paciente tratando saúde mental
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Saúde mental no esporte: atletas não são robôs

No último sábado (6), o mundo da bola acordou com a notícia da morte de Santiago Damián García Correa. O centroavante uruguaio de 30 anos cometeu suicídio no dia 4 e foi encontrado no seu apartamento em Mendoza, na Argentina, conforme relatado pelas autoridades locais. 

Morro Garcia, como era conhecido, estava afastado do Godoy Cruz, time em que atuava, desde o dia 22 de janeiro, quando testou positivo para covid-19 e mantinha isolamento desde então. O jogador fazia tratamento psiquiátrico e sofria de depressão. 

Assim como aconteceu em 2017, quando o jogador Nilmar (ex-Internacional) deixou o Santos em função de depressão, a morte de Garcia abriu um novo debate sobre a saúde mental de atletas de alto rendimento, em especial jogadores de futebol. Para o psicólogo e professor da PUCRS, Márcio Geller Marques, o assunto não é bem trabalhado nos clubes. 

“O grande atleta é o que está com as suas áreas em equilíbrio. Não adianta o cara jogar bem, ter um bom preparo físico, mas não ter emocional”, diz. Além disso, Márcio chama atenção para a importância da constância. “Se olharmos pro campeonato Brasileiro, que dura quase um ano: quantas coisas podem acontecer nesse tempo? Uma hora tu tá num bom momento, outras tu tá lesionado, outras tá na reserva. É importante acompanhar essas mudanças no emocional do atleta”.

Até abril de 2020, apenas oito clubes da série A do Campeonato Brasileiro (São Paulo, Red Bull Bragantino, Fortaleza, Botafogo, Flamengo, Vasco, Fluminense e Atlético-GO) declararam oferecer atendimento profissional para os atletas lidarem com questões emocionais e mentais, ainda mais em função das mudanças decorrentes da pandemia de Covid-19. 

“Não posso te dizer que existe um preconceito ao trabalho da psicologia pois as coisas já melhoraram muito. Tende a melhorar e a mudar mais? Claro que sim, mas a partir do momento que os clubes começam a entender que a psicologia é uma ciência e não um achismo, os próprios atletas percebem a necessidade”, diz Márcio, que atende atletas de alto rendimento de diferentes esportes. 

Apesar de acreditar que a imprensa tem contribuído para a percepção da importância da psicologia esportiva, Márcio acredita que os profissionais muitas vezes esquecem que os atletas são seres humanos. “Volta e meia tem manchetes culpabilizando um ou dois jogadores pela derrota do time inteiro, que são 11 atletas mais a comissão técnica. Não se trata de censurar a mídia, mas às vezes falta uma sensibilidade de lembrar que estamos tratando com pessoas e não robôs”, desabafa. 

Uma fuga para as cobranças

Segundo estudo da FIFPro (Federação Internacional dos Jogadores Profissionais de Futebol), jogadores profissionais sofrem mais de doenças psiquiátricas do que o público em geral – dos 607 atletas entrevistados, 38% relataram sofrer com sintomas de depressão e/ou ansiedade. Ainda segundo a pesquisa, esses profissionais têm muito mais possibilidade de se envolverem com drogas e outras polêmicas na busca por uma fuga. 

Com Morro Garcia não foi diferente. Durante a carreira como profissional, o jogador esteve envolvido com drogas, rescisão de contrato e brigas. Além desses atos, Santiago foi muito cobrado por seu biótipo físico e resultados. No mesmo dia em que seu corpo foi encontrado, alguns veículos de imprensa brasileiros fizeram questão de relembrar o “fracasso do jogador no Athletico” em 2011.

“Os jogadores de futebol são cobrados a todo momento. A vida social deles é bastante restrita, tanto quando as coisas vão bem e ainda mais quando a carreira vai mal. Se o time perde uma classificação em um dia, no outro o jogador não pode ir ao mercado. E a gente não se dá conta como isso afeta, inclusive a família”, diz Márcio Geller. “Vamos pensar em um jogador que tem filho pequeno e joga mal no final de semana. No outro dia, os coleguinhas vão fazer um comentário, os torcedores vão se manifestar nas redes sociais. Como se lida com isso?”.

“Ninguém quer ver alguém falando mal de você na TV. Ninguém quer fracassar e ninguém quer relembrar seus fracassos tantas vezes. Os atletas precisam ter um poder de resiliencia muito grande, mas não dá para esquecer que são seres humanos!”, finaliza. 

Caso você esteja passando por problemas pessoais e pensando em cometer suicídio, procure ajuda especializada como o CVV e os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) da sua cidade. 

O CVV funciona 24 horas por dia (inclusive aos feriados) pelo telefone 188, e também atende por e-mail, chat e pessoalmente. São mais de 120 postos de atendimento em todo o Brasil

Texto Equipe FootHub.

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