Paixão e Gestão: uma noite de conexão do clube com o torcedor

A noite de sexta-feira (22) foi de troca de experiências no Foot.Hub. Cerca de trinta pessoas presenciaram a apresentação de Thiago Floriano, Supervisor do Departamento do Torcedor Gremista, sobre o modelo de gestão aplicado ao clube gaúcho para atingir o atual sucesso na relação entre direção e torcida.

Thiago dividiu sua apresentação em quatro momentos. No primeiro deles, contou sobre sua relação com o Grêmio, até alcançar o cargo atual no DTG. Seu primeiro vínculo veio através dos consulados do interior do estado, onde Thiago auxiliava na organização das viagens para os jogos do clube no estádio Olímpico. O passo seguinte foi se interessar pela política do clube, importante setor para que se entenda melhor o contexto do clube.

Em fevereiro de 2014, após uma confusão envolvendo a torcida do Grêmio em uma partida contra o Juventude na serra gaúcha, surgiu a ideia de criar o Departamento do Torcedor Gremista. No passado, existiu no clube o Departamento Eurico Lara, que era voltado mais para as torcidas organizadas. A nova iniciativa atingiria todos os torcedores, além de estar inserida em um diferente contexto do futebol brasileiro, com a inauguração das novas arenas. Teria um viés de relacionamento, não de segurança, como definiu Thiago.

O projeto foi aberto para todos os conselheiros ajudarem, sem que existisse um dono da causa. Naquele mesmo ano houveram eleições para presidência do clube, e o DTG foi apresentado para todos os candidatos. “Era um projeto de Estado, não de governo”.

Após a vitória de Romildo Bolzan, as tratativas seguiram, com o lançamento oficial feito em 27 de novembro de 2015. O ano seguinte foi de experiências e somente em 2017 veio a afirmação do órgão, que hoje conta com estrutura profissional, planejamento e objetivos claros a serem cumpridos. O próximo tópico auxiliou nesse processo.

A partida Lanús x Grêmio foi o tema apresentado no sequência. Esta é tratada pelo departamento como o principal case de sucesso. “Naquele jogo o departamento atingiu sua maioridade”, definiu o palestrante. O principal objetivo do DTG era garantir uma experiência inesquecível e segura aos cerca de 7 mil torcedores que iriam a província de Buenos Aires.

A torcida do Grêmio havia sofrido na ida ao estádio de La Bombonera na final da Libertadores de 2007, com assaltos e ataques aos ônibus. A fama de La Fortaleza, casa do Lanús, também era motivo de preocupação, assim como a dificuldade de tratar com autoridades argentinas, que nem sempre cumprem o combinado.

Com base nisso, Thiago se antecipou e foi para a capital argentina duas semanas antes da partida. Tratou sobre área de concentração da torcida, policiamento, acessos ao estádio, rotas de deslocamento e entrada de materiais da torcida (faixas e instrumentos). Se reuniu com o chefe da polícia de Lanús e um profissional de segurança contratado pelo Grêmio. Com todos os detalhes prontos, era hora de passar a informação aos torcedores. Um processo de massificação das informações sobre ponto de encontro, rota da escolta e demais detalhes foi necessário para atingir todos os torcedores, que chegariam a cidade de diversas formas: de carro, de avião, de ônibus, excursão ou por conta própria.

O clube utilizou redes sociais, canais de televisão, rádios e grupos de WhatsApp para que nenhum torcedor corresse qualquer tipo de risco na Argentina. O resultado de todo o trabalho foi uma experiência inesquecível, poucas ocorrências com torcedores, um visual incrível na arquibancada e a taça do tricampeonato no armário.

O terceiro momento teve como destaque os modelos de estádios e arenas esportivas do futebol mundial. A partir do desastre de Hillsborough em 1989, onde 96 torcedores do Liverpool morreram por superlotação e pelas condições de conservação do local, houve uma modernização nos estádios pelo Europa. Foi criado o Relatório Taylor na Inglaterra, com determinações sobre as estruturas que deveriam ser adotadas. Estas normas chegaram também aos demais países do continente. Thiago trouxe a comparação entre o que foi feito na Inglaterra e na Alemanha desde então. O primeiro foi muito rígido com as novas regras, implementando uma política de ingressos caros e lugares marcados. Não se poderia assistir ao jogo em pé, privilegiando o conforto para os espectadores. Isso acabou criando um ambiente frio dentro do estádio, cultura que é vista até hoje na terra da rainha.

Na Alemanha, os responsáveis por comandar o futebol entenderam que o ambiente do estádio agregar valor ao futebol como produto. Mantiveram áreas do estádio para torcedores assistirem ao jogo em pé e ingressos com preços acessíveis. Perceberam que a gestão do público deveria ser feita de dentro do clube. Sendo assim, todos os clubes da primeira divisão do campeonato alemão devem ter seus departamentos de torcedores.

O trabalho feito na Alemanha foi o grande modelo para o DTG, que tinha como maior desafio adequar suas normas ao modelo brasileiro, com suas características próprias. Este se iniciou em 2003 com a criação do Estatuto do Torcedor. Na ocasião, os clubes ainda não haviam percebido que era sua função gerir a relação com seus torcedores. O resultado disso são normas que nem sempre refletem o melhor para as instituições e sua torcida, com algumas dificuldades existentes que Thiago relatou no último tópico.

Para fechar, um pouco sobre as tarefas e funções do Departamento do Torcedor Gremista. Este tem um papel operacional nos jogos. Nas partidas na Arena do Grêmio busca sempre garantir uma boa experiência para o torcedor, tendo um relacionamento direto com este. Alguns torcedores questionam se o DTG tenta roubar o protagonismo na festa dos torcedores. O palestrante explicou que apenas com o clube agindo, em parceria com a torcida, para a festa ocorrer da melhor forma. “Ou nós fazemos, ou não tem. Como não tinha”. Nos confrontos fora de casa trabalha com base no acordo de reciprocidade, com foco no número de ingressos, cortesias, valores e logística dos torcedores. O exemplo de sucesso dessa política foi no confronto contra o Flamengo, pela Copa do Brasil de 2018. Foram vendidos ingressos pela internet e em pontos de venda, localizados tanto em Porto Alegre, quanto no Rio de Janeiro.

Thiago lamentou que isso nem sempre é possível, já que o acordo só ocorre se os outros clubes aceitarem, e estes muitas vezes não estão dispostos.

Quem esteve presente no Foot.Hub aprendeu sobre a história do Departamento do Torcedor Gremista e suas funções atualmente. Entendeu como funciona a gestão do público em dois grandes mercados do futebol mundial, Inglaterra e Alemanha. Ainda ouviu os bastidores da partida entre Lanús x Grêmio, quando 7 mil gremistas tiveram a grande experiência de ver seu time levantar a Copa Libertadores. E como sempre ocorre no Foot.Hub, se conectou com os demais presentes antes e depois do evento.