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Clube de futebol ou empresa de entretenimento?

Javier Tebas, presidente da LaLiga, afirmou, em entrevista no ano de 2017, que a instituição formada para administrar as duas primeiras divisões do futebol espanhol era definida como uma empresa de entretenimento ao invés de uma entidade esportiva, semelhante a Disney e Warner Bros. Este texto busca explicar de onde surgiu tal pensamento e porque outros clubes, ligas e federações deveriam agir da mesma forma no mercado do futebol.

Para começar essa história, é preciso falar sobre economia da atenção, onde existem centenas de opções de atividades que podemos fazer durante nossa rotina: desde opções já tradicionais como assistir televisão ou ler um livro até práticas mais novas, como assistir uma série em alguma das tantas plataformas de streaming, jogar vídeo game nos consoles recém lançados ou ouvir um podcast. Isso que nem falei das redes sociais. São tantas opções que atrair a atenção de um indivíduo por mais tempo se tornou a missão de todos os produtores de conteúdo.

O futebol faz parte da lista acima e concorre com filmes, séries e vídeo games na disputa pelo tempo livre de torcedores. Em alguns casos, com certa desvantagem, já que o formato do jogo não favorece as novas gerações. “90 minutos é muito tempo para um millennial ficar sentado em um sofá”, alertou Peter Moore, ex CEO do Liverpool com passagem também pela indústria de jogos eletrônicos.

A partir do conceito de economia da atenção, surge outro tema importante para esta nova fase que o futebol vive. É o chamado Sportainment, a união do esporte com o entretenimento. Seu objetivo é simples: encantar os torcedores através de momentos inesquecíveis relacionados ao jogo. A estratégia considera os princípios de Consumer Centricity, tendo o fã como centro de tudo, levando em conta suas preferências de consumo e comportamentos de rotina, para vivenciar a melhor experiência possível.

A última lista da Revista TIME de 100 empresas mais influentes do mundo, também utilizada por Caio Derosso no texto “Qual é o posicionamento do futebol brasileiro?” aqui mesmo no site do FootHub, ajuda a reforçar o conceito apresentado no parágrafo anterior. As diversas áreas do entretenimento estão representadas ali. Do esporte vemos NBA e Premier League. Da mídia, Disney e Netflix, além de Microsoft e Apple representando tecnologia. Apesar de diferentes, o objetivo final é o mesmo: deixar memórias inesquecíveis nas lembranças dos clientes em busca da fidelização.

Voltando a LaLiga, é possível usar alguns exemplos da estratégia da entidade para mostrar como o sportainment funciona na prática e a importância destas ações.

Entretenimento ao vivo

Uma das principais preocupações da entidade é proporcionar uma experiência positiva durante as partidas. Javier Tebas explica a necessidade: “Nossos jogos são como um bom enredo de filme. Mas também precisávamos de uma decoração melhor, por isso temos investido em câmeras aéreas e Steadicams.” Além da qualidade das câmeras, novos ângulos da imagem também são uma preocupação. Como complemento, ainda é possível receber estatísticas da partida em tempo real, projetadas no campo com ajuda da tecnologia, como na imagem abaixo.

Entretenimento diário

A fala anterior do presidente da LaLiga é complementada pelo seguinte trecho: “Também estendemos o entretenimento para além do jogo em si, com mais entrevistas e mais conteúdo durante a semana.” Isso mostra a importância do conteúdo, como descrito no nosso último texto por aqui.

Em outubro de 2020 uma das palestras do programa What Awaits Us: Pillars of Football Industry in the new Decade, promovido pela CBF Academy e LaLiga Business School, teve como assunto o engajamento dos fãs. Marta Aparício, coordenadora de conteúdo digital da LaLiga esteve presente e destacou alguns dos conceitos utilizados pela entidade para encantar os torcedores de futebol do mundo inteiro.

O principal pilar desta estratégia é que LaLiga quer que os torcedores consumam conteúdo todos os dias, compartilhando uma experiência de conteúdo maior que os 90 minutos. Só assim será possível de continuar consumindo o conteúdo dos campeonatos depois das partidas.

Para isso, a entidade conta com 40 pessoas trabalhando em sua estratégia digital, divididos entre redes sociais, web, aplicativos, eSports e CRM (consumer relationship manegement). É importante que cada plataforma tenha seu conteúdo único, afinal de contas possuem suas diferenças de público e formato. Isso vale não só para a Espanha, mas para o mundo inteiro. Exemplo disso são os perfis em outros idiomas ou voltados para mercados específicos no Twitter, como LaLigaBRA.

Ao aumentar o interesse dos torcedores nos conteúdos, aquele material fica mais valioso, seja para monetizar diretamente com os próprios torcedores, seja para negociar com possíveis patrocinadores que queiram ativar suas marcas nas transmissões ao vivo ou no ambiente digital.

Em breve esta lista ganhará um terceiro tópico. Com os eventos presenciais retornando aos poucos em todo o mundo, teremos as experiências ao vivo ganhando força novamente, fato que merece um texto exclusivo.

Para concluir, uma preocupação direcionada ao futebol brasileiro. As estratégias listadas no texto são importantes, mas é preciso que o principal produto tenha qualidade para estas funcionarem de fato. As partidas que acontecem no Brasil possuem um nível técnico ruim, com times tendo preferência por um jogo mais reativo inclusive pelo medo da derrota. A falta de qualidade é fator decisivo contra a transformação do esporte em entretenimento e os clubes, ou das empresas de entretenimento, precisam se preocupar com isso o quanto antes.

Texto de  Rodrigo Romano, do Cadeira Central.

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