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Este mês, iniciei um novo desafio como CEO no Boavista Sport Club SAF. Ao assumir esta responsabilidade, refleti sobre a dificuldade de torcedores (e até de alguns profissionais da área) em compreender as nomenclaturas e as atribuições de cada cargo em um departamento de futebol moderno. Esta coluna, “Planejando o Gol”, nasceu para demonstrar que, sem planejamento, o sucesso é mero acaso e, se ocorrer, tende a ser efêmero.

Todo bom planejamento começa por um organograma bem definido. Ele não precisa ser idêntico em todos os clubes, pois cada instituição tem sua história, suas necessidades e, principalmente, orçamento. No mundo corporativo tradicional, as funções costumam ser mais nítidas; no futebol, ainda vivemos uma zona cinzenta. Eu mesmo já transitei por diversas nomenclaturas: Diretor de Base, Gerente de Base, Gerente de Futebol, Executivo de Futebol e, agora, CEO. Por incrível que pareça, já cheguei a clubes onde a própria Direção não sabia exatamente o que esperar do profissional. Mas qual a real diferença entre eles?

A Hierarquia das Decisões

Para facilitar o entendimento, podemos dividir as funções em alguns pilares:

CEO (Chief Executive Officer): O topo da pirâmide. Não escala o time nem contrata sozinho; sua função é estratégica e institucional. Olha para o clube como uma empresa, zelando pela saúde financeira, marketing e pelo cumprimento do planejamento de longo prazo.

Vice-Presidente de Futebol ou Diretor de Futebol Estatutário: O elo entre a Presidência (ou donos da SAF) e o campo. Em clubes associativos, costuma ser um cargo político.

Executivo de Futebol: Em clubes associativos costuma se reportar a um VP de Futebol ou diretamente ao Presidente do clube ou CEO. Nas SAFs ou Clubes Empresa se reportam aos donos ou ao CEO. Esse papel é cada vez mais técnico, focado em diretrizes orçamentárias e metas esportivas. O “homem do mercado”. Responsável por montar o elenco dentro do orçamento, negociar contratos, gerir o vestiário no dia a dia e fazer a ponte entre a comissão técnica e a diretoria. É um cargo técnico que exige profunda gestão de pessoas.

Alguns clubes já utilizam também a função do Coordenador/Gerente/Diretor Técnico para um maior amparo na gestão do dia a dia de vestiário e campo.

Gerente de Futebol (alguns clubes preferem utilizar a nomenclatura de Gerente Administrativo de Futebol): Enquanto o Executivo olha para o mercado e para o futuro, o Gerente olha para o hoje. É uma função de planejamento tático e operacional; é uma função operacional e logística. Ele cuida para que a engrenagem funcione: viagens, infraestrutura do CT, integração entre os departamentos e o suporte diário aos atletas.

Pilares de Sustentação: A Estrutura Interdisciplinar de um Clube Moderno

Para além dos cargos de liderança executiva e das comissões técnicas (que hoje integram treinadores, múltiplos auxiliares, analistas de desempenho e especialistas em saúde e performance), o sucesso de um clube depende de subdepartamentos fundamentais que garantem o alinhamento de todos os processos internos. O modelo ideal pressupõe que cada uma dessas áreas seja liderada por um Coordenador ou Head de confiança da Diretoria Executiva:

Futebol de Base – Como destaquei em colunas anteriores, este é um dos pilares mais críticos. Sua gestão é complexa, muitas vezes envolvendo o dobro de profissionais em comparação à equipe principal, replicando quase toda a estrutura de departamentos para garantir a formação integral do atleta.

Análise de Mercado e Captação – Esse setor tem conquistado um protagonismo crescente. Seus profissionais são responsáveis por monitorar o mercado de forma analítica, identificando talentos que possam suprir as necessidades tanto das categorias de base quanto do elenco profissional, otimizando o investimento do clube.

Saúde & Performance – Trata-se, frequentemente, do maior departamento em volume de especialidades. Reúne um corpo interdisciplinar composto por médicos, preparadores físicos, fisioterapeutas, fisiologistas, nutricionistas, neurocientistas, biomédicos, psicólogos, coachs de performance, todos focados na maximização da disponibilidade e do rendimento dos atletas.

Jurídico – Responsável pela segurança legal da instituição, esse setor cuida da elaboração de contratos de trabalho e imagem, além de garantir a representação do clube em tribunais esportivos (STJD) e órgãos como FIFA e CNRD.

Financeiro – Atua no controle rigoroso do fluxo de caixa e no pagamento de obrigações. É fundamental para assegurar que o orçamento estipulado para o futebol seja respeitado, mitigando o risco de endividamentos irresponsáveis.

RH (Recursos Humanos) – Gerencia as relações de trabalho de todos os colaboradores (não apenas atletas), cuidando de processos de recrutamento, manutenção do clima organizacional e programas de desenvolvimento de competências.

Marketing/Comercial – Em um cenário onde a receita depende diretamente de patrocínios, planos de sócio torcedor e bilheteria , este tornou-se um dos setores vitais para a sustentabilidade financeira de um clube de futebol.

Comunicação – Na era das redes sociais e canais próprios (TVs dos clubes), a assessoria de imprensa e a comunicação estratégica tornaram-se imprescindíveis para gerir o relacionamento direto entre o clube e seus torcedores/cliente.

A Visão Sistêmica

Como se percebe, um clube de futebol é um sistema complexo que exige a atuação de inúmeros profissionais conectados de forma sistêmica. Para que essa engrenagem funcione, é mandatário que todos sejam guiados por um planejamento estratégico com objetivos e metas claras.

Mais do que nunca, o mercado exige profissionais competentes e extremamente qualificados. Sem clareza de funções e execução profissional, o organograma corre o risco de se tornar apenas uma “sopa de letrinhas”, gerando custos elevados sem o devido retorno efetivo em campo e nas finanças.

Quando cada profissional sabe exatamente onde começa e termina sua responsabilidade, o clube para de “apagar incêndios” e começa a pavimentar o caminho para a vitória. Afinal, o gol começa a ser marcado muito antes do apito inicial: ele começa dentro de uma sala com muito planejamento.

Na próxima coluna: Mergulharemos em um dos temas que vem sendo amplamente debatido e tem sido motivo de preocupação nos bastidores da base brasileira: O Mapa de Talentos.O que as pesquisas revelam sobre a descoberta de nossos craques. Não percam!

Indicações de Leitura:

– Gestão de Clubes de Futebol – Daniel M de Almeida – Foca na profissionalização da gestão e na importância da estrutura organizacional

– Leading – Alex Ferguson (com Michael Moritz) – Embora seja de um treinador, o livro foca quase inteiramente em liderança, delegação de tarefas e como estruturar um clube vencedor a longo prazo.

Links para a coluna Planejando o Gol:

– Por que formamos jogadores?

– Quem forma os jogadores? O capital humano como o verdadeiro craque da base. 1ª parte

– Quem forma os jogadores? O capital humano como o verdadeiro craque da base.  (2ª parte)

– Hipotecando o Futuro: Por que o Futebol Brasileiro Prefere Comprar o Mediano à Lapidar o Ouro?

– Formação de Talentos: O Debate que o Brasil Precisa

– Planejando o Gol: A comunicação como pilar estratégico no futebol

– Metodologia da Base: Onde o Futuro se Desenha

– O Garimpo e o DNA: O Dilema do Olhar no Futebol de Base

– O Currículo do Gramado: O Perigo da Educação Interrompida na Base

– A Transição Negligenciada: O Futebol Brasileiro Trocou o Processo pelo Placebo.

Texto de Carlos Brazil

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