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Um tema que vem sendo amplamente debatido e que desperta profunda preocupação nos bastidores da base brasileira é o Mapa de Talentos no futebol brasileiro.

Um estudo do NUPEF (Núcleo de Pesquisa e Estudos em Futebol da UFV), liderado pelo Professor Israel Teoldo e sua equipe, joga luz sobre um problema estrutural crônico do nosso ecossistema: a hiper centralização geopolítica da captação e do desenvolvimento de atletas no Brasil.

O “Mapa de Talentos” deixa claro que, embora o talento nasça democraticamente em qualquer canto desse país continental, o funil do alto rendimento é ditado pelo CEP. O eixo Sul-Sudeste não apenas concentra os clubes de maior poder aquisitivo, mas também acaba engolindo as oportunidades de jovens do Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Muitos desses garotos se perdem por pura falta de infraestrutura local, logística deficitária ou ausência de um monitoramento precoce.

O Paradoxo do Berço Esplêndido

O Brasil é celebrado mundialmente como a “fábrica de craques”, uma terra onde a bola rola organicamente em praias, várzeas e quadras de Norte a Sul.

Mas essa é uma visão romântica. Quando confrontamos com a dura realidade estatística apresentada pelo NUPEF, somos forçados a uma reflexão incômoda: se Garrincha ou Rivaldo nascessem hoje no interior de seus estados, sem uma rede de captação devidamente estruturada, eles conseguiriam chegar ao topo?

A realidade é dura: o talento é continental, mas a oportunidade ainda é estritamente regional.

O Funil Invisível da Base

No quadro apresentado na página 35 do livro “Caderno Metodológico para a Formação de Jogadores”, os autores frisam que apenas sete Estados são responsáveis por produzir/fornecer mais de 75% dos (as) atletas de elite do futebol brasileiro. Entre esses Estados, somente o da Bahia não se encontra no chamado Cone Sul (MG, SP, RJ, RS, SC e PR). É evidente que, como os próprios pesquisadores apontam, o fator IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) exerce forte influência nessa dinâmica, mas isso não pode ser uma justificativa para o imobilismo. Algo precisa ser feito para explorarmos melhor o nosso potencial acadêmico e esportivo.

Essa centralização gera outro grande problema: a migração precoce. Meninos de 11, 12 anos cruzam o país para tentar a sorte em alojamentos no Sudeste, submetendo-se a um desgaste emocional absurdo que resulta em um índice de desistência altíssimo. O ecossistema atual, de forma cruel, força o garoto a se adaptar à geografia do mercado, em vez de o mercado alcançar o potencial do garoto.

A Virada de Chave – Como Mapear a Vastidão do Brasil

Para que o Brasil possa, de fato, aproveitar sua riqueza humana, precisamos de propostas práticas e integradas:

  • Centros de Desenvolvimento Regionais (CBF + Federações):

A CBF, em parceria com as federações locais, deveria criar e subsidiar Centros de Desenvolvimento de Talentos nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Esses espaços contariam com uma infraestrutura metodológica padronizada (seguindo as diretrizes da CBF Academy) permitindo que os melhores talentos locais pudessem treinar em alto rendimento dos 11 aos 14 anos, sem a necessidade de deixar suas famílias. Funcionariam como verdadeiros hubs de transição.

  • Fortalecimento dos Calendários Estaduais e Regionais de Base (Federações)

Hoje, muitas federações fora do eixo principal realizam campeonatos de base que duram apenas dois ou três meses. O atleta precisa de minutagem e competição constante para evoluir.

Como já defendi em crônicas anteriores é urgente a padronização dos campeonatos estaduais de base (idades, tamanhos de campo, tempo de jogo etc).

Uma excelente alternativa seria a criação de ligas interestaduais ou regionais de base (ex: uma Copa Nordeste ou Copa Norte Sub-13, Sub-15) financiadas por fundos de fomento da própria CBF (retorno do dinheiro da Seleção Brasileira para a base).

Afinal competição gera demanda, que por sua vez gera evolução técnica.

  • Digitalização e Democratização do Scouting (Tecnologia + Rede Nacional)

A Proposta aqui é criar uma plataforma nacional unificada de dados de atletas de base (um verdadeiro “Prontuário do Atleta”).

As federações locais alimentariam esse sistema com dados físicos, técnicos, táticos e de saúde de jovens promessas vindas de projetos sociais e clubes amadores de qualquer município. Isso democratizaria o acesso à informação para grandes e pequenos clubes e otimizaria o trabalho dos observadores.

  • Fomento ao Certificado de Clube Formador (CCF) Regional

É preciso flexibilizar as exigências atuais, criando “selos de formação progressivos” para clubes de menor porte do interior do Brasil, incentivando-os a se profissionalizarem na base. Em vez de exigir de largada todas as contrapartidas complexas do CCF da CBF, o caminho seria criar categorias de incentivo (Selo de Formação Regional A, B, C). Isso garantiria os direitos econômicos e de formação a esses clubes menores, protegendo o investimento de quem descobre o talento na sua real origem.

O Gol que o Brasil Precisa Marcar

Democratizar o acesso ao futebol de alto rendimento não é apenas uma questão de justiça social ou de “Player Care” (o olhar atento e humanizado ao contexto familiar do jovem atleta); é, acima de tudo, uma estratégia de sobrevivência mercadológica e técnica para o futebol brasileiro continuar sendo o melhor do mundo.

Se não integrarmos o país pelo campo, continuaremos desperdiçando os nossos maiores talento no banco da exclusão geográfica.

Na próxima coluna: Citaremos a importância de ampliação de experiências do atleta na formação em suas respectivas etapas. Não percam!

Indicação de Leitura:

 Caderno Metodológico para a Formação de Jogadores mais Inteligentes e Criativos para o Jogo – Israel Teoldo / Guilherme Machado / Felippe Cardoso

Links para as colunas anteriores:

– Por que formamos jogadores?

– Quem forma os jogadores? O capital humano como o verdadeiro craque da base. 1ª parte

– Quem forma os jogadores? O capital humano como o verdadeiro craque da base.  (2ª parte)

– Hipotecando o Futuro: Por que o Futebol Brasileiro Prefere Comprar o Mediano à Lapidar o Ouro?

– Formação de Talentos: O Debate que o Brasil Precisa

– Planejando o Gol: A comunicação como pilar estratégico no futebol

– Metodologia da Base: Onde o Futuro se Desenha

– O Garimpo e o DNA: O Dilema do Olhar no Futebol de Base

– O Currículo do Gramado: O Perigo da Educação Interrompida na Base

– A Transição Negligenciada: O Futebol Brasileiro Trocou o Processo pelo Placebo.

– Sopa de Letrinhas ou Gestão Profissional? Entenda quem é quem no futebol

Texto de Carlos Brazil

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