzinho, Rivelino, Carlos Alberto, Clodoaldo, Tostão, de rara beleza plástica em favor de ações coletivas, na busca incessante da vitória.

Em releitura para terminologia contemporânea , era armada em 4-2-3-1 com profundidade pela direita com Jair, e armação pela esquerda com Rivelino. Tostão em movimentação horizontal, abrindo caminho para ingressos de Pele como centroavante, diagonais de Jairzinho e participações de Rivelino em tabelas curtas, todos tendo Gerson como volante armador e seus lançamentos milimétricos.Invariavelmente faziam tudo, marcavam, armavam e concluíam.

Até hoje, correram os anos, sistemas foram e voltaram, mesmo com a intensidade diferenciada que vigora desde meados da primeira década deste século, nada igual apareceu nas Copas, uma seleção que apresentava invulgar plasticidade aliada a inigualável competitividade  , com  treinador resultadista, pragmático que soube montar seu time com os melhores jogadores e deles retirou o máximo de produção; Mario Jorge Lobo Zagallo, também reputado o melhor treinador de seleções brasileiras de todos os tempos ao lado de Beckenbauer – alemão – e Deschamps – francês – participante de títulos mundiais como atleta e “Coach”.

Aguardemos que a Copa Catar, inaugurada no domingo, nos reserve um onze que possa superar a mágica seleção canarinho ganhadora da inesquecível Copa de 1970.

Texto de Fernando Carvalho.

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