
Vamos falar sobre a evolução do futebol na parte em que ele caminhou para trás, deixando de ser arte para ser pura mecânica.
Não! Não me tenha como um mero saudosista ultrapassado ou alguém que ignora a ciência e o aprimoramento na formação dos futuros jogadores de futebol profissional. Notem, todavia, que não uso a denominação “atletas”, embora este aspecto seja importante, para definir aqueles que atuam nas quatro linhas como “jogadores de futebol”.
Outro dia, em excelente curso que assisti e acompanhei, Olhos para Base, o sábio Professor Próspero Paoli tocou neste assunto e de imediato em me identifiquei no pensamento. Nos dias de hoje, levamos meninos a partir dos 5 anos de idade para escolinhas de futebol, dividimos o campo em terços, colocamos cones, incentivamos a coletividade, ordenamos que todos marquem bastante, que tenham muita entrega nos treinamentos e… restringimos, senão proibimos, o drible.
A alegria do futebol
Pois bem. É chegado o momento de uma volta às origens, de forma adaptada ao presente. Precisamos deixar a imaginação e a arte dos meninos fluir. Devemos, nas idades mais tenras, por primeiro, largar a bola no campo ou na quadra e dizer aos pequenos: “Brinquem!”.
Antigamente, tivemos atacantes como Joãozinho (Cruzeiro), Zé Sérgio (São Paulo), Júlio César (Flamengo). Eram tempos onde mesmo defensores driblavam e exibiam qualidade técnica com bola extraordinárias. Leandro do Flamengo, o maior exemplo e mais recentemente Fabiano Eller, campeão da América pelo Internacional e que antes percorreu vários clubes grandes no Brasil e na Europa.
Hoje, especialmente no Brasil, ainda temos alguns bons dribladores como Neymar, Rodrygo, Estevão e Vinicius Junior, mas notem que todos estes, da geração atual, seriam bem melhor aproveitados se não fosse tanta a cobrança por marcar e jogar o esporte coletivo, adaptando-se os esquemas táticos aos craques e não o inverso como se faz.
Atribuo esse “progresso” futebolístico à europeização do futebol brasileiro, para citar as falas do excelente professor Vanderlei Luxemburgo, que, para mim, é um dos maiores conhecedores de futebol deste ex-país do futebol.
Hoje, os atletas (uso agora essa expressão) são muitas vezes selecionados e captados tendo como critério principal o porte físico e a chamada cultura tática, e logo são levados a pesados treinamentos de posicionamento e jogo coletivo. Repito: desde as mais tenras idades.
E que se vê no campo?
Nossos jogos de futebol são monótonos e sem qualidade técnica, nossa seleção nacional deixou de ter a naturalidade do nosso jogador – que ainda pode voltar a ser o melhor do mundo -, nos igualamos aos Europeus no modo burocrático de jogar, mas sem a força, mentalidade forte e disciplina que eles têm. Tínhamos uma arma muito forte: a genialidade e a ousadia técnica e dela abrimos mãos para nos tornarmos lugar comum e inferiores.
Os tempos são tão bicudos que já é possível assistir a jogador de futebol ser punido com advertência ou até expulsão – como ocorreu dia destes na segunda divisão nacional – motivada por dribles qualificados como humilhantes – na verdade lindos e geniais.
Mas o que fazer? Voltar a jogar bola sem nenhuma organização como os africanos dos anos 90?
Não! Essa não é minha proposta! O que precisamos é deixar os pequenos jogar bola e, com o crescimento físico e intelectual, bem como após alguma maturidade emocional – ainda pouca na infância e juventude –, ir paulatinamente incutindo nos jogadores de bola a ideia de atletas. No meio da brincadeira, pedir determinado posicionamento, determinada disciplina e casar o individual com o coletivo.
Assim, como em um casamento temos antes as fases do namoro e do noivado, na bola teríamos a fase da paixão, a transição paciente, até desembarcar no porto seguro do futebol bem jogado, com técnica, tática e mental forte.
Texto de Eugênio Paes Amorim



