Quando apenas a qualidade não basta: a inteligência emocional aplicada dentro de campo

No futebol, o pior cego é o que só vê a bola! (Nelson Rodrigues)

Numa semana de jogos da Champions League, assistimos a coisas improváveis acontecer. Duas viradas históricas, em cima dos dois times super favoritos para ir à final. Favoritos pelo futebol que apresentam, mas também pela vantagem conquistada na primeira partida.

O que às vezes esquecemos é que:

futebol não é uma ciência exata (ainda bem);
e os inúmeros fatores que determinam o resultado de uma partida.
E neste artigo quero falar especificamente de um fator: a inteligência emocional.

Quantos comentários pós partidas e campeonatos ouvimos: “o problema é emocional”, “os jogadores sentiram o jogo”, “o problema é anímico” e tantos outros na mesma linha. E sobre esses comentários duas observações: ninguém reflete sobre como atuar para diminuir os problemas emocionais no campo. O problema é falado, mas pouco aborda-se soluções; e quando há uma situação de êxito numa partida, também precisamos dar os créditos para o emocional. Em muitos jogos, o emocional é o fator principal para a vitória.

Quando a inteligência emocional ganha o jogo

Numa equipe de futebol temos pessoas de diferentes comportamentos e personalidades. Gerenciar isso não é uma tarefa fácil. Um grupo pode ser influenciado negativamente se não tiver a intervenção da sua liderança. Muito mais do que ter atletas com inteligência emocional – uma utopia talvez -, é necessário perceber que esta é uma habilidade a ser adquirida, exercitada e fortalecida no dia a dia do clube.

“No ano passado, caímos, portanto tínhamos que voltar. Não poderíamos deixar assim. Os meninos queriam criar sua própria história, é um novo capítulo e assim eles fizeram”, disse Klopp.

Essa declaração do técnico do Liverpool mostra a determinação dos seus atletas. E o primeiro passo para agir com inteligência emocional foi dado por ele. Acreditou nos meninos. Mesmo depois do resultado de 3×0 desfavorável no primeiro jogo. Se o seu técnico não mostrasse a confiança, certamente os jogadores duvidariam do sucesso. Ademais, queriam isso há um ano. O foco estava em querer ir a essa final mais do que qualquer coisa. Prepararam-se fisicamente e emocionalmente para este momento.

Sempre digo nos eventos que ministro, Inteligência Emocional é lidar com pessoas. Com os sentimentos que elas produzem em nós. Nossas emoções sempre são reações às pessoas e situações que nos rodeiam. E no jogo de futebol não é diferente.

Começar uma partida e logo levar um gol.

Pode dar desespero, desânimo, preocupação. O esquema tático fica prejudicado, bagunçado e a ansiedade atrapalha o que deveria ser um momento de parar e pensar: já revertemos um jogo, temos condições de vencer, ainda faltam x minutos para o término da partida… Ou seja, quando não se para e pensa o que está acontecendo num momento adverso, deixa-se a emoção tomar conta. E neste caso especifico, essas emoções não levam a comportamentos adequados.

Conhecendo os companheiros com quem se trabalha e sua capacidade, é muito mais fácil para o atleta manter-se calmo para buscar um resultado adverso por exemplo. No caso do Liverpool, eles sabiam do desafio que era fazer 4 gols no Barcelona de Messi. Mas eles sabiam que tinham potencial. E eles queriam aquilo mais do que tudo na vida. O estado emocional de motivação deles não permitiria tomar decisões erradas. Eles usaram a emoção e o controle emocional a seu favor. E o resultado, sabemos.

Tanto Kloop quanto Guardiola, por exemplo, usam de inteligência emocional para gerenciar os seus grupos. E não é a toa que são respeitados e adorados pelos seus jogadores. Sabem que ali tem o líder que podem confiar. Os treinadores em questão sabem exatamente o que podem extrair dos seus comandados, pois os conhecem bem, e estes sabem que podem render tudo aquilo que os técnicos pedem a eles.

Mas como uma equipe adquire inteligência emocional?

Como já citei, poucos atletas chegam aos clubes com esta condição trabalhada. A importância dos clubes em preparar atletas, cidadãos equilibrados, na formação de suas equipes, torna-se fundamental e estratégico, não apenas para contribuir com a sociedade, mas para, sob o ponto de vista do negócio. Formar equipes vitoriosas, constantes, com substância, obtendo dos atletas talentosos um rendimento extra, contributivo e com espírito de time, equipe, conjunto harmônico e de referência.

Para o desenvolvimento de equipes de alta performance, competente emocionalmente, é preciso desenvolver um conjunto de habilidades cognitivas (mentais e emocionais) e motoras. Quanto mais o treinador conhece seus jogadores, mais fácil se torna trabalhar com os atletas e ter ótimos resultados e ganhos. E essa aproximação faz aumentar o nível de confiança no seu líder. É claro que muitas vezes, o profissional do futebol precisará de ajuda externa para fazer esses alinhamentos com os jogadores, desenvolver as capacidades, conhecer as competências em todas as áreas dos atletas, desbloquear os potenciais, maximizar os desempenhos, identificar pobreza emocional para mudança de postura e desenvolver a autoestima, e transformá-los em pessoas e atletas de alto rendimento.

O trabalho de inteligência emocional no futebol ainda é escasso além de ser um desafio. Mas os clubes e profissionais que perceberem cedo a importância de olhar para esse fator com mais atenção, certamente sairão na frente no quesito disputa e controle emocional nas partidas e campeonatos.

Em breve: a importância da inteligência emocional na liderança esportiva.

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Por Gisele Kümpel
Diretora da SGIE – Sociedade Gaúcha de Inteligência Emocional