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O treinador que eu queria trabalhar

Em 2019, na condição de turista, finalmente conheci o estádio da Bombonera por dentro. E por fora. Infelizmente não em uma partida para senti-la pulsar, mas o suficiente para imaginar o tremor que dela brota. Há quem diga que literalmente, inclusive.

O fato é que no tour das arquibancadas verticais, passando pelo gramado, vestiários e museu, a sensação é indescritível como soou para mim ser o significado da frase da plaquinha de madeira com uma vaquinha vestida de camisa 10 do Maradona que comprei de souvenir no Caminito, nas redondezas da caixa de bombom amarela e azul: “Fútbol es vida…el resto son solo detalles”.

Existem inúmeras afirmações sobre o futebol. Uma delas, em relação à sua reprodução cinematográfica, é do meu irmão Luís Mário, especialista na área. “Futebol em câmera lenta pode ter música clássica ou rock que funciona igual”. Ao mesmo tempo, também a mesma fonte enumera vários exemplos frustrados de sua dramatização na sétima arte, mas aqui não irei fazer. Prefiro enumerar duas séries que tratam do tema. A primeira com cunho documental “Sunderland até morrer” e a recém premiada Ted Lasso, uma deliciosa, ingênua e profunda ficção de um treinador que atravessa o oceano e troca o futebol americano pelo soccer.

As duas têm a Inglaterra como cenário e apontam dois vieses de um esporte bilionário mundo à fora, principalmente na terra da Rainha, onde a Premier League é hoje a competição mais atrativa entre times do mesmo país. Recentemente um amigo me contou da situação atual do time vermelho e branco do Sunderland. Bom, se os telespectadores da série resistiram ao seu final, rezo para que ainda haja força no berro daqueles fanáticos. A situação atual do time de Ted Lasso também desconheço, mas por outro motivo.

Se um documentário tem por premissa tentar mostrar as coisas como são, a série beira, no meu humilde ponto de vista, a perfeição ao aproximar telespectador, torcedor, time, dirigente e treinador de situações diversas. Ainda sim ela, por óbvio, por mais que mostre muito bastidor, está distante de tudo o que realmente ocorre em um vestiário, em uma tribuna, em uma coletiva de imprensa ou em um gabinete. E essa distância não faz a menor falta.

Estou na segunda temporada de Ted Lasso. Ao escrever essas breves linhas um dia depois de saber que a produção recebeu 7 troféus do Emmy, prêmio da TV americana, fiquei tentando pinçar alguma cena, diálogo, piada, sacada irônica ou episódio que destacasse o que a narrativa tem de melhor: a sensibilidade para falar das relações que o futebol consumido pela massa teima em manter dentro da bolha. Antes de escolher uma, acessei o Google para ver o que disse o autor e personagem principal no seu discurso domingo à noite.

“Esta série é sobre família, é sobre professores, é sobre companheiros de equipe”, disse o protagonista, Jason Sudeikis, ao receber o prêmio de melhor ator em série cômica. “E eu não estaria aqui sem essas três coisas na minha vida.” Em tempos de pandemia, repensar valores se tornou prática diária. Pois a cena do treinador e seu auxiliar bebendo tranquilamente um pint em um pub britânico responde à pergunta implícita no título desse texto. Se alguém discorda sobre esses pequenos detalhes da vida ou da ironia da vaquinha sobre o futebol, não assista a série. Muja!

Texto de João Paulo Fontoura.

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