mulher com bola de futebol
mulher com bola de futebol

Recolhendo meus butiás

As mulheres tomaram conta. É fato, ponto sem vírgula. Na Casa Branca, nos Estados Unidos, estão a um passo de assumir o mais alto poder, afinal Kamala Harris assume hoje como vice-presidente americana. No jornalismo esportivo nunca foram tantas vozes femininas a contribuir com conteúdo para o meio. Nas comissões técnicas do futebol, no entanto, elas ainda estão em pequeno número. Geralmente o cargo de nutricionista é quem comporta uma profissional do sexo oposto ao da maioria. Na comunicação dos clubes há vários exemplos já em cargos de liderança, mas poucos ainda são os casos de assessoras do departamento de futebol. E é nesse ponto que queremos conversar a respeito. Se o coração de um time de futebol é seu vestiário, pode, deve, precisa a mulher estar ali presente?

Não é o autor desse texto quem irá responder essas perguntas, não sou bobo (mas já fui). Ao contrário, a ideia aqui é levantar hipóteses e versões. Por isso quis ouvir colegas jornalistas de diferentes gerações, com diferentes experiências para saber delas o que pensam sobre si, que visão têm de suas presenças no mundo da bola e mais: como se sentem, que é o que mais importa, pois onde podiam chegar não restam dúvidas. Chegam e trabalham onde querem. O texto está longe do fim, mas já fica meus parabéns a vocês, gurias. Eis aqui alguém que conheceu e conviveu com muitas profissionais que cavaram espaço merecidamente e que muito me ajudam até hoje a descontruir meu preconceito.

Caíram meus butiás

Não faz tanto tempo assim. Poucos anos atrás em uma sala de aula de uma faculdade em Porto Alegre, uma jovem aluna me fez dois questionamentos inéditos até então para mim que algumas vezes havia compartilhado experiências do meu trabalho de assessor de imprensa no Grêmio, onde trabalhei de 2010 a 2020. As questões foram sobre a ausência de estagiários no departamento de comunicação do futebol do clube e a pequena presença de mulheres nas assessorias de imprensa nos principais times do Brasil.

Nós gaúchos usamos uma expressão quando deparados diante de situações pra lá de inesperadas geralmente antecedidas da interjeição bah: “Bah, essa me caiu os butiás do bolso”, algo que entendo o sentido sem nunca ter pesquisado a origem. Mesmo pego desprevenido, não fugi das respostas. Sobre os estagiários que colaboram e muito em outras áreas de um vestiário, principalmente na fisioterapia e fisiologia, respondi com maior segurança. Ao contrário deles que, ainda com pouca experiência, precisam assimilar rapidamente a necessidade de preservar as informações que tomam conhecimento no ambiente interno, jamais são obrigados a dar satisfações de suas ações para dirigentes, treinadores ou imprensa, práticas diárias de um assessor de imprensa.

Por isso, sustento que a experiência – melhor ainda com passagem em redações de veículos – é fundamental para o cargo onde as paredes e telhados são de vidraça. Decisões tomadas na comunicação ganham a esfera pública e em time grande trazem consequências diárias.  Uma crise na sala do DM pode ser enorme, mas privada. Uma crise na comunicação pode ser pequena, mas se sair dos muros, faz estardalhaço. Transitar pela sala do roupeiro, treinador e presidente requer respeito e maturidade com o que nos deparamos nesses diferentes locais. A mesma segurança em afirmar tudo isso, não tive, no entanto, ao responder à segunda pergunta.

Argumentei de largada – em uma nítida estratégia defensivista – que eu não me imaginava fazer o que fazia em um ambiente que fosse repleto de mulheres em suas intimidades. “Eu não veria problema em fazer o que tu dizes fazer se estivesse cercada de homens” emendou a futura jornalista me derrubando mais alguns butiás. O fato é que de lá para cá passo por um processo de desconstrução desse tipo de cenário e não preciso ser muito atento para perceber que as mulheres estão cada vez mais seguras. O vestiário, então, talvez seja a próxima porta a ser aberta. Embora não precise ser adentrada, conforme relatos que colhi de colegas de função.

Não existe a necessidade do assessor circular dentro do vestiário onde os atletas têm a privacidade deles. Eu apenas não entrava em intervalo ou nos finais das partidas. Momentos em que realmente eles ficam bem à vontade. Mas quando precisava organizar algo como uma coletiva, orientava em uma antessala com quem iria falar. Nunca tive problema com ninguém, transitei em todas as áreas. É só saber se posicionar e saber o momento de atuar

Thaís Freitas, assessora do Goiás de 2018 a 2020.

Os centros de treinamentos hoje em dia são equipamentos em que o vestiário é apenas uma de suas repartições. Sendo assim, as assessorias geralmente possuem, assim como qualquer outra pasta, uma sala reservada para desenvolver suas tarefas. Por maior trânsito que tenha – e eu acho que é bom para o profissional conhecer as peculiaridades de cada setor para entender o todo – o assessor de imprensa busca adaptações para sua rotina sem que atrapalhe o jogador ou treinador e sem também criar dificuldades para sua própria gestão. 

Não faz parte do meu trabalho circular no vestiário e isso não me atrapalha em nada. Qualquer coisa que eu precise com algum atleta, sempre tenho contato antes das entrevistas via celular. Para mim é tranquilo. Se for algo urgente, peço para os meninos da TV me ajudar a fazer o contato

Allana Alves, coordenadora da assessoria do Fortaleza há dois anos

Cresci nos anos 1980 e 1990 quando eram pouquíssimas as figuras femininas na imprensa. A televisão foi o veículo que primeiro as recebeu. Nomes como Isabela Scalabrini, Mylena Ceribelli, Simone Mello, Silvia Vinhas e Glenda Kozlowski são uma espécie de abre alas. Depois vieram Renata Fan, Eduarda Streb, Débora de Oliveira, Fernanda Gentil, Taynah Espinoza, Ana Thaís Mattos, Renata Mendonça, Natália Gedra e Renata de Medeiros, entre tantos outros talentos que invadiram com força e competência não só a telinha, mas o rádio, o jornal, a internet e…”onde a mulher quiser”. Em um depoimento antigo, Glenda recorda algumas barreiras que hoje não existem mais, fruto também da organização das atividades ligadas à imprensa em coberturas esportivas e das próprias instituições.

Todos os repórteres entravam no vestiário. Eu tinha que entrar e entrei várias vezes sozinha. Já passei por muito constrangimento, jogadores completamente nus desfilando, e de propósito. É quando você deixa sair o lado masculino. Você tem que dar uma de homem, olhar para a cara e exigir respeito. Eu estava ali para uma entrevista. Foca nos olhos do entrevistado e não enxerga mais nada.


Glenda Kozlowski

Uma nova geração já colhe os frutos de quem abriu os caminhos para a mulherada. Ex-repórter dos canais FOX e hoje residente em Portugal onde cursa mestrado em comunicação, Caroline Patatt enxerga uma perspectiva mais ampla sobre o tema.

“Os dirigentes deveriam estar preparados para dar suporte para a mulher exercer a função de assessora e estabelecer os devidos limites com todos na base do profissionalismo e do respeito. Cabe também á profissional escolhida deixar bem separado o limite do pessoal e do profissional para evitar qualquer tipo de constrangimento em um ambiente tão masculino”.

O futebol alça da noite para o dia pessoas incapacitadas a cargos poderosos e a questão do poder incorre em comportamentos tóxicos. Jornalista vive de informação e quem as têm pode fazer o que quiser com elas. Várias vezes quem condena vazamentos de notícias e as consequências que elas trazem para as instituições são justamente quem deveriam preservá-las. No entanto, nem todo mundo sabe o que fazer com aquilo que sabe. Principalmente se o cargo que ocupa tem visibilidade.  Embora estejam cada vez mais fortes, as mulheres ainda sofrem diante de cenários onde são minoria.

“Partindo do ponto de vista feminino, acho que não teria problema. Porém isso não é recíproco, porque o machismo é estrutural e ainda se mostra evidente em determinados meios, como o do futebol”, argumenta Daniele Lentz, gerente de comunicação do Grêmio desde 2013, que incentiva as mulheres a não se deixarem levar pelas dificuldades pois, assim como no jornalismo esportivo, a assessoria de imprensa no futebol é um terreno onde elas também estão aos poucos entrando: “Com certeza. É um caminho ainda a ser explorado e aproveitado. Oportunidades existem, mas não são ainda oferecidas prioritariamente para as mulheres. ”

Em outros esportes as assessoras chegaram antes que no futebol. Se aos poucos as meninas estão entrando no gramado da bola, as quadras, ginásios e pistas fazem parte do currículo dessas profissionais em locais sem predominância masculina. O futebol é o esporte em que a paixão por um clube está presente de forma visceral o que não ocorre nas demais modalidade. E por ser o único esporte de massa, proporciona comportamentos coletivos que potencializam atitudes cada vez menos aceitas na sociedade.

Com experiência de trabalhar na natação com o campeão olímpico César Cielo durante uma década, no vôlei com o monstro Bernardinho outros quatro anos e atualmente ao lado do também campeão olímpico Arthur Zanetti, além estar à frente da Confederação Brasileira de Atletismo, a jornalista Heleni Felippe contribui para a reflexão aqui proposta.

“Já fiz jogo da NBA em que os jogadores ficavam na frente do seu armário dando entrevista, mas acho que vestiário é local reservado para atletas. Jornalista tem outras áreas de atuação que são mais adequadas. (…) Na natação os nadadores trocam de calção usando toalha em público e circulam sem roupa apenas de sunga. Sempre respeitei isso e eles também sempre me respeitaram. Já entrei em vestiário de ginástica também, mas não sinto necessidade de entrar nesse local. Isso se normalizou e vestiário é local para atletas. ”  

Heleni Felippe

Experiente também como a colega, Claudia Coutinho é outra profissional de reconhecido trabalho em assessoria nos períodos em que não trabalhou em redação. Ao lado do time de vôlei da Frangosul na década de 1990 e até hoje militando no mundo do tênis, mostra veemência no discurso que serve de motivação para quem quer trilhar a carreira na assessoria.

“A mulher tem todas as condições de trabalhar onde ela quiser, mesmo que seja um ambiente masculino (e mesmo machista). Cabe à mulher se impor a partir de sua capacidade e experiência profissional. E jamais se intimidar com situações que a coloquem em situação de inferioridade ou até mesmo preconceituosa (e que não são poucas).

Laura Zago, assessora das Seleções de Futebol Feminino da CBF encerra essa pequena contribuição com o tema das mulheres em assessorias: “Hoje ainda é uma surpresa encontrar mulheres na assessoria de equipes masculinas. O contrário é muito comum quando falamos de assessorias de times femininos, há muitos homens fazendo bons trabalhos. Há ainda muitas barreiras que precisam ser quebradas.

Gerir a comunicação interna de um departamento de futebol talvez seja o próximo desafio feminino. É questão de oportunidade e não capacidade. Enquanto elas não aparecem, seguirei catando as frutas nos pés das butiazeiras. No bolso, me restam ainda algumas.

Texto de João Paulo Fontoura.

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