
Foto: Arena/Folhapress
O futebol brasileiro convive há décadas com uma cultura de imediatismo, mas os números mais recentes mostram que a instabilidade dos treinadores atingiu um nível alarmante. Segundo estudo divulgado pelo CIES Football Observatory, o Brasileirão é hoje a sexta liga do mundo que mais troca técnicos. Nos últimos 12 meses, 85% dos clubes da Série A mudaram de treinador ao menos uma vez, um índice muito acima da média global, que é de 65,2%.
O levantamento aponta que 17 dos 20 clubes da elite brasileira trocaram de comando no período analisado. Apenas Chipre, Peru, Série B italiana, Bélgica e Venezuela apresentam índices piores de rotatividade. Enquanto isso, ligas como a Premier League e a La Liga vivem uma realidade completamente diferente: cerca de 40% dos clubes ingleses trocaram de treinador no último ano, com permanência média de quase 28 meses. Na Espanha, o cenário é semelhante, com média próxima de 29 meses de trabalho contínuo.
No Brasil, a permanência média de um treinador é de apenas 8,6 meses. O dado ajuda a explicar por que tantos clubes encontram dificuldades para consolidar modelos de jogo, processos internos e projetos esportivos de longo prazo. Em um ambiente onde o resultado imediato frequentemente fala mais alto do que o planejamento, o treinador acaba se tornando o primeiro alvo em momentos de pressão, mesmo quando os problemas estruturais do clube vão muito além das quatro linhas.
Por isso, a discussão sobre estabilidade técnica deixou de ser apenas um tema esportivo e passou a ser também uma questão de gestão. Clubes mais organizados ao redor do mundo tratam a escolha do treinador como parte de uma identidade institucional, alinhando filosofia de jogo, análise de mercado, categorias de base e planejamento financeiro dentro de uma mesma estrutura. No futebol brasileiro, porém, ainda é comum ver projetos sendo interrompidos antes mesmo de atingirem maturidade suficiente para serem avaliados de forma consistente.
A alta rotatividade também reforça o tamanho do desafio enfrentado pelos executivos de futebol no país. Hoje, o executivo precisa equilibrar pressão política, expectativa da torcida, ambiente interno e resultados esportivos enquanto tenta manter coerência no planejamento da temporada. Em muitos casos, a troca de treinador representa não apenas uma decisão técnica, mas também uma tentativa de reduzir a pressão externa no curto prazo.
O estudo do CIES acaba expondo um dos principais dilemas do futebol brasileiro moderno: como construir competitividade sustentável em um ambiente onde quase nenhum trabalho consegue sobreviver ao primeiro momento de instabilidade.
Texto de Willian Sanmartin
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