Um recado aos analistas

Texto de Rodrigo Romano

Analisar uma partida de futebol é algo que muitos de nós fazemos. Na última década, este processo se tornou algo profissional. Primeiro na Europa, mais tarde na América do Sul, a área de análise de desempenho se desenvolveu. Hoje, é algo comum, com sites exclusivos sobre o assunto no Brasil e no mundo. A partir disso, surgiram alguns problemas. A qualidade da análise amadora começou a cair e muitas vezes os princípios básicos são esquecidos. O objetivo desse texto é ressaltar a análise, mostrando como o processo feito da forma correta pode gerar diversos benefícios para quem utilizar a mesma.

Nesta fase do futebol, muitos números passaram a fazer parte do noticiário. Posse de bola, finalizações, passes errados, entre outros. No entanto, isso são apenas dados brutos. É necessário que os números se transformem em informação concreta. A sequência disso é o conhecimento, seja sobre seu adversário, seu próprio time ou um jogador específico. O exemplo que vamos utilizar aqui para explicar como acontece esse desenvolvimento é o do Manchester City. Os números são referentes aos últimos dez jogos do clube na temporada 2018/19 e foram retirados da plataforma de dados InStat, parceira do Foot.Hub.

Os dados básicos seriam referentes ao número de chutes: 163 conclusões no total, média de 16,3 por jogo. O que podemos concluir com isso? Nada! É necessário abrir mais os dados para as coisas começarem a mudar. Foram 64 chutes no gol, 53 bloqueados e 46 ao lado. 39,2% das conclusões acertaram a meta, mostrando a eficiência do time de Guardiola. Para complementar, foram 23 gols nesses jogos, ou seja, 36% das vezes que a bola foi no gol, ela entrou. Apenas para contextualizar, o Flamengo, time com maior média de chutes por jogo no Brasileirão 2018 teve 14,5 conclusões por partida, com 36,5% das finalizações na direção do gol. Do total de vezes que a bola acertou no alvo, apenas 29,3% das vezes ela entrou.

Chutes no gol.
Chutes bloqueados.
Chutes ao lado do gol.

Como explicar o alto número de chegadas ao gol? Outros dois gráficos nos ajudam a seguir o raciocínio: o local dos chutes e o número de bolas perdidas/zonas onde ocorrem estas perdas. Mais da metade, 62%, dos chutes do time acontecem da última zona do campo. Além disso, foram 228 perdas na última zona do campo, conforme mostra a imagem abaixo. Todos esses dados mostram que a equipe de Guardiola costuma seguir com a bola até a parte final de campo, concluindo as jogadas o mais perto possível do gol. Mesmo que o lance não termine com o chute, é importante que a bola chegue até a zona final. A ideia desse comportamento é que o adversário precise cruzar todo o campo para chegar à meta defendida geralmente por Ederson. 

Bolas perdidas.

Outro fator importante da análise é que, o que vemos dentro de campo muitas vezes acaba nos traindo. Opiniões de imprensa, amigos e qualquer um que goste de futebol e converse conosco tem o mesmo efeito. Aqui o conhecimento adquirido se faz fundamental, quebrando os paradigmas passados pela sociedade. Vamos ao exemplo, utilizando atletas do Cruzeiro.

Segundo números do WhoScored, os meio campistas Jádson e Henrique da equipe celeste, possuem 91,8% e 91,7% de taxa de acerto de passe. Já o companheiro deles, Robinho, tem taxa de 81,2%. Você pode ficar com a impressão de que os erros do Robinho tornam um jogador pior. No entanto, você precisar analisar o contexto dos passes de cada jogador. Robinho tem uma média de passes chave de 4.1, enquanto os outros jogadores permanecem com 0.2 e 0.4, respectivamente. Isso significa que Robinho tenta, e acerta, passes de maior dificuldade. O jogador se torna mais decisivo nas partidas com um estilo de jogo como esse.

Esse conhecimento tem um passo seguinte: a mudança do que ocorre em campo. Não basta você identificar os dados, transformar em informação e conhecimento. Você precisa ter relevância para quem estiver recebendo o conteúdo. Auxiliar na formação de novas estratégias de acordo com a partida, ou de novos pensamentos quando o alvo são apenas pessoas que gostam de futebol. A análise será fundamental na construção de um futebol mais bem jogado aqui no Brasil. Entender seu funcionamento ajudará a quebrar alguns preconceitos e também contribuir para o desenvolvimento tático do esporte mais praticado no país.