
O futebol não serve para nada. Pense bem: não alimenta, não cura doenças, não resolve problemas matemáticos complexos. É, na sua essência, um jogo. E, no entanto, esse “nada” move bilhões. O Real Madrid acaba de quebrar a barreira de €1 bilhão em faturamento anual, enquanto o Flamengo, orgulhoso, ultrapassou R$1 bilhão. Números astronômicos para algo que, em tese, é supérfluo. Como explicar essa aparente contradição?
O argumento simplista é dizer que o futebol é apenas um resquício de um passado onde o esporte treinava para a guerra, ou que serve somente como ferramenta de propaganda política. Mas isso não basta. A economia do futebol cresce duas vezes mais rápido que a economia mundial. Algo mais fundamental está em jogo.
A verdade incômoda é que, embora não seja uma necessidade básica como comer ou beber, o futebol atende a uma demanda humana profunda: a de experiência. E, como os recordes de faturamento de Real e Flamengo escancaram, essa é uma demanda voraz, disposta a pagar valores cada vez mais altos.
Esse fenômeno se explica, em parte, pela compreensão do futebol como um protagonista na economia da atenção. Vivemos em um mundo saturado de estímulos, onde a capacidade de capturar e manter a atenção do público é um ativo valioso.
O futebol, com sua base global de fãs apaixonados e a capacidade de gerar narrativas emocionantes, é uma máquina de engajamento. Ele se insere na indústria do entretenimento, competindo diretamente com outras formas de lazer, como filmes, séries e videogames, por uma fatia do tempo e do dinheiro do consumidor. Nesse contexto, o crescimento exponencial do futebol reflete não apenas a popularidade do esporte, mas também o seu sucesso em se adaptar às demandas de uma sociedade hiperconectada e ávida por experiências intensas e compartilháveis.
Nesse cenário bilionário, surgem oportunidades de investimento tentadoras. Mas, para o investidor tradicional, acostumado a lidar com ativos tangíveis e mercados previsíveis, o futebol parece um terreno movediço. As objeções são muitas: a paixão que turva a razão, a falta de transparência histórica, a volatilidade dos resultados, os riscos de imagem. Como navegar nesse mar de incertezas e transformar o “nada” do futebol em algo palpável e rentável?
A resposta passa, invariavelmente, por transparência, profissionalização e dados. E aqui entra uma figura crucial e ainda subestimada que é a do scout, também chamado de analista. Longe do olheiro romântico do passado, o scout moderno é um especialista munido de ferramentas analíticas sofisticadas, um profissional que pode atuar em pelo menos duas frentes: a de desempenho e a de mercado.
Analise de Desempenho no Futebol
O analista de desempenho disseca a performance do time em campo, atuando com maior ênfase sobre aspectos qualitativos e coletivos do jogo. Ele transforma o jogo em uma série de momentos e sub-momentos, descrevendo os padrões, forças e fraquezas da própria equipe ou de um adversário.
Análise de Mercado no Futebol
Já o scout de mercado, além da observação qualitativa, costuma partir de uma análise quantitativa sobre métricas de passes, desarmes, finalizações, duelos, cruzamentos e demais fundamentos do jogo transformando o desempenho técnico, lúdico e abstrato em números, planilhas e gráficos criando uma radiografia precisa da entrega do jogador e projetando seu potencial futuro. Com isso, mergulha nos dados financeiros, estimando o valor presente e futuro do atleta, analisando tendências e o potencial retorno sobre o investimento.
Sem o parecer técnico desses profissionais, qualquer decisão sobre a compra, venda ou manutenção de um jogador se torna um tiro no escuro, um ato de fé travestido de gestão. Ignorar o scout é flertar com o amadorismo, é comprometer a credibilidade do clube perante investidores e patrocinadores. Afinal, manter ou contratar o jogador errado não é apenas um erro esportivo; é um erro financeiro que impacta diretamente as receitas, as despesas e, consequentemente, a imagem do clube.
E não é aí que vemos nossos dirigentes mais errarem a mão? Contratam medalhões que geram marketing mas não entregam em campo; se empolgam com atletas que performam muito bem num contexto mas ignoram completamente o modelo de jogo atual e a coesão do elenco; renovam com ídolos aumentando salários e impedindo a renovação ao mesmo tempo em que estrangulam as finanças. Quando vamos para as categorias de base, então! Um pesadelo de achismos e de decisão ultra estratégicas tomadas pelo puro feeling ou pela necessidade de agradar esse ou aquele amigo ou empresário.
E aqui cabe a provocação: como os jogadores do seu time são contratados? Qual o peso da opinião do dirigente, movido muitas vezes por impressões e palpites, em comparação com a análise fria e precisa do scout? E os jovens da base, verdadeiras joias brutas com potencial de retorno financeiro gigantesco, como são avaliados? Existe um processo estruturado, baseado em dados, para lapidar esses talentos e maximizar seu valor de mercado?
Para tornar o futebol um investimento atraente para o mercado tradicional, é preciso abandonar a improvisação e abraçar a gestão orientada por dados. Investir em equipes de scouting qualificadas, compostas por profissionais com o rigor metodológico para avaliar atletas em todas as etapas – da formação à venda – é fundamental.
Não basta mais se contentar com a análise qualitativa, com o “olhômetro”. Sem dados, não há gestão. Sem gestão, não há confiança. E sem confiança, os bilhões continuarão a fluir para longe dos investidores que ainda enxergam o futebol, reforçando estereótipos de potenciais investidores que insistem em dizer que futebol é um jogo que “não serve para nada”, ignorando o fato de que esse “nada” é, na verdade, uma mina de ouro ainda inexplorada por aqueles que não a entendem.
A era do amadorismo já não cabe mais. Ou melhor: a era do amadorismo custa muito caro no futebol. O futuro do futebol, e sua capacidade de atrair investimentos sérios, depende da profissionalização, da transparência e, acima de tudo, da valorização do dado como a bússola que guia o sucesso dentro e fora de campo. Já tem muito clube aproveitando. E o seu?
Texto de Filipe Calmon

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