copa américa no brasil
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O assessor de imprensa, o manifesto e o poder paralelo

“Se a Seleção chegar à final da Copa, isso é importante para você, é importante para mim, é importante para todos nós”. Para saber o autor, a data e a motivação dessa frase, basta pular para a última linha deste texto e acessar o link. Caso o leitor queira aguardar um pouquinho, falemos antes sobre a relação entre Seleção Brasileira, torcida e imprensa, um assunto que ganhou eco desde a realocação, a toque de caixa, da Copa América no país.

Uma das minhas referências na crônica esportiva do Rio Grande do Sul sempre foi Lauro Quadros. Uma figura para lá de carismática, um tom de voz formidável, pronúncias corretas, postura para tratar assuntos sérios com seriedade, talento para falar de sacanagem com temas mais leves e uma linguagem simples e direta. Fico imaginando o que ele diria no Sala de Redação, programa da Rádio Gaúcha que completou 50 anos no ar esta semana sobre o “manifesto” dos jogadores do Brasil. Dentre outros chavões, Lauro brincava ao dizer o que ninguém diz.

Das demandas ainda originais da figura do assessor de imprensa está o serviço de clipagem para entregar ao cliente tudo (na medida do possível) o que é divulgado na mídia sobre determinado assunto, conforme interesse. No episódio recente, eu não queria estar na pele do assessor de imprensa da CBF, embora imagine que isso não faça parte das suas atribuições. Todo caso, uma rápida cronologia dos acontecimentos.

A Colômbia, em meio a tensão social, desiste de co-sediar a Copa América com a Argentina. Essa, por sua vez, dias depois, vai no mesmo desfecho, pero pelo crescente dos casos de Coronavírus por lá. Situação que não ganha guarida no Brasil. Às pressas, a Conmebol, de posse do ok do governo federal, anuncia o país verde e amarelo como o novo anfitrião da competição. Polêmica à vista. Ninguém da CBF se pronuncia a respeito. Entrevistas de jogadores são canceladas. A coletiva de Tite na véspera do jogo contra o Equador, em Porto Alegre, pelas Eliminatórias, retarda horas a fio. Após o jogo, o capitão Casemiro fala grosso, promete esclarecer logo adiante a posição dos atletas, aparentemente desgostosos.

“Não podemos falar do assunto, todos sabem qual o nosso posicionamento. Todo mundo sabe qual é o nosso posicionamento, está mais claro impossível”, disse o camisa 5 ainda no gramado sem explicar quem ordenava o silêncio. Muito menos esclarecia qual era o posicionamento deles, a não ser que fosse verdade o que vazava de dentro da concentração, como a antecipação dada por uma série de jornalistas de como se daria a versão dos atletas sobre os episódios.

Sigamos. Rogério Caboclo, presidente da CBF foi afastado por 30 dias do cargo diante de denúncias de assédio sexual a uma funcionária da instituição. Dias depois houve outras denúncias. No Paraguai, em outro jogo pelas Eliminatórias, e já sem o presidente no vestiário, a braçadeira esteve no braço de Marquinhos. Foi dele o discurso na saída de campo após o jogo.

“A gente entende o trabalho de jornalistas e repórteres, mas eles têm que ter muito cuidado com as informações que eles passam, principalmente porque depois a gente é julgado por coisas que não são os fatos verdadeiros”, afirmou o zagueiro, sem contestar quais informações eram errôneas e, claro, sem dar crédito às corretas como, àquela altura, a tal manifestação, ora morna, ora quase fria. A “fala” dos protagonistas de quem sabemos terem o dom nos pés e imaginávamos o poder nas mãos ganhou o público uma hora mais tarde também nas redes sociais dos jogadores. A repercussão não poderia ter sido pior. Abaixo, uma pequena clipagem de alguns cronistas a respeito do tema que tão cedo não será esquecido.

José Trajano: “Esse manifesto dos jogadores da seleção é uma vergonha”. “É inacreditável. Isso aí foi pior do que a encomenda. Não são contra a CBF e nem contra o Caboclo. Não se importaram com as quase 500 mil mortes no país. Não tem uma palavra de solidariedade às famílias dos mortos”.

Casagrande: “Não é em relação à personalidade e caráter dos jogadores da Seleção Brasileira. Eu esperava mais, eu esperava uma atitude, e não um manifesto. E só isso. Na minha opinião, e cada um pensa de um jeito, não deveria ter Copa América no Brasil”.

Juca Kfouri: “Como era de se supor, os jogadores da seleção brasileira fizeram um manifesto pela luz elétrica e pela água encanada: são contra a Copa América, mas não vão enterrá-la, porque são profissionais, sonham em vestir a camisa amarela, blá-blá-blá…”

Mauro César: “Atacam a Conmebol pela organização da Copa América, mas não citam a CBF, que foi quem intermediou a vinda da competição ao Brasil junto ao governo federal. (…)  Você é contra e faz o quê, amigo? (…) Por que são contra a Copa América? Por que não disseram? É por conta da covid, da pandemia, do número de mortos, por quê? ”

Milly Lacombe: “Não interessa mais saber o que esses homens farão em campo. A camisa da seleção representa sim uma nação que, a despeito de gostar ou não de futebol, está sendo exterminada. A voz que esses homens têm, cujo alcance é total, poderia ter sido usada para nos ajudar a respirar. Não foi. E muito pelo contrário. Vai colaborar para nos sufocar ainda mais. O não-manifesto é a maior vergonha já protagonizada por esse time. Esqueçam o 7×1. O time de Tite conseguiu superá-lo. ”

Juremir Machado: “Dá para imaginar quantas horas de reunião com um assessor de imprensa para escrever uma nota tão insípida. O nebuloso exige arte. Como nada dizer em algumas linhas tão esperadas. Casemiro, o líder do movimento, numa entrevista, parecia um leão rugindo contra a estrutura. O repórter queria saber qual era mesmo a posição dos jogadores. De cara fechada, Casemiro reafirmava: “Todo mundo sabe”. Ninguém sabia claramente. Continuamos sem saber.

Douglas Ceconello: “O jornalismo cumpriu o que lhe cabe: trazer à tona o que ninguém quer que apareça, e por isso quem presidia a CBF na semana passada já não a preside hoje. Mas veja bem: esses jornalistas que tenham muito cuidado com o que falam.”

Pois bem. Se estivesse atuando hoje na crônica, Lauro Quadros provavelmente se juntaria à maioria dos colegas jornalistas, talvez observasse um ponto de vista único sobre a questão. Como esse é um espaço de opinião, não há o compromisso da equidade como prevê o bom jornalismo de informação. Os segmentos são diferentes e assim devem ser preservados. O leitor que chegou até aqui e deseja também saber opiniões a favor da realização da Copa América no Brasil de meio milhão de mortos não irá encontrar nesse recorte. Já diria o Laurinho:“É isso aí e mais meio quilo de farofa. ”

Ah, e a abertura do texto? Não tem nada a ver com a Copa América. Trata-se de uma publicação de André Kfouri no dia 14 de maio de 2010 durante coletiva de Dunga anunciando a convocação para o Mundial da África do Sul. Sobre a Copa América, se o Brasil chegar à final da competição e mesmo que saia campeão, isso não será importante para ti, para mim e imagino que para quase ninguém. Talvez somente para quem impede o Casemiro de falar e alerta o Marquinhos do perigo da imprensa. Esse Brasil já mostrou sua cara. Falta aparecer o rosto do poder paralelo.

Artigo do André Kfouri citado no parágrafo inicial.

Texto de João Paulo Fontoura.

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