
Foto: Arquivo Pessoal
No futebol brasileiro, existe um mercado que movimenta milhões, mas que nem sempre está nos holofotes. Enquanto grandes clubes concentram esforços em jogadores já conhecidos, competições de maior exposição e atletas com números amplamente divulgados, existe um universo de talentos espalhados pelas divisões inferiores, estaduais, categorias de base e ligas regionais.
É nesse espaço que o scouting pode fazer a diferença.
A busca por talentos deixou de ser apenas uma questão de assistir a jogos e indicar jogadores. Hoje, identificar uma oportunidade de contratação de um atleta exige cruzar informações, observar o contexto, analisar desempenho, compreender características táticas e técnicas, e, principalmente, enxergar aquilo que o mercado ainda não percebeu.
A Série D é um dos melhores exemplos desse cenário. São clubes com estruturas diferentes, jogadores buscando espaço e atletas que, muitas vezes, possuem capacidade para atuar em níveis superiores. O mesmo acontece nos campeonatos estaduais, no Sub-20, no Sub-17 e em diversas ligas regionais que ainda recebem pouca atenção dos grandes departamentos de scouting. E existe uma oportunidade enorme justamente aí.
Um jogador que hoje atua diante de algumas centenas de torcedores pode, em poucos anos, estar disputando uma competição nacional de maior nível. A diferença entre ele e um atleta já valorizado pelo mercado nem sempre está apenas na qualidade técnica. Muitas vezes, está na exposição, no contexto em que joga e na capacidade dos clubes de identificá-lo antes que outros percebam seu potencial.
É por isso que o scouting precisa ir além do nome conhecido.
Não basta procurar quem já está performando em evidência. É necessário entender por que determinado jogador está performando, quais características podem ser transferidas para outro contexto e qual margem de desenvolvimento ainda existe.
Um atacante pode não ter números extraordinários porque atua em uma equipe que cria poucas oportunidades. Um volante pode ter pouca participação ofensiva porque suas funções são predominantemente defensivas. Um zagueiro pode estar em uma equipe de menor expressão, mas apresentar leitura de jogo, velocidade e capacidade de construção que o tornam interessante para um nível superior.
Os números ajudam a encontrar o jogador. O vídeo ajuda a entender o jogador. O contexto ajuda a decidir sobre o jogador.
Outro mercado que merece atenção é o dos atletas recém-promovidos da base. Muitos jogadores deixam o Sub-17 ou Sub-20 sem receber uma oportunidade imediata no profissional. Alguns acabam emprestados, outros seguem para clubes menores e muitos simplesmente desaparecem do radar.
É justamente nesse momento que um processo estruturado de scouting pode encontrar valor.
O mesmo vale para atletas que ainda não possuem grande representação no mercado. Não ter um empresário conhecido ou estar fora dos grandes centros não significa ausência de talento. Em um país continental como o Brasil, existem jogadores competindo diariamente em ambientes que ainda não recebem a atenção proporcional ao potencial apresentado.
Para clubes com orçamento limitado, essa busca pode representar uma vantagem competitiva.
Enquanto alguns clubes disputam o mesmo jogador valorizado por dezenas de equipes, outros podem construir um caminho diferente: identificar, desenvolver e valorizar talentos antes que o mercado aumente o preço.
Essa estratégia não elimina o risco. Futebol nunca será uma ciência exata. Mas reduz decisões baseadas apenas em indicação, reputação ou percepção superficial.
No fim, scouting não é procurar o jogador mais famoso.
É encontrar o jogador certo antes que ele se torne famoso.
E talvez o próximo grande negócio do futebol brasileiro não esteja em um estádio lotado ou em uma competição televisionada. Talvez esteja acontecendo agora, em algum campo do interior, esperando apenas que alguém esteja olhando.
Texto de Daniel Guadagnin




