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Foto: Canada Soccer

Quando falamos de futebol no Canadá, ou melhor, soccer, vemos poucas referências mundiais. Com exceção da sempre competitiva seleção feminina e de algumas estrelas como Alphonso Davies e Jonathan David, a grande nação do norte do continente, mas pequena em termos populacionais, quase sempre ficou no anonimato futebolístico.

No entanto, após o título da Copa de Ouro de 2000 e a participação na Copa das Confederações de 2001, o Canadá registrou mais de 840 mil praticantes e viu o esporte se enraizar na terra do hóquei no gelo. Os Canucks foram pouco a pouco colocando seus pés no mundo do futebol globalizado, e a prova final disto será o desempenho na Copa do Mundo de 2026 na sua própria casa.

O improvável título da Copa Ouro de 2000 aconteceu graças a Carlo Corazzin, artilheiro da competição (Foto: CONCACAF)

Então como uma seleção sem tradição e uma Liga local criada em 2019, rapidamente se tornou uma das protagonistas na CONCACAF e alimenta uma grande expectativa de fazer bonito na Copa de 2026? Analisaremos os componentes fundamentais para explicar se a Era de Ouro do Canadá dará seu passo final de estruturação.

O diagnóstico: Admitir o atraso para construir o futuro

Existe uma diferença brutal entre países que revelam talentos e países que constroem sistemas. Normalmente, os países seguem o fluxo natural do desenvolvimento do esporte no seu país, com a expansão da popularidade do jogo e do interesse natural da população. Durante muito tempo, o Canadá não tinha interesse, nem talento consolidado e muito menos um modelo estruturado para o futebol. Hoje, caminha rapidamente para preencher estas três lacunas.

E isso começa lá atrás em 2009 quando o país teve coragem de admitir um problema: Faltava base, estrutura e direção. O documento “Wellness to World Cup” não é só um plano técnico. É quase uma autocrítica institucional.

Ele aponta algo que muitos países ainda ignoram: o futebol canadense era refém do curto prazo. Jovens eram treinados para ganhar jogos no fim de semana e não para se tornarem atletas de elite.

Mais do que isso, havia internamente uma grande falta de padronização na formação, infraestrutura inconsistente e um atraso nas categorias de base centrado em técnicos e pais, nunca no jogador. O Canadá não precisava melhorar, precisava recomeçar.

Aos olhos do mundo do futebol, a situação era ainda pior para uma nação que almejava crescer em um universo super competitivo:

  • Não havia liga profissional, já que as constantes tentativas da Canadian Soccer League se tornar relevante aos olhos da FIFA foram um fracasso, terminando inclusive em escândalo de manipulação de resultados.
  • Não havia liderança organizacional, pois sem integração entre base, alto rendimento e governança não há estrutura profissional. A ausência de uma jurisdição única e da função de diretores técnicos transformaram todo o ambiente em um amadorismo caótico.
  • Não havia cultura e unidade com as diversas províncias canadenses tratando o futebol de maneira muito diversa. Os clubes não faziam parte do ecossistema comunitário, o futebol não era promovido localmente e a qualidade dos treinadores era reflexo de um sistema que não capacitava seus profissionais.
  • E portanto, não havia resultado numa seleção dispersa e que dependia do mercado externo para desenvolver seus próprios atletas, sempre falhava em atingir a fase final das eliminatórias.

Abrace sua cultura

Mas não por acaso, a história moderna do futebol canadense esbarra com o desenvolvimento populacional do país. Repleto de imigrantes, a seleção é uma das mais multiculturais do mundo. Segundo o censo de 2021, o Canadá tem cerca de 8,3 milhões de pessoas nascidas no exterior, representando 23% da população total.

Este número reflete a presença de estrangeiros e de um elenco multiétnico na seleção de 2022 para a Copa do Mundo, em que 14 dos 26 convocados apresentaram origens bem diversas:

Adekugbe e Ugbo (nascidos na Inglaterra, raízes nigerianas)

Koné (nascido na Costa do Marfim)

Alphonso Davies (nascido em Gana, raízes liberianas)

Alphonso Davies nasceu em um campo de refugiados em Gana, com seus pais fugindo da Guerra Civil na Libéria (Foto: Canada Soccer)

Laryea (raízes ganesas)

Steven Vitória e Stephen Eustáquio (filhos de portugueses)

Milan Borjan (nascido na antiga Iugoslávia)

Wotherspoon (nascido na Escócia)

Kaye e Larin (raízes jamaicanas)

Cornelius (raízes caribenhas)

Jonathan David (nascido nos EUA, raízes haitianas)

Atiba Hutchinson (raízes trinitárias)

Porém, é importante ressaltar que diferente de seleções europeias e africanas, que frequentemente operam em uma lógica de captação de talentos da diáspora já formados em outros centros, o Canadá tenta construir algo mais orgânico: integrar o jogador imigrante desde a base dentro do próprio sistema nacional, criando uma identidade que não é importada, mas desenvolvida internamente.

Enquanto países como França e Marrocos exportam formação, o Canadá decidiu internalizar o processo. Geralmente, seleções europeias, africanas e caribenhas muitas vezes enfrentam debates sobre pertencimento e escolha de seleção, já o novo modelo canadense dilui essa tensão ao formar atletas já inseridos na cultura esportiva do país.

Esse processo se aproxima mais de seleções como a Austrália, que também utiliza sua diversidade como pilar, mas com forte ênfase na formação doméstica. Foi também nos australianos, que os canadenses mais se inspiraram em documentos de 2007 pela semelhança em densidade populacional e renda per capita, ressaltando que nesta época os Socceroos haviam 13 dos 23 convocados para a Copa de 2006 nas cinco principais ligas europeias, enquanto os Canucks apenas cinco.

A virada conceitual: Formar, não apenas competir

Em um país sem um ecossistema sólido de hierarquias de clubes de futebol e com uma escassez de categorias de base competentes, a maioria dos jogadores precisava se aventurar em outros países com infraestrutura e uma cultura de futebol que respeitava seu tempo de maturação.

Nomes como Jonathan Osorio e Lucas Cavallini tentaram a sorte bem cedo nas canteras uruguaias, o já aposentado Steven Vitória no Porto, Samuel Piette na Alemanha, muito pela falta de infraestrutura de desenvolvimento no país.

Segundo dados dos artigos de desenvolvimento do futebol no Canadá, de todos os jogadores de 16 anos que conseguem um contrato profissional apenas 15% conseguem disputar um jogo profissional aos 21 anos. Isso é ainda mais alarmante quando vemos que no grupo de 29 jogadores da seleção nacional em 2021 somente 3 jogavam juntos na seleção sub-17.

Esse tipo de abordagem evita um erro clássico que o país costumava repetir: tratar o futebol de elite como algo separado da base. No início dos anos 2000, apesar do grande número de jovens que jogam futebol no Canadá, eles não conseguiam desenvolver jogadores do sexo masculino a um nível em que podiam competir com os melhores jogadores profissionais do mundo.

A resposta veio com a implementação do modelo de Long-Term Player Development (LTPD) no futebol. E aqui está o ponto mais subestimado de todo o projeto canadense: eles decidiram que o futebol não tinha foco só no alto rendimento, mas começaria na infância, no comportamento e na relação com o jogo, gerando uma base sólida de habilidades e fomentando para a vida toda.

O modelo estabelece que levar um atleta ao nível elite exige 8 a 12 anos de desenvolvimento contínuo, com progressão planejada. E mais importante: o sistema passa a respeitar o tempo biológico, mental e emocional do atleta, não o calendário competitivo.

Criado pelo canadense Istvan Balyi, o modelo se tornou referência mundial e geralmente segue sete etapas:

  1. Início Ativo (Active Start): Idades 0-6. Foco em brincar e desenvolver habilidades motoras básicas.
  2. Fundamentos (Fundamentals): Idades 6-9 (meninas), 6-9 (meninos). Desenvolvimento geral de habilidades motoras (correr, saltar, arremessar).
  3. Aprenda a Treinar (Learn to Train): Idades 8-11 (meninas), 9-12 (meninos). Foco em habilidades esportivas específicas e desenvolvimento de coordenação.
  4. Treine para Treinar (Train to Train): Idades 11-15 (meninas), 12-16 (meninos). Foco no desenvolvimento físico (força, resistência) e técnico.
  5. Treine para Competir (Train to Compete): Idades 15-21+ (meninas), 16-23+ (meninos). Foco em otimizar desempenho e tática.
  6. Treine para Vencer (Train to Win): Idades 17+ (meninas), 19+ (meninos). Foco total na alta performance e resultados.
  7. Ativo para a Vida Toda (Active for Life): Qualquer idade. Manter uma vida saudável através da atividade física

Um dos pilares do modelo canadense é integrar escola, esporte recreativo e alto rendimento. Parece teórico, mas tem impacto direto: o lateral direito Alistair Johnston é grande exemplo disso. Nascido em 1998 e participando desde os quatro anos em times juvenis locais no Canadá, atingiu o alto nível primeiro em passagens por Nashville e CF Montréal da MLS. Hoje é jogador do gigante escocês Celtic FC.

A boa Copa do Mundo de 2022 levou Alistair Jonhston ao Celtic. (Foto: Celtic FC)

No Canadá multicultural de hoje, tudo precisa fazer parte do mesmo ecossistema e criar um ciclo virtuoso:

  • Mais crianças entram no sistema
  • Mais atletas permanecem no esporte
  • Mais talentos chegam ao topo

Os homens por trás do projeto

Se em 1986 na sua primeira participação de Copa do Mundo o Canadá teve o azar de enfrentar um trio europeu na fase de grupos com França, Hungria e União Soviética e sair com três derrotas, em 2022 a história se repetiu em um grupo com Bélgica e dois futuros semifinalistas: Croácia e Marrocos, caindo novamente na fase de grupos e frustrando aqueles que apostaram na jovem e inexperiente seleção como uma potencial surpresa.

Disputando as três partidas sob o comando de John Herdman, ex-treinador da seleção feminina, a seleção acolheu rapidamente um sistema já consolidado nas ligas da América do Norte que consiste em pouca posse de bola, fisicalidade e de contra-ataques.

No contexto continental o modelo se mostrou um sucesso com o primeiro lugar nas eliminatórias da CONCACAF com vitórias importantes contra Estados Unidos e México. No entanto, mesmo se adaptando a um grupo jovem, o país levou um grande choque de realidade no principal palco internacional, onde o estilo ousado e de transição rápida colapsou em esquemas defensivos mais bem compactados como o da Croácia e de Marrocos.

A federação optou pela troca e depois de algum tempo foi concretizada a transição entre John Herdman e Jesse Marsch para o ciclo da Copa de 2026. O movimento representa mais do que uma simples troca de comando na Seleção Canadense de Futebol, é quase uma mudança de filosofia sobre como esse projeto deve competir em alto nível.

Jesse Marsh implementou o modelo Red Bull na seleção canadense. (Foto: Major League Soccer)

Herdman foi o arquiteto emocional e estrutural da seleção moderna: seu Canadá era um time de identidade clara, baseado em coesão, intensidade e transições rápidas, muito sustentado pela força coletiva e pela conexão do elenco com a narrativa do país. Fora do campo ele precisou não ser apenas só treinador, mas também gerenciar egos e brigas entre os vários grupos étnicos nos primeiros jogos devido aos desentendimentos entre jogadores de ascendência sul-americana com os de origens africanas e caribenhas.

Com passagem recente pelo Leeds United, Marsch traz uma abordagem mais pragmática e tática, influenciada pelo modelo Red Bull: pressão alta, verticalidade agressiva e menor dependência de contexto emocional. Essa mudança também impacta diretamente o perfil dos jogadores que ganham espaço. A nova rotação para 2026 começa a incorporar nomes que se encaixam melhor em um jogo mais intenso e mecanizado. Se Herdman construiu o “porquê”, Marsch tenta refinar o “como”.

Os resultados do novo treinador no comando da Seleção Canadense de Futebol tem sido marcado por um contraste claro entre potencial e execução. Seu ponto alto veio na Copa América 2024, onde o Canadá surpreendeu ao alcançar as semifinais em sua estreia na competição, superando outras seleções da CONCACAF e competindo de igual para igual com seleções sul-americanas. Um desempenho que evidenciou rápida assimilação de sua ideia de jogo, colocando o país em novo patamar internacional.

Canadá  chegou perto de derrotar o Uruguai na disputa do terceiro lugar da Copa America 2024 . (Foto: CONMEBOL Copa America)

A queda de desempenho veio nos últimos torneios como a Nations League da CONCACAF e a Copa Ouro, em que as eliminações para México nas semifinais e Guatemala nas quartas, respectivamente, colocaram um ponto de interrogação na profundidade do elenco canadense.

Já nos amistosos de 2025 e 2026 vimos um time totalmente sólido defensivamente, oferecendo poucas chances aos adversários numa clara preparação para a Copa do Mundo. Em 9 partidas, o Canadá só sofreu três gols em duas partidas. Dessa forma, Jesse Marsch já prepara seu elenco para os confrontos com Catar e Bósnia no seu grupo, transformando uma seleção reativa em uma mais propositiva e com muito mais controle.

As novas peças para 2026

É por isso que atletas como Ismaël Koné ganham ainda mais relevância pela capacidade de marcação, recuperação e progressão com bola, enquanto Tajon Buchanan e Oluwaseyi se tornam peças-chave pela versatilidade e explosão em transições. Ao mesmo tempo, jovens como Jacob Shaffelburg e Ali Ahmed começam a aparecer como opções que oferecem profundidade, velocidade e adaptação a diferentes funções, algo essencial em um sistema mais dinâmico.

Outro ponto importante é a abertura para perfis menos consolidados internacionalmente, mas mais ajustados ao modelo de jogo de Marsch. Jogadores como Mathieu Choinière e Moïse Bombito representam essa nova fase: atletas formados dentro do mercado norte-americano, com boa leitura tática e capacidade física para sustentar pressão constante. Não são, necessariamente, os nomes mais midiáticos, mas são os que ajudam a elevar o nível coletivo.

Mas a grande dor de cabeça que o país precisa enfrentar será o atual momento de muitos de seus titulares. Bombito e Alistair Johnston tem pouquíssima minutagem após enfrentar uma temporada com lesões graves. Alphonso Davies e Stephen Eustaquio são engrenagens fundamentais no funcionamento do jogo e também convivem com lesões que minam grandes sequências de jogos. Por fim, Jonathan David, nome de maior confiança no ataque, vive momento irregular no futebol europeu.

Assim, nomes como o do jovem Marcelo Flores aparecem, simbolizando bem os dilemas e oportunidades do futebol canadense contemporâneo: nascido no Canadá, mas com forte ligação familiar com o México, ele chegou a trilhar seu caminho nas categorias de base mexicanas antes de voltar ao radar canadense, refletindo a disputa por talentos típica da CONCACAF.

Tecnicamente refinado, com boa condução e criatividade entre linhas, Flores deixou sinais positivos recentes, especialmente nos amistosos contra a Islândia e Tunísia, onde mostrou personalidade, capacidade de aceleração ofensiva e leitura de jogo.

Formado no Arsenal, Marcelino Flores deixou boa impressão na sua estreia pelo Canadá (Foto: Leagues Cup)

No fundo, o Canadá chega a 2026 em um estágio raro: não depende mais apenas de sua geração inicial de destaque, mas começa a construir qualidade de elenco com identidade tática clara.

A troca de Herdman por Marsch não rompe o projeto, ela o confirma. E, se bem executada, pode ser exatamente o que transforma um time competitivo em uma seleção verdadeiramente preparada para disputar grandes jogos eliminatórios dentro de casa e por fim, alcançar a última etapa de um plano que começou no início dos anos 2000: deixar de ser promessa e finalmente se consolidar como realidade.

Texto de Guilherme Lacerda

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