Por que Coutinho não está rendendo no Barcelona?

Por que Coutinho não está rendendo no Barcelona?
Por Leo Urnauer

Quando desembolsou cerca de 135 milhões de euros para tirar Philippe Coutinho do Liverpool, o Barcelona enxergava no brasileiro o jogador ideal para sanar dois problemas de uma só vez: preencher a lacuna deixada por Neymar como um dos super astros do time e suceder Iniesta no papel de criação e controle de ações no meio campo.

A realidade, porém após um ano de Barça, é que o brasileiro não conseguiu cumprir nem um papel, nem o outro. Inquestionavelmente, é um dos mais talentosos jogadores do mundo. Mas ainda não atingiu o protagonismo e o potencial que se esperava. Em 34 jogos na atual temporada, marcou 8 gols e deu 3 assistências com a camisa culé. Pouco para quem figura como a maior contratação da história do clube. É curioso o relato de que Klopp o advertiu em maio de 2017 a não deixar o Liverpool. “Saia e lá você será só mais um. Aqui você pode ser algo mais”.  De fato, hoje, Coutinho é só mais um no Barça.

Procurando refletir sobre os porquês do ostracismo do brasileiro, conversei com analistas táticos, jornalistas e torcedores do clube catalão. Todos concordam que a principal razão das dificuldades de Coutinho no momento se deve a uma sequência ruim que abalou o psicológico e a confiança do atleta. Por outro lado, apontam ajustes táticos, explicam o contexto atual do jogador no Barça e sugerem pontos de melhoria como parte das soluções para que ele supere a má fase.

Meia ou ponta: em que posição Coutinho desequilibra?

Em abril do ano passado, o El País Brasil publicou a reportagem “O dia em que Klopp descartou Coutinho e fez o Liverpool deslanchar”. O texto conta como o brasileiro, mesmo como principal astro do time, se tornou dispensável após as análises das principais potencialidades do elenco.

O treinador alemão concluiu que o melhor esquema para o time era o 4-3-3 e que nele Coutinho só poderia jogar na ponta, nunca no meio. A razão é que o camisa 10 carecia de capacidades físicas e comportamentos defensivos para atuar em grandes faixas do campo em um modelo de jogo de alta intensidade e focado em transições. O brasileiro seria escalado aberto na esquerda como um atacante terminal, potencializando a sua criatividade e finalização.

A reportagem também relata uma anedota curiosa da reação de Klopp quando soube que a intenção do Barça ao contratar Coutinho era fazê-lo o substituto de Iniesta. Teria dito o treinador que “Coutinho é um fabuloso atacante, mas nunca se sentirá confortável no 4-3-3 atuando por dentro; e muito menos se tiver que jogar no posto de Iniesta no 4-4-2 que Valverde pratica na fase defensiva, no qual os deslocamentos mais longos devem ser feitos pelos alas. Iniesta é um organizador. Coutinho não”. Claro, que a análise de Klopp é sobre o contexto do camisa 10 no Liverpool. Mas elucida quais são as principais virtudes e dificuldades do brasileiro em atuar como meia.

O analista tático e colaborador do Footure, António Duarte também nos ajuda nessa reflexão, explicando algumas diferentes características ofensivas de Coutinho se comparado com Iniesta. “Para mim, ele não é, propriamente, um jogador criativo. Eu gosto mais de o apelidar de desequilibrador, porque onde ele realmente marca diferenças são nos últimos 30 metros através da meia-distância ou último passe. Como interior, não é um jogador de pausa. É em cenários de velocidade e agressividade que ele desequilibra”, aponta.

A solução para o problema parecia ser simples. Se Coutinho é melhor como ponta, que seja escalado nessa posição. No entanto, também não está conseguindo oferecer o que o time precisa quando joga como extremo. Ele não detém o ritmo para bater o homem final através da velocidade e atacar o espaço livre atrás da defesa, infiltrando e recebendo passes de Messi, como fazem Dembélé e Alba. “Ele não é nem um extremo nem um meio-campista interior. Sua melhor posição está logo atrás do atacante, como meia-atacante. O problema é que essa posição já é tomada por Leo, que significa que ele terá que se adaptar”, opina Chris Darwen, do portal Barcelona Analysis.

O contexto no Barça e a falta de confiança

Ernesto Valverde começou o ano justamente com Coutinho como meia num esquema 4-3-3 para acomodar o trío ofensivo Messi, Suárez e Dembélé. Porém, o Barça sofreu atrás: Busquets e Rakitic já não possuem as mesmas capacidades físicas para realizar as compensações necessárias; Alba e Sergi Roberto atacam os corredores deixando o time exposto em transições; além de Messi que pouco contribui para a equipe sem a bola.

Como Klopp já alertava, seria complicado exigir de Coutinho grandes esforços defensivos nessa formação. “O time estava um pouco torto. Mas o Valverde conseguiu compreender que seria Coutinho ou Dembélé. E nessa época o Dembélé começou a voar muito”, relembra Raniery Medeiros, torcedor culé e colaborador do Canal Barça.

Talvez, se Valverde tivesse à disposição jogadores que pudessem equilibrar e fazer o “trabalho sujo” de forma mais efetiva, escalaria o quarteto com mais frequência. Não é uma tendência no momento. O desafio de Coutinho era ajustar-se. Mas a pressão por desempenho em situação adversa, uma lesão e uma sequência de maus jogos derrubaram a confiança do brasileiro. Esse aspecto psicológico tem afetado todo o resto na opinião dos analistas. Para ajudar a recuperar a auto estima que Messi o deixou bater o pênalti decisivo contra o Sevilla no segundo jogo das quartas de final da Copa do Rei.

Coutinho sofre também em tomar as decisões corretas para a equipe. Em um contexto que o Barça carece de velocidade em alguns momentos, espera-se do brasileiro a cadência e aceleração de ritmo, principalmente na ausência de Messi. “Coutinho começa por dentro, ele pega essa bola de costas, mas não rompe muito as linhas através do drible como Iniesta tinha. Ele retém muito bola. Ele não dá o tapa de primeira. E isso o prejudica muito”, aponta Medeiros.

Acreditar no potencial e buscar o jogo associativo

Coutinho tem o drible curto, a criatividade, o poder de finalização, a qualidade de passe e o entendimento necessário dos movimentos de seus companheiros. É um jogador com o DNA do Barcelona. Fica claro que a questão do seu desempenho não está ligada à capacidade e ao talento, mas sim à retomada da confiança e alguns ajustes táticos dele e da equipe. O principal é o brasileiro acreditar e entender que suas qualidades transcendem a de um jogador apenas terminal.

Para isso, buscar associações e triangulações em pequenos espaços como na Seleção Brasileira, pode ser um dos caminhos para fazer a diferença. Seus melhores momentos no Barça foram através de tabelas por dentro e combinações curtas. Gabriel Corrêa, repórter do Grupo Bandeirantes e colaborador do Footure, pensa que a autoconfiança pode inclusive definir a carreira do brasileiro em tamanho. “Ele tem muito mais capacidade do que pensa. Não pode em todos momentos cortar para dentro e bater porque o Messi vem muito para o meio. E eles vão se bater toda a hora. Ele tem que saber as horas de controlar esse instinto. Ele é muito mais completo e não só assistência e gol”, opina.

Com a lesão de Arthur e a volta de Dembélé ao time titular, Coutinho talvez inicie as próximas partidas no banco de reservas. Será um período importante para o brasileiro, ainda mais porque provavelmente terá mais espaço no tripé de meio campo, onde rende menos. Seu futuro no Barça, será definido a partir do sucesso dessa adaptação e da melhora em outras fases do jogo, como opina, Chris Darwen. “Ele não é bom defensivamente, mas isso pode ser resolvido com outros dois jogadores com perfis defensivos. Por outro lado, claro que se ele quiser jogar como meia, terá que trabalhar com mais intensidade e melhorar suas contribuições quando o time está sem a bola. Isso poderia ser a sua chance de brilhar e mostrar a qualidade que todos nós sabemos que ele tem à disposição”.