Streaming no esporte: mercado dos Estados Unidos

Streaming no esporte: mercado dos Estados Unidos
Por Rodrigo Romano

Na parte inicial foram abordadas questões gerais envolvendo o streaming, como estatísticas e novas plataformas que entrarão nesta indústria. Agora chegou a hora de se aprofundar nos mercados existentes e, para começar, será detalhado como o serviço está presente nos esportes americanos. O estudo aborda as quatro ligas principais e a MLS, tratando os principais pontos de cada uma delas, como o NBA League Pass e o Youtube TV usando o soccer para se popularizar.

É hora de observar o mercado dos Estados Unidos.

Não leu a parte I?
Acesse aqui antes de seguir o texto.

Como dito anteriormente, os americanos estão mais dispostos a trocar a tradicional televisão paga pela transmissão via plataformas de streaming. O esporte nos Estados Unidos possui quatro grandes modalidades, e cada uma delas têm suas características próprias para enviar o conteúdo para os fãs. Além disso, os grandes canais de televisão a cabo possuem suas plataformas. O principal entrave para que a nova tecnologia comece a se expandir pelos principais esportes do mercado dos Estados Unidos é o fato de os direitos de transmissão das ligas estarem vendidos até o meio da próxima década. Isso impede principalmente a entrada com força de novos agentes no mercado, como Amazon e Facebook, abordados na parte I.

Um diferencial do mercado americano é a existência de pacotes de transmissão oferecidos pelos canais oficiais de streaming das ligas: NFL Game Pass, NBA League Pass, MLB.TV, NHL.TV e MLS Live. Estes contam com opções específicas para você acompanhar apenas os jogos do seu time, ou assistir a todos os jogos da temporada. A utilização desses ocorre principalmente para os torcedores que não moram na mesma cidade do time para qual eles torcem, e que por isso não recebem os jogos via canais locais. Além disso, as plataformas oferecem conteúdo on demand, relacionado com os bastidores, estatísticas e análises dos esportes.

A primeira grande liga a ser observada é a National Football League, NFL. Esta transformou há algum tempo seus principais horários de transmissão em verdadeiros eventos, cuja transmissão é vendida separadamente do restante da temporada. É o caso do Sunday Night Football e do Monday Night Football, jogos de domingo e segunda-feira à noite, respectivamente. O primeiro pertence a NBC e o segundo a ESPN, com ambos os acordos tendo iniciado em 2006. A NFL também vende seu pacote do restante dos jogos, que conta com partidas aos domingos à tarde, alguns jogos de quinta-feira à noite, além dos playoffs e do Super Bowl, a grande final do futebol americano. Tal pacote pertence a uma união de três grandes canais: CBS, Fox e NBC. Outro canal que transmite as partidas é o NFL Network, canal oficial de mídia da liga. Todos estes possuem suas próprias plataformas de streaming, que possibilitam acompanhar por meios diferentes da tradicional televisão, como smartphone e notebook. A NFL conta também com um pacote exclusivo para o torcedor que não reside na mesma cidade de sua equipe, o NFL Sunday Ticket, que pode ser visto nas plataformas digitais.

Apesar de ainda se manter nos canais pagos, a liga de futebol americano busca entrar aos poucos no mercado de streaming. A primeira transmissão foi em 2015, com o Yahoo mostrando uma partida realizada em Londres. Atualmente, a liga utiliza o streaming a partir do jogo de quinta-feira, o Thursday Night Football. As transmissões começaram na temporada de 2016, com o Twitter pagando 10 milhões de dólares para transmitir 10 partidas. Já para o ano de 2017 a Amazon substituiu a rede social e comprou os mesmos 10 jogos por 50 milhões de dólares. Para as próximas duas temporada, o contrato com a Amazon foi renovado , com um novo incremento nos valores. A empresa pagou US$ 65 milhões/ano para realizar a transmissão, mais de seis vezes mais do que foi pago na primeira negociação dos jogos de quinta à noite pela NFL. Essa iniciativa da NFL busca trazer ao fã uma maior interatividade durante o jogo e a rede social é o ambiente perfeito para isto. Além disso é uma alternativa para a queda de audiência que vem ocorrendo nas partidas nas últimas temporadas. A criação de conteúdo surge como complemento as transmissões e o Twitter já atua nesta área. Durante a última temporada foi feita uma cobertura oficial, com entrevistas com jogadores e técnicos, análises de comentaristas e conteúdo histórico, sempre buscando a interação com o público. Outra inovação já feita pela liga é o acordo com a Verizon, que possui os direitos de transmissão dos jogos via mobile. O pacote incluí inclusive o Super Bowl, a grande final do futebol americano.

NFL na Amazon: acordo de duas temporadas.

A NBA, liga de basquete, possui o mais consolidado serviço próprio de streaming, o NBA League Pass. Este mantem o sistema de vendas, com as opções de apenas acompanhar sua equipe, ou a temporada completa. O serviço atinge inclusive outros países, sendo um sucesso em todo o mundo e crescendo ano após ano. Mais recentemente foi lançado um pacote adicional de transmissão. Neste novo serviço, o assinante continua a receber as imagens das arenas durante os intervalos, acompanhando o que é realizado no ginásio, como a câmera do beijo, promoções com os torcedores e ações no intervalo do jogo. O objetivo desta inciativa é passar a sensação de estar presente, envolvido no jogo, para o espectador que está em casa. Com relação as plataformas recém surgidas, a NBA está presente tanto na ESPN Plus quanto no Youtube TV, após o acordo deste com a Turner. Já através do Hulu, outra plataforma que entrou a pouco no mercado esportivo, será produzido conteúdo para valorização da marca, em uma parceria com a TNT, canal que pertence ao grupo Turner.

Agora é a vez do campeonato de baseball, a MLB. É mais uma liga que possui forte ligação com os canais a cabo, mas que aos poucos entra no mercado de streaming. A iniciativa começou ainda em 2015, com um acordo de três anos com a FOX para transmissão de partidas para pequenos mercados. No entanto, teria acesso ao conteúdo nas novas plataformas apenas aqueles que fossem assinantes do canal na televisão a cabo. O mesmo problema aconteceu em relação a transmissão dos playoffs da temporada 2017, a fase final do campeonato, e o MLB.TV, o canal oficial da liga. Somente algumas partidas eram liberadas, enquanto para outras era necessário possuir um serviço de televisão a cabo para ter o acesso.

MLB no Facebook.

Apesar destes casos, a MLB chega para 2018 com um acordo com o Facebook pelo segundo ano consecutivo. Em 2017 a rede social transmitiu algumas partidas, mas canais regionais também poderiam mostrar a mesma partida, concorrendo diretamente com a empresa. Para a temporada atual, houve uma mudança neste acordo, com 25 partidas transmitidas de forma exclusiva pelo Facebook Watch, em um negócio especulado em 30 milhões de dólares. Esta é mais uma iniciativa que busca trazer interatividade e uma nova experiência para as partidas. As primeiras transmissões receberam algumas críticas, graças a montagem da tela, com placar e estatísticas (imagem acima), que atrapalham quem olha o jogo em telas menores como de um smartphone. Esta estratégia busca atingir principalmente o público jovem, que não demonstra tanto interesse na modalidade. Além desta iniciativa, a MLB está inclusa entre os serviços do Youtube TV, plataforma recém lançada do Google. Na temporada 2017 já houve uma parceria com a plataforma para a World Series, a final do campeonato. Para esta temporada, o canal de conteúdo diário da liga de Baseball, MLB Network será hospedado no Youtube TV, mantendo a busca por um público mais jovem.

Para finalizar as quatro ligas tradicionais, a National Hockey League, NHL. O primeiro acordo da liga com plataformas de streaming foi com a Fox, em 2016, para atingir alguns mercados regionais. Foi algo semelhante ao que aconteceu com a MLB, também sendo necessário assinar o canal de televisão para acessar a nova tecnologia. O principal acordo envolvendo o hóquei foi com o Hulu, que além de transmitir as partidas, patrocina os playoffs e a grande final da temporada 2018. É mais um canal que percebe no esporte uma oportunidade de alavancar seu negócio e atrair novos consumidores. Além disso, a liga de hóquei é mais uma incluída entre os campeonatos oferecidos pela ESPN Plus.

A MLS, liga de soccer, o futebol tradicional, está em busca de se juntar as outras potências da indústria americana. Assim como as demais ligas, a MLS possui seu serviço próprio de streaming, o MLS Live, onde o torcedor compra o pacote para a temporada inteira. Para o campeonato que se iniciou no final de fevereiro, houve uma mudança no sistema, com o MLS Live se transferindo para o ESPN Plus, plataforma recém-criada. Já o YouTube TV usa o campeonato para conquistar sua base de consumidores. A primeira ação foi o acerto com o Los Angeles FC, time que estreia na MLS nesta temporada, para patrocínio máster no uniforme da equipe. Além disso, será a plataforma oficial de transmissão do clube, com 18 jogos passando de maneira exclusiva para Los Angeles, que também receberá programas antes e depois das partidas. Esta iniciativa de transmissão também acontece em Seattle, com o Seattle Sounders. Neste caso, são 20 partidas transmitidas apenas para o mercado local. Mais recentemente foi a vez do Orlando City anunciar acordo com o YouTube TV para a transmissão de 18 jogos, além de ações antes e depois das partidas. A MLS, que vem crescendo cada vez mais, é uma ótima oportunidade tanto para ESPN quanto para Google desenvolverem suas plataformas.

Chegando ao final desta segunda parte, foram vistos que existem alguns acordos menores para transmissão via streaming. As ligas estão atentas a este mercado, principalmente pelo fato que as transmissões atingem um público novo e a audiência dos principais esportes já vinha caindo. É a partir destas novas tecnologias que o público deve ser renovado. Na próxima década, com o final dos grandes contratos de transmissão, espera-se um movimento natural com o streaming servido de base para os novos acordos. Para a parte três, a série viaja até o continente europeu e destrincha as principais ligas, Espanha, Itália, Inglaterra e Alemanha, além da competição de clubes mais importante do mundo, a UEFA Champions League.

Texto original de .