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Foto: (Cesar Greco/Ag. Palmeiras/Divulgação)

Qual seria a transição mais difícil no futebol? Embora os jovens transitem de categoria o tempo todo, sucumbindo muitas vezes na passagem para o Sub-17 ou Sub-20, a transição base-profissional é a mais crítica. É o rito de passagem onde a promessa se torna realidade. Já não seria simples pela questão mental e pela mudança de ambiente (de jogar com amigos da mesma idade para dividir o vestiário com ídolos e enfrentar a pressão da mídia e torcida).

No entanto, essa fase tornou-se ainda mais complexa no Brasil devido a um fenômeno recente: o glamour sedutor da contratação internacional. O aeroporto lotado para receber uma “jovem promessa” sul-americana virou rotina, entorpecendo a razão técnica e financeira dos clubes. Sob o pretexto de que o mercado interno inflacionou, estamos trocando o investimento sólido da nossa formação por apostas externas caríssimas.

A Conta que não Fecha

A lógica é contraditória. O clube investe entre R$ 25 milhões e R$ 40 milhões anuais em sua base. Ao longo de um ciclo de cinco anos (Sub-15 ao Sub-20), o custo para entregar um jogador “lapidado” ao profissional gira em torno de R$ 2 milhões. Em contrapartida, um jovem estrangeiro com algum destaque não sai por menos de US$ 3 milhões a US$ 5 milhões (entre R$ 17 milhões e R$ 28 milhões).

Contratar uma “aposta” externa custa, em média, 10 a 14 vezes mais do que formar um jovem em casa. Além disso, o risco de liquidez é gritante; se o jovem da base não vingar, o custo operacional é absorvido; se o estrangeiro falhar, gera-se um prejuízo patrimonial direto e difícil de recuperar. Enquanto isso, o ativo da casa é liberado de forma gratuita, mofa no banco ou é emprestado para “ganhar rodagem” em contextos que pouco ajudam seu desenvolvimento.

O Escudo do Processo

A diferença entre o sucesso e o caos chama-se processo. No River Plate, por exemplo, a transição não é um ato de vontade do treinador do profissional, mas uma diretriz institucional inegociável.

No Brasil, o técnico do profissional, equilibrando-se na corda bamba dos resultados semanais, raramente olha para a base com zelo acadêmico. Ele busca sobrevivência. Sem um Diretor de Transição ou uma diretriz de Diretoria que blinde o lançamento do jovem, o talento da casa é “queimado” no primeiro erro, enquanto o estrangeiro recebe sucessivas chances para “justificar o investimento”.

Como bem disse Pep Guardiola:

O talento não tem idade, tem oportunidade. O erro não é do jovem que falha, mas do clube que não criou o processo para ele acertar.”

Um modelo eficiente exige protocolos claros, como alguns dos observados no sucesso recente do Palmeiras:

Comitê de Integração: Reuniões semanais entre staff da base e profissional para definir necessidades em treinos e jogos.

Treinos Híbridos: Adaptação gradativa do atleta à intensidade do profissional.

Definição de Promoção: O comitê (última palavra sempre do treinador principal) define se um atleta passa a integrar o grupo principal. Se promovido, ele deve ser o reserva imediato ou titular; se for terceira opção da posição, permanece transitando entre as categorias para não perder minutagem.

Unificação Metodológica: Utilização dos mesmos dados e softwares de avaliação na base e profissional.

Análise de GAP: Planos individualizados para suprir carências técnicas, físicas, táticas ou mentais.

Saída Seletiva: Empréstimos apenas para clubes que possibilitem a maturação do jovem, sem valor de passe fixado e com monitoramento rigoroso.

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A Ilusão e o Efeito Dominó

Tratar a base como despesa e a contratação como investimento é o maior erro de um clube. A base é o único investimento com garantia de DNA; a contratação é uma transferência de risco. Essa “glamorização do estrangeiro” serve para aplacar o imediatismo das redes sociais, mas gera um rombo permanente no caixa.

O resultado é um efeito dominó perigoso que chega à Seleção Brasileira. Ao asfixiarmos o espaço de transição, forçamos o talento jovem ao exílio precoce em mercados periféricos. Lá, eles perdem a essência do nosso jogo. Estamos financiando a vitrine de nossos rivais continentais e sucateando nossa própria linha de produção. A crise da “amarelinha” começa no descaso da nossa base.

Uma Proposta Audaciosa (A “Regra dos 6 da Casa”)

O Regulamento Geral de Competições (RGC) da CBF limita o número de estrangeiros (que subiu para 9 em 2024), mas não protege o atleta formado no país. Inspirado no modelo da UEFA (Home-Grown Players), a CBF como entidade que zela pelo “fomento do futebol nacional”, tem prerrogativa para instituir cláusulas de barreira que protejam o atleta formado no país.

A Norma: Dos 23 atletas relacionados na súmula para qualquer partida de competições nacionais, no mínimo 6 atletas (aprox..25%) devem obrigatoriamente ser “Formados no Clube” (Home-Grown Players.

A Definição do “Formados no Clube”: Atletas que tenham registro federativo pelo clube por um período mínimo de 12 meses ininterruptos entre as categorias sub-15 e Sub-20.

A Sanção: O descumprimento acarretaria na perda de vagas na relação. Se o clube tiver apenas 2 atletas de base, ele só poderá relacionar 19 atletas no total (4 vagas perdidas), perdendo poder de substituição e variação tática.

O Objetivo: Forçar a integração sistêmica. Se a Comissão Técnica precisa desses jovens no banco, ele se vê obrigado a participar do processo de transição, a conhecer os nomes dos atletas do Sub-20 e a utilizá-los em cenários de jogo, valorizando o ativo do clube e preservando o mercado para o jogador brasileiro. Além disso, o clube se vê também obrigado a olhar pra base, de verdade, como investimento necessário.

Precisamos parar de importar o que exportamos de melhor. O futebol brasileiro não ficou caro; ele ficou preguiçoso na gestão de seus próprios tesouros.

Vale a leitura da matéria publicada recentemente no GE sobre a Seleção Italiana e o quanto todos nós, envolvidos com o futebol, devemos estar preocupados com o futebol brasileiro.

Indicações de Leitura:

– O Modelo Brasileiro de Jogo – Rodrigo Leitão – Embora foque na pedagogia do treino, Leitão debate profundamente como a cultura do futebol brasileiro (o “jeito de jogar”) se perde quando não há uma conexão metodológica entre a base e o profissional. É essencial para entender por que o jovem estranha o ambiente do time principal.

– Soccernomics – Simon Kuper e Stefan Szymanski – Este é fundamental para a parte dos números. Os autores dedicam capítulos inteiros a explicar por que o mercado de transferências é ineficiente e como os clubes agem de forma irracional (comprando caro por impulso/glamour) em vez de investir em dados e formação interna,

Na próxima coluna: O sucesso de um processo depende, acima de tudo, de quem o executa. Analisaremos os cargos e atribuições principais (CEO, Executivo de Futebol, Gerente de Futebol, Coordenadores) que compõem um departamento de futebol de alto rendimento, integrando de forma sistêmica a formação e o profissional.  Não percam!

Links para as colunas anteriores:

– Por que formamos jogadores?

– Quem forma os jogadores? O capital humano como o verdadeiro craque da base. 1ª parte

– Quem forma os jogadores? O capital humano como o verdadeiro craque da base.  (2ª parte)

– Hipotecando o Futuro: Por que o Futebol Brasileiro Prefere Comprar o Mediano à Lapidar o Ouro?

– Formação de Talentos: O Debate que o Brasil Precisa

– Planejando o Gol: A comunicação como pilar estratégico no futebol

– Metodologia da Base: Onde o Futuro se Desenha

– O Garimpo e o DNA: O Dilema do Olhar no Futebol de Base

– O Currículo do Gramado: O Perigo da Educação Interrompida na Base

Texto de Carlos Brazil

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