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O sonho de se tornar jogador de futebol profissional move milhões de crianças e adolescentes no Brasil, no entanto, nem todos irão realizar o seu objetivo final e a realidade estatística deixa isso muito claro.

No cenário global, diversas pesquisas sugerem que em torno de 1% dos atletas chegam a uma liga profissional e no Brasil, o retrato é igualmente revelador. Segundo levantamento da FutDados publicado pelo GE Globo, a chance de um garoto de base se tornar jogador profissional no país é de aproximadamente 1%. Um estudo da própria CBF, de 2016, já apontava que, dos cerca de 28.200 jogadores profissionais registrados na época, menos de 4% — cerca de 1.100 atletas — tinham contrato formal com clubes

E mesmo para quem consegue chegar, o tempo é curto. Uma revisão sistemática publicada em 2025 no PMC/NIH mostra que a duração média da carreira de um jogador profissional varia entre 5,2 e 11 anos.

Diante desses números, negar a existência de um plano B não protege o jovem atleta, na verdade, tem-se o contrário, pois a falta do plano B expõe jovens potenciais a um risco que ele sequer compreende.

A mentira que se tornou verdade “ou tudo, ou nada”

Muitos clubes e famílias temem que falar em alternativas “tire o foco” do sonho, devido a ideia de que o futebol deve ser visto como tudo ou nada. No entanto, sabemos que essa mentalidade precisa mudar, inclusive para que o futebol possa também ser o projeto de outros milhões de jovens oriundos de famílias conscientes.

Pensar em um projeto alternativo não enfraquece a ambição do jovem atleta, mas se bem apresentado, tem o potencial de fortalecer, pois, quando o jovem sabe que tem uma rede de apoio para o caso de o futebol não dar certo, ele treina com menos angústia, toma decisões mais maduras e, paradoxalmente, performa melhor.

O papel da família: conversa com amor, não com medo

Pais e mães de atletas de base enfrentam um dilema delicado: como incentivar o sonho sem criar ilusões?

A resposta está na honestidade afetiva. Desta forma, é importante que a conversa seja franca, mas carregada de cuidado, que reconheça a beleza do sonho e a dureza dos números.

Algumas sugestões são:

  • Valorize os estudos: Conversa com seu filho e com o clube e deixe claro que os estudos são importantes para a formação de vida, independe do projeto de se tornar jogador. Deixe claro para o seu filho de que o ensino médio completo é o mínimo e que é importante pensar em fazer uma faculdade a distância (EAD), já que essa é uma possibilidade real mesmo durante a carreira de base, com flexibilidade de horários e custos acessíveis.
  • Incentive habilidades prática: Converse com o seu filho e incentive a aprender inglês, informática, comunicação, finanças pessoais. Essas competências não competem com o futebol — elas complementam o desenvolvimento do atleta como pessoa.
  • Apresente histórias reais: Pesquise sobre histórias de ex-atletas que reconstruíram suas vidas em outras áreas, e mostrar que sucesso profissional tem muitas formas.

Um pai ou uma mãe que diz “Eu te amo, e quero que você seja feliz, seja no futebol, seja em qualquer outra coisa que você descubra que ama”   liberta o filho para ser melhor jogador.

O papel do clube: formar cidadãos, não só atletas

Aqui está o ponto que muitos dirigentes ainda não compreenderam: um clube que se preocupa com o futuro integral de seus atletas de base não perde talentos, na verdade, ganha lealdade, reputação e, no longo prazo, mais jovens querendo vestir sua camisa.

Os dados mostram que mais de 96% dos garotos que entram nas categorias de base não chegarão ao profissional, desta forma, se o clube ignora essa realidade, ele está abandonando 96% de seus formandos.

Por outro lado, se ele abraça essa realidade, o clube está  formando 100% de cidadãos.

Na prática, clubes podem:

  • Oferecer oficinas e cursos práticos — cabeleireiro, marcenaria, mecânica, informática, inglês, empreendedorismo — conforme o interesse dos atletas. Essas habilidades podem se tornar profissão, renda complementar ou até mesmo um negócio próprio após o futebol.
  • Firmar parcerias com escolas e universidades EAD, facilitando matrícula e flexibilizando horários de treino para atletas que estudam.
  • Criar programas de orientação vocacional, com psicólogos e ex-atletas que compartilhem suas trajetórias pós-carreira.
  • Incluir a família no processo, com reuniões periódicas que tratem não só do desempenho esportivo, mas do desenvolvimento escolar e pessoal.

Projeto B não é traição ao sonho — é inteligência

Diante disso, quando a formação do atleta é feita com realismo, tendo o atleta um projeto alternativo claro, nessas circunstâncias, ele não desiste fácil do futebol, ao contrário, ele treina com menos desespero, aceita melhor as frustrações e, se um dia precisar recomeçar, terá ferramentas concretas para isso.

Clubes que entendem isso não perdem atletas, formam homens e mulheres que serão gratos por ter um dia vestido a camisa do clube.  E, no fim das contas, o futebol brasileiro precisa tanto de craques quanto de cidadãos preparados, porque o país que forma apenas sonhadores, sem dar-lhes chão, está fadado a decepcionar a maioria.

O sonho não morre quando se planeja o futuro. Ele se fortalece.

Texto de Rulio Iglessia

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