
Foto: MAURO PIMENTEL / AFP
Análise de desempenho de Brasil 3×0 Haiti no Lincoln Financial Field trouxe os três pontos necessários para liderar o Grupo C, mas expôs oscilações importantes que merecem atenção minuciosa na nossa Seleção.
Os números frios refletem o controle territorial esperado, mas também denunciam a queda de ritmo na segunda etapa:
- Posse de Bola: 68% Brasil vs. 32% Haiti.
- Chutes do Brasil: 18 finalizações totais (9 no gol)
- 4 finalizações do Haiti (1 no gol)
- Faltas Cometidas: 11 do Brasil vs. 15 do Haiti.
- Desarmes Certos: 14 desarmes efetuados pela Seleção Brasileira
Os acertos da Seleção Brasileira
- 1º Gol (Matheus Cunha – 23′): Ativação de linha de fundo. Vinícius Júnior usou sua aceleração clássica pelo corredor esquerdo e disparou um chute cruzado. O goleiro espalmou e Matheus Cunha, bem posicionado como o “9 de área”, mostrou oportunismo no rebote.
- 2º Gol (Matheus Cunha – 36′): Transição vertical. Lucas Paquetá acionou Vini Jr., que partiu em velocidade. Com extrema visão de jogo, Vini enxergou a infiltração de Cunha, que recebeu em profundidade e soltou um chute forte de canhota sem chances de defesa.
- 3º Gol (Vinícius Júnior – 45’+3): Associação por dentro. Novamente a conexão Paquetá-Vini funcionou. Um lindo lançamento vertical rasgou a zaga haitiana. Vinícius Júnior saiu cara a cara com o goleiro e esbanjou frieza, dando um toque de categoria para fechar a conta.
Onde o Brasil Errou (Sinais de Alerta)
Apesar do placar elástico construído no primeiro tempo, o Brasil falhou em aspectos cruciais do seu modelo de jogo:
- Apatia e Desaceleração: No segundo tempo, a equipe abusou da lentidão na circulação de bola, aceitando a marcação e permitindo que o Haiti ganhasse metros no campo. Faltou ambição de buscar a goleada.
- Ansiedade e Impedimentos: O time pecou no tempo das corridas (timing de infiltração). Foram dois gols anulados por impedimento via tecnologia (Raphinha e Endrick) porque os atacantes atacaram o espaço antes da hora.
- Espaço no Bloco Médio: Em raros momentos de transição defensiva, o meio-campo demorou a recompor, deixando os zagueiros expostos a duelos de um contra um desnecessários contra um adversário frágil
Sistema Tático e Modelo de Jogo
Carlo Ancelotti montou o Brasil em seu habitual 4-3-3, que variava para um 4-4-2 sem a bola.
(Nota: Raphinha saiu lesionado para a entrada de Rayan ainda no 1º tempo).
- Modelo de Jogo: A equipe buscou a construção em saída de 3, recuando o lateral Danilo para liberar Douglas Santos na esquerda. O foco foi atrair a marcação por dentro com Paquetá e ativar as pontas. A grande virtude foi a agressividade pelos lados, mas o modelo ainda ressente-se de maior sustentação central quando o ritmo cai.
Análise Individual: Vinícius Júnior (O “Melhor em Campo”)
Vinícius Júnior é o coração ofensivo desta Seleção na ausência de Neymar. Ele participou diretamente de todos os lances de perigo. Demonstrou maturidade ao alternar jogadas de linha de fundo com passes por dentro (como na assistência para o segundo gol). Sua frieza para finalizar no terceiro gol confirma que ele assumiu o status de protagonista mundial em Copas.
Análise das Substituições e Estreias
Ancelotti usou a segunda etapa para gerir energia e testar peças:
- Estreia de Rayan: Essa substituição, ocorreu no primeiro tempo, devido a lesão de Raphinha. Mostrou personalidade, deu boa amplitude pelo lado direito e chegou a dar a assistência para o gol de Endrick (anulado por detalhe). É uma excelente alternativa de velocidade.
- Estreia de Endrick: Teve cerca de 30 minutos em campo substituindo Matheus Cunha. A torcida o empurrou, e ele mostrou faro de gol ao balançar as redes, embora estivesse ligeiramente impedido. Faltou o meio-campo alimentá-lo melhor no terço final.
- Outras trocas: Entradas de Gabriel Martinelli, Danilo Santos e Ederson ajudaram a dar oxigênio, mas o coletivo já estava em ritmo de treino.

Próximo Jogo: Brasil x Escócia (Quarta-Feira, 24/06)
Será um jogo físico e de alta imposição de contatos. A Escócia precisa do resultado para classificar e vai fechar o bloco baixo, explorando cruzamentos na área. O Brasil precisará girar a bola mais rápido do que fez contra o Haiti para abrir brechas.
Histórico de Confrontos em Copas do Mundo
O retrospecto em Mundiais é totalmente favorável ao Brasil, que nunca perdeu para os escoceses no torneio:
- 1974: Brasil 0 x 0 Escócia
- 1982: Brasil 4 x 1 Escócia
- 1990: Brasil 1 x 0 Escócia
- 1998: Brasil 2 x 1 Escócia
O Fator Neymar: O que Muda com a sua Volta?
Neymar vem se recuperando de uma lesão na panturrilha, e sua potencial volta muda completamente a engrenagem do time: Mesmo, talvez jogando apenas alguns minutos, o craque Brasileiro, deve ter poder de decisão para essa partida
- Atração de Marcação: A presença de Neymar centralizado como um “camisa 10” clássico, ou talvez um falso 9 força a Escócia a fechar o funil do meio-campo, liberando automaticamente os corredores laterais para Vinícius Júnior e Rayan/Martinelli mano a mano.
- Retenção e Cadência: O Brasil pecou na pressa e nos impedimentos contra o Haiti. Neymar dita o ritmo, esconde a bola quando necessário e sofre faltas, controlando o ímpeto físico escocês.
- Poder de Decisão: Historicamente, no último amistoso contra a Escócia, foi dele o protagonismo (marcou os dois gols da vitória por 2 a 0). Sua volta injeta liderança técnica e psicológica para o início do mata-mata.
Texto e análise de Julier Cordeiro




