Coopetição, futebol e futuro

reportagem sobre coopetição

A imagem que ilustra esse artigo é uma foto de uma reportagem da revista Exame, edição 1225. Quando comecei a ler, foi como se acendesse aquela luzinha na cabeça, tive um insight. Podemos discorrer sobre criatividade, insights e afins em outro artigo, pois é um tema que aprecio muito.

A reportagem apresenta dois concorrentes da indústria de saúde se aliando na busca de uma solução para um problema em comum. Nos primeiros parágrafos vieram aos pensamentos as palavras competição e cooperação. A junção delas se transforma em Coopetição!

A origem da coopetição

Coopetição não é um termo novo. A primeira vez que essa estratégia foi abordada de modo mais profundo foi no livro “Co-opetition”, dos autores Adam Brandenburger e Barry Nalebuff, em 1996. Professores universitários, os dois usaram como base na análise partes da teoria de jogos no dia a dia dos negócios, identificando os players que formam uma rede de valor de uma empresa: Clientes, Fornecedores, Competidores e Complementadores. Onde todos cooperam, mas em outros assuntos competem contra a empresa.

Fui apresentado ao termo coopetição pelo Paulo Nigro e Heloisa Rios no final de 2019 e ambos gravaram um vídeo em maio passado falando sobre como uma pandemia poderia alavancar a coopetição nas empresas. “Olhe em seu entorno e observe seu cenário competitivo. Veja com quem você pode se aliar. Cooperação com parceiros e concorrentes pode trazer uma vantagem competitiva durante uma crise”, disse Nigro à época.

De fato, o que as empresas Fleury e Sabin estão fazendo conforme revela a revista Exame, é algo que muitas outras indústrias já perceberam e estão fazendo ao longo das últimas décadas.

O consórcio SGC (Structural Genomics Consortium) reúne diversas empresas farmacêuticas como Bayer, Johnson & Johnson, Pfizer, entre outras, em um espaço de open innovation onde os concorrentes depositam seus conhecimentos em uma plataforma aberta para acelerar a fabricação de novos medicamentos.

Na indústria digital cada vez mais aparecem exemplos. Da Claro/NET TV, operadora de televisão a cabo, oferecendo pacotes com Netflix, até as duas maiores empresas de videogames. Sony (PS4-PS5) e Microsoft (Xbox) juntas no desenvolvimento e um serviço de streaming de games. Como destacou o CEO da Sony, Kenichiro Yoshida, “Embora as duas empresas também estejam competindo em algumas áreas, acredito que o desenvolvimento conjunto de futuras soluções em nuvem contribuirá muito para o avanço do conteúdo interativo”.

Poderia passar o resto do texto exemplificando movimentos das empresas coopetindo (Banco 24 horas / Magazine Luiza e Carrefour, etc), mas vamos entrar naquela velha pergunta que já foi tema de um artigo:

E o futebol?

O futebol é uma indústria e também ao longo do tempo vem trazendo casos de coopetição, mesmo que sem que isso fosse planejado ou explicado através de um termo.

Um dos aspectos centrais da coopetição é que essa parceria entre concorrentes tem como objetivo trazer benefícios mútuos, como a expansão ou afirmação do mercado onde estão inseridos. Trabalhar em conjunto para que todos se fortaleçam.

Logo de cara podemos encontrar isso nas discussões de algumas ligas, principalmente europeias, a respeito dos direitos de transmissões dos campeonatos. Essa discussão coletiva entre clubes e ligas, junto com outros aspectos como o fair play financeiro (que também conta com a construção dos clubes), fez com que muitas ligas se transformassem e evoluíssem nos últimos anos, elevando consigo os seus clubes filiados.

No Athletico Paranaense tive a oportunidade de participar de uma reunião com um clube europeu que oferecia um produto/serviço que o CAP possuía interesse na época. A apresentação que eles fizeram mudou a minha forma de ver a indústria do futebol e logicamente o modelo das minhas apresentações.

Eram cerca de 60 slides. Quase metade da apresentação demonstrava a força da liga em que estavam inseridos. O que foi realizado, o que estava em andamento e quais os planos futuros. A outra metade foi dividida sobre a economia do país, o clube e por fim o produto/serviço.

Ali ficou uma lição para mim: Com uma liga forte, os clubes são fortes. Fortaleça o seu ecossistema que os seus seres também crescerão.

Não quero entrar em polêmica se no Brasil os campeonatos devam ser organizados pela CBF ou por uma liga criada pelos clubes. A reflexão que trago é que independente do modelo adotado, os clubes podem e devem definir pautas coletivas para potencializar o futebol brasileiro em diversos aspectos.

É um pouco (ou muito) utópico, eu sei, mas essa pandemia trouxe muitos ensinamentos e exemplos positivos. É o momento de os clubes trocarem o pensamento de ‘somos uma equipe para brigar com a outra’ para ‘somos uma equipe para contribuir com o futebol’. Inclusive essa mudança pode começar internamente entre departamentos dos clubes que muitas vezes não se relacionam por questões estruturais (sedes diferentes) ou culturais.

Dentre os benefícios que a coopetição pode trazer para os clubes é possível listar a expansão de mercado, oportunidades de inovação, parcerias de sucesso, compartilhamento e criação de novas experiências, abertura de novos horizontes, descoberta de novas soluções e oportunidades de novos investimentos.

Estamos vivenciando uma era de mudanças aceleradas em que os três pilares de sustentabilidade (econômico, social e ambiental) da economia compartilhada batem à nossa porta. Assim como as práticas ESG (Environmental, Social and Governance) também começam a ganhar força nas empresas.

Minha pergunta para quem lida com o esporte: Vamos deixar esse trem todo passar ou embarcar juntos para o futuro?

Texto de Caio Derosso.

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