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O assessor de imprensa e os professores

No futebol, um dos termos pelo qual os treinadores são chamados é “professor”, mesmo que a pessoa nunca tenha sentado em um banco escolar. Faz parte do vocabulário e da linguagem da bola esse tipo de alcunha, talvez em um sinal de respeito (ô, saudade) à figura que, dentre outras facetas, educa. Nos últimos dias, tive a felicidade de voltar ao contato, presencial, remoto ou no modelo híbrido, que mescla alunos em sala de aula e na sala de casa, com quem, senão ensina, compartilha conhecimento. E muito.

Iniciei o ciclo de experiências aqui mesmo no FootHub. Pela primeira vez conversei com um público em maioria não oriundo da comunicação, o que, de alguma maneira, envereda as conversas para os meandros das nossas funções jornalísticas. Funções essas sempre motivo de críticas, mas raramente postas em reflexão por quem escova os dentes de manhã com uma mão enquanto segura uma pedra na outra.

A apresentação sobre Gerenciamento de Crise no curso Executivo de Futebol com Fernando Carvalho reservou uma dinâmica no intuito de, por alguns instantes, os colegas se colocarem na posição do assessor e do dirigente em cenários tensos e adversos. Chamou minha atenção o interesse pelo tema, pois como diria um aluno que me penitencio não dar o crédito por não lembrar o nome: “de jornalismo e futebol, todo mundo entende um pouco”.

Acalorados debates diante dos exemplos trazidos, como o das coletivas antigas de Eduardo Batista, na época treinador do Palmeiras quando bradou contra o sigilo da fonte e do áudio vazado de Vagner Mancini, então comandante do Vitória, ao tentar desqualificar um repórter o tachando de corintiano, tiveram sabor especial, além de relatar aos “presentes” bastidores do emblemático episódio envolvendo D´Alessandro e Maicon em um Grenal em que o que aconteceu antes e depois do jogo segue em discussão até hoje.

Os diferentes pontos de vistas de quem ocupa outro local de fala no vestiário foi extremamente proveitoso para que eu, como ex-assessor do Grêmio, pudesse, senão comprovar, reforçar o que sinto pensarem os demais colegas a respeito da formação do jornalista. Se identificam um profissional ruim, nada mais fácil, cômodo e engajado do que agir genericamente. Como diria ironicamente o apresentador Marcelo Barreto, do SporTV: “vocês, da imprensa…”

O desconhecimento dos meandros da função jornalística – bem, mas bem além do que a função de comentarista de veículos – incorre em ações e discursos pobres de fundamento, derrubados, às vezes, com uma pergunta de sim ou não. Lembro com bom humor quando eu buscava com os médicos do clube a informação, por exemplo, de qual tornozelo fulano de tal havia torcido. “Ah, que diferença faz para os teus colegas? Tanto faz.” Era mais ou menos isso, muitas vezes, que eu ouvia de resposta. E sempre devolvia com ironia, para esconder a seriedade do ofício. “Quando o senhor opera um tornozelo escolhe qualquer um também? ”

Há algum tempo a CBF empresta sua marca para a formação de profissionais de várias áreas que transitam no futebol. A busca pela profissionalização do esporte é algo salutar e, por isso, ser novamente convidado pelo presidente Carvalho para falar de Assessoria de Imprensa na CBF Academy onde ele presta consultoria, foi sensacional. Ex-jogador, dirigente atual, potenciais executivos e outros perfis formam uma turma atenta para além dos 90 minutos. Foi um prazer receber a atenção dos alunos do curso acerca dos bastidores que até quem gere um vestiário diariamente é incapaz de identificar o significado tal qual eu não enxergo tática.

Relações de lealdade, respeito, inveja, interesses – internos e externos ao clube – norteiam a rotina de um assessor. Como dito no início, o futebol tem códigos próprios. Crise, que no jornalismo geral tem outra conotação, na bola, existe todo santo dia. O fato dela não virar notícia e não se transformar em acontecimento público não tira a força de romper com a normalidade da intimidade de quatro paredes. E assim trazer consequências a serem administradas por executivos, professores e assessores.

Se há muitos treinadores por aí dando mau exemplo à beira do campo, nas entrevistas ou nos comportamentos nos vestiários, esse é um problema da pessoa, talvez de quem não imponha limites ou, quem sabe, pela desconexão da realidade e do empodeiramento que os salários incutam. Nunca, no entanto, será um problema da classe.

E o mesmo vale para qualquer área, inclusive a de jornalistas. Se tem gente por aí vestindo a camisa na hora do trabalho, misturando a pessoa física com a pessoa jurídica, como diz o craque André Kfouri, brincando com a informação, dando maior importância para a repercussão do discurso do que o conteúdo em si e ignorando valores da profissão ou o que (se é que) estudaram na faculdade, o problema é do jornalista e não do jornalismo.

Por fim, e com uma satisfação enorme, depois de não sei quanto tempo, entrar em um auditório, ainda que quase vazio diante dos protocolos de segurança exigidos pela pandemia, na PUCRS foi a cereja do bolo de uma sequência de troca de experiências. A convite do professor Luís Henrique Rolim, durante quase duas horas conversamos com os alunos da pós-graduação em Futebol: ciência do movimento, metodologia e alto rendimento, da disciplina Futebol, Cultura e Sociedade. Uma conversa de altíssimo nível com educadores físicos, profissionais de gestão, do direito e de outros cursos, reunidos por um interesse: o conhecimento.

Ali, enquanto disfarcei a naturalidade de ver um ambiente com 5% da capacidade preenchido, fiquei totalmente à vontade para falar do impacto da mídia no futebol e nas relações das pessoas. O ambiente acadêmico, pelo menos falo pela comunicação, não é para buscarmos conclusões definitivas e sim questionarmos. Uma das conclusões que tiramos dali tem muito a ver com o que o assessor de imprensa, a meu ver, deve fazer diariamente no contato entre jornalistas e personagens: humanizar as relações, tal qual comentamos ter sido a tônica da cobertura da Olimpíada em Tóquio.

Como eu brinquei com os alunos – nenhum da comunicação – tivemos aula grátis do bom jornalismo esportivo durante os 15 dias de cobertura do Japão. E aulas, assim como professores, jornalistas, médicos, agrônomos, advogados etc. Temos boas e ruins. Compartilhe o que é bom, o ruim, descarte. Isso é também um processo educacional.

Quando o assunto é educação não há como não falar de livros. Ainda houve tempo na segunda-feira para um bate papo virtual super agradável com três colegas jornalistas. Marcos Gomes, apresentador do programa ABI (Associação Brasileira de Imprensa) Esportes, no YouTube, Bruno Guedes, autor de “1898 em diante”, livro de crônicas sobre a história do Vasco, e a Cláudia Coutinho, da Capítulo 1, editora do nosso livro “Jornalismo e Vestiário: histórias e bastidores contatos por um assessor de imprensa”.

Entre um exercício de nostalgia e outro, ao lembrarmos Barbosa, Eurico Miranda, Fábio Koff, Renato Portaluppi e o saudoso Denner, saímos de alguma maneira revigorados e fortalecidos. E, também com uma ponta de esperança através de uma frase do Mário Quintana: “Os livros não mudam o mundo. Quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas”.

Texto de João Paulo Fontoura.

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