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Foto: André Durão

“O DNA de um clube não se compra, se cultiva. É por isso que a captação precoce (entre 7 e 12 anos) não é apenas uma busca por talento, é uma semeadura cultural”.

Johan Cruyff

Diz a máxima do futebol que o talento nasce em qualquer lugar. Mas, no Brasil de hoje, a questão não é mais onde ele nasce, e sim quem o enxerga primeiro e como o acolhe. Para quem vive os bastidores da formação, a captação e a análise de mercado deixaram de ser apenas busca por jogadores, tornaram-se uma queda de braço entre o tempo de maturação e a urgência do mercado.

A Semente e o Solo

Cruyff disse mais: “O jogador de futebol não se faz apenas com a bola; faz-se com a cultura do clube que respira”. Essa frase resume a importância da captação precoce. É nesse “estágio de ouro” que o DNA do clube é impresso. O atleta que cresce sob a sombra do estádio onde pretende estrear não precisa “se adaptar” ao peso da camisa; ele se torna a própria identidade da instituição.

Entretanto, o cronômetro da vida real impõe barreiras éticas e legais. O Ministério Público, como zelo necessário, limita a hospedagem nos clubes até 14 anos. Surge aqui o primeiro grande dilema: vale a pena transportar famílias inteiras, custear vidas e criar uma dependência financeira absoluta sobre os ombros de uma criança? O risco de frustração é alto.

Como alerta o Professor Alcides Scaglia em sua Pedagogia do esporte, “o ambiente e vínculo familiar são vitais para o desenvolvimento”. Se o sonho não virar contrato, o que sobra para essa família deslocada?

A eficácia da captação precoce no Estado que não é de origem/residência do atleta, e da família, é inegável para o campo, mas o custo social é uma conta que o futebol brasileiro ainda não aprendeu a fechar.

A Ciência do Olhar: Dados x Intuição

Como dizia Monchi, mestre da detecção de talentos: “Dados dizem o que o jogador fez, mas o olho do captador diz o que ele pode vir a ser”.

A partir dos 15/16 anos o jogo muda. Entram os softwares, as transmissões, os dados e a análise de mercado quantitativa. É o terreno do “Moneyball” aplicado ao futebol. O problema é que muitos clubes seduzidos pela facilidade do dado pronto, preferem “comprar formado” do que “formar no detalhe”.

É a política da aposta estatística: investe-se em dez para que um pague a conta.

Mas será que esse é o caminho mais eficiente?

Historicamente, as vendas que mudam o patamar de um clube são quase sempre de jogadores formados na casa desde cedo. Se em vez de apostar em dez desconhecidos, sem qualquer DNA do clube, investíssemos na formação sólida e contínua, talvez tivéssemos maior retorno com a taxa de sucesso; é possível que essa taxa salte de 10% para algo em torno de 50%.

Acredito ser a diferença entre o garimpo de superfície e a mineração profunda.

Marcelo Xavier, referência na Análise de Desempenho e Mercado no Brasil, hoje no Cuiabá, diz:

“O processo atual requer uma capacidade multidisciplinar e integrada. Além da qualidade do jogo, perfil motor e fisiológico, comportamento dentro e fora de campo, aspectos sociais e estado de saúde, é necessário estimar a capacidade de desenvolvimento, o possível retorno esportivo e financeiro”.

O Mapa, a Metodologia e o Exército

Não importa o tamanho da camisa: captação sem metodologia é apenas turismo esportivo. O captador precisa saber o que procura, alinhado ao perfil por posição desejado pelo clube. O alinhamento entre quem olha na beira do campo e quem treina no CT é o que separa um clube organizado de um que apenas acumula atletas.

E sobre a estrutura dessa busca: precisamos de um exército espalhado pelo Brasil ou de inteligência concentrada? Talvez o segredo não seja ter um captador em cada esquina, mas sim fortalecer a rede no próprio estado criando parcerias sólidas (que podem também ser construídas em outros estados) e viagens estratégicas. O relacionamento ainda é a moeda mais forte do mercado.

A Ponte para o Profissional

A transição para o profissional é o funil mais cruel do esporte. Para que ela seja menos traumática, a captação precisa ser honesta e estratégica. O sucesso de um departamento de captação e mercado na base não pode ser medido pelo número de atletas captados, mas sim pela precisão do olhar.

Como diz Alexandre Falbo, Head de Mercado, já tendo trabalhado no Vasco e Corinthians e atualmente Gerente da Base do Paraná: “Captação descobre o talento; formação lapida; performance conta a história”.

Marcelo Xavier, diz também:

“A “largura da porta de entrada” é muito maior que a de saída. Nem todos chegarão ao profissional, mas todos devem ter formação adequada”.

No fim das contas, a reflexão que fica para gestores e torcedores de todos os calibres (dos clubes históricos aos emergentes) é: estamos apenas reagindo ao mercado ou estamos ditando o ritmo da nossa própria formação? A resposta definirá quem terá apenas um time de futebol e quem terá uma verdadeira “fábrica” de talentos, com identidade e alma.

Indicações de Leitura:

– A Prospecção do Talento no Futebol Brasileiro: Diagnóstico Estrutural e Financeiro do Processo de Captação de Atletas – Augusto Oliveira / Murilo Guimarães / Próspero Paoli

– Modernização da Gestão no Futebol Brasileiro / Perspectiva para a Qualificação do Rendimento Competitivo – Elio Carravetta

Na próxima coluna: Abordaremos a importância do caminho pedagógico na formação integral do atleta. Dentro desse contexto, refletiremos um pouco sobre a ansiedade dos pais durante esse processo. Não percam!

Links para as colunas anteriores:

– Por que formamos jogadores?

– Quem forma os jogadores? O capital humano como o verdadeiro craque da base. 1ª parte

– Quem forma os jogadores? O capital humano como o verdadeiro craque da base.  (2ª parte)

– Hipotecando o Futuro: Por que o Futebol Brasileiro Prefere Comprar o Mediano à Lapidar o Ouro?

– Formação de Talentos: O Debate que o Brasil Precisa

– Planejando o Gol: A comunicação como pilar estratégico no futebol

– Metodologia da Base: Onde o Futuro se Desenha

Texto de Carlos Brazil

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Um dos diferenciais do curso será a oportunidade de nossos alunos realizar estágio em um clube de futebol, onde terão a chance de analisar atletas, entender o funcionamento de um departamento na prática e ter uma primeira experiência na indústria do futebol, e assim, dar o pontapé inicial na carreira como analista de mercado no futebol.

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