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Foto: Ricardo Duarte/SC Internacional

Nas colunas anteriores, debatemos a importância do capital humano no futebol de base. Hoje, vamos desmistificar uma frase onipresente no meio: “base não é custo, é investimento”. Embora correta, prefiro uma definição mais estratégica: a base deve ser um centro de lucro e sustentabilidade.

Muitos clubes ainda enxergam a base como gasto, acreditando que uma venda milionária a cada cinco anos “paga” a conta. Na verdade, um trabalho bem-feito garante que essa venda seja lucro líquido, enquanto a operação cotidiana se autossustenta.

O Valor da Raiz vs O Custo do Atalho

Há diversos modelos administrativos de clubes no Brasil, cada qual com seu objetivo na formação. Um clube, cujo objetivo é apenas formar e lucrar através das grandes marcas do futebol, não entram em parte desse contexto colocado abaixo.

No futebol brasileiro, a pressa é inimiga da conta bancária. Enquanto clubes europeus refinam a captação precoce, por aqui muitos preferem o “balcão de negócios” ao “canteiro de obras”.

Contratar jovens é válido em casos de oportunidade de mercado ou carência específica, mas a matemática é implacável: quem não forma com qualidade paga caro para ser mediano.

O DNA se cultiva: O atleta que chega ao clube entre 6 e 10 anos desenvolve memória muscular e afetiva, absorvendo o estilo de jogo e o peso da camisa por osmose; entende o que a torcida exige antes mesmo de estrear. É nessa fase que o atleta desenvolve o “senso de pertencimento”. Ele não apenas aprende fundamentos; ele aprende o que significa representar time e torcida. O clube está “imprimindo” seu DNA no atleta.

–  O Risco da Aposta Tardia: Captar atletas a partir dos 13 anos exige “desconstruir” vícios formativos, e o tempo é menor. Já contratações entre 16 e 20 anos podem ser consideradas de alto risco: paga-se caro por um “produto” que pode não se adaptar ao DNA da casa ou sentir a transição para o profissional.

É nesse contexto que temos um dilema entre “comprar pronto” (curto prazo/alto risco) ou “lapidar em casa” (longo prazo/ alto retorno).

A Armadilha do “Jogador de Composição

A maior drenagem financeira ocorre no profissional, ao gastar fortunas com jogadores medianos para “compor elenco”. Muitas vezes, o custo de um atleta de 28 anos, com teto técnico limitado e salário alto, poderia estar financiando a logística de captação de centenas de crianças, pagar grandes melhorias no CT ou melhores salários para o staff.

Cada jogador contratado retira o espaço de um jovem que poderia estar ganhando minutagem e valorizando o ativo do clube.

Contratação de Jogadores na Base

Contratar 10 (dez) atletas de base por R$1 milhão cada,  e  vender 1 (um) por US$10 milhões, é, matematicamente, um bom negócio. Mas a provocação estratégica é outra: se esse mesmo montante fosse investido na captação precoce de talentos para formá-los com o DNA da casa, a probabilidade de sucesso não seria cinco vezes maior? A história confirma: mais de 90% das maiores vendas dos grandes clubes brasileiros são de jogadores lapidados no próprio clube desde a infância.       

Comparativo Estratégico: Formar x Comprar

AspectoFormar em CasaComprar Pronto
Custo InicialBaixoAlto
IdentidadeTotalmente integradaAdaptação incerta
Retorno (ROI)Quase integral na vendaDividido por percentuais
RiscoDiluído ao longo dos anosConcentrado no ato da compra

Nem coloco nesse comparativo o valor salarial e o potencial de venda.

O futebol de base só prospera com planejamento a longo prazo, mas esbarra no imediatismo da gestão. Quando Presidentes e Executivos focam apenas em seus mandatos ou até na venda do clube, o investimento na base é negligenciado ou realizado de forma imediatista. O retorno de um jovem que chega aos 10 anos raramente ocorre na mesma gestão que o acolheu (isso vale também para o Executivo da Base e seu staff); sem desprendimento político e/ou visão de futuro, o planejamento de médio e longo prazo simplesmente não acontece.

A Conta que Ninguém Faz: A Economia Real

A base se paga anualmente através da economia de folha salarial.

Considere o raciocínio:

– Um elenco profissional conta com cerca de 28 a 36 atletas;

– Um jogador contratado pode custar, em média, dependendo do clube e nível de orçamento, entre R$200mil/mês e R$600mil/mês (considerando contratação, salários, encargos, luvas, comissões);

– Um jovem promovido da base custa em torno de R$10mil/mês a R$20mil/mês.

Se o clube tiver em torno de 20% do elenco vindo da base (cerca de 6 a 7 atletas), a economia gira em torno de R$21 milhões por ano.

Esse valor já paga o custo operacional da maioria das bases no Brasil. Assim, vendas como a de Estevão ou Vinicius Jr. não servem para “tapar buraco”, mas sim para gerar lucro real.

Hipotecando o Futuro

O futebol brasileiro viciou-se no paliativo. Gastamos milhões para “compor elenco” com atletas que entregam o básico, enquanto negligenciamos a estrutura que molda o excepcional. Formar dá trabalho, exige investimento, logística e paciência. Cada vez que um clube deixa de investir na base para contratar um jogador mediano “pronto”, ele está hipotecando o próprio futuro.

Como já bem colocou meu amigo Euler Victor, a base precisa ser entendida sob a lógica de portfólio; o sucesso de alguns casos paga todo o projeto e gera o ROI esperado.

A pergunta final não é quanto custa formar, mas quanto o seu clube perde por não saber lapidar o ouro que já tem em casa.

Na próxima coluna: Abordaremos a decisão da CBF de criar um “Grupo de Trabalho para Melhoria nas Categorias de Base do Brasil”. Não percam!

Texto de Carlos Brazil

Links para as colunas anteriores:

– Por que formamos jogadores?

– Quem forma os jogadores? O capital humano como o verdadeiro craque da base. 1ª parte

Quem forma os jogadores? O capital humano como o verdadeiro craque da base. 2ª parte

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