Liderança Inteligente no Futebol

Liderança Inteligente no Futebol

Treinador de futebol. Não entra em campo. Mas às vezes é o craque do time. Outras, o responsável pelos fracassos. Ajuda a decidir jogos, a ganhar campeonatos. Escolhas cruciais passam por eles. O chamado “grupo bom de vestiário” sempre passa pelo treinador. E pela sua gestão de grupo. Ter conhecimento técnico e conceitos bem definidos sobre tática é importante. Mas nada supera a integração da técnica com uma boa liderança. 

E uma boa liderança atua com Inteligência Emocional. Atualmente se fala muito em Inteligência Emocional. Termo da moda, como alta performance, produtividade, foco, equilíbrio etc. E comemoro muito que as pessoas estejam falando e olhando para isso, pois a grande verdade é que nunca a sociedade se preocupou tanto com o bem estar social, financeiro, físico e emocional como agora. Já é notório que as pessoas querem viver com qualidade de vida e equilíbrio em todas as áreas. Qualquer coisa de diferente se mostra insuficiente para uma geração de pessoas que acredita que a vida é muito mais do que sempre se desenhou.

Você pode achar chato, repetitivo, maçante, mas a grande verdade é que isso não sairá mais das nossas vidas. Iremos atrás de novos pensamentos, de mudanças de comportamentos efetivas e reais, de melhorar nossas performances e ainda ter qualidade de vida e ser feliz. E tudo isso passa pela Inteligência Emocional. Compreender o que gera as emoções em nós e o que faremos com elas, entender as emoções dos outros para saber como funcionam e para ajudá-los, não mais usar de críticas e julgamentos. 

Aliás, o pilar fundamental da Inteligência Emocional se chama relacionamento. E precisamos a aprender a nos relacionarmos se quisermos ter o equilíbrio emocional que buscamos.

Mas voltando a esse assunto no campo da liderança… 

O líder que já entendeu a importância da inteligência emocional para melhora e aumento de desempenho do grupo ou do atleta encontra bons atalhos para chegar ao sucesso. Ou no mínimo, aprende mais rápido as lições que os fracassos trazem.

Como já citei acima, o pilar mais importante da Inteligência Emocional é relacionamento. E para ter um time capaz de conquistar vitórias e os títulos é necessário contar com jogadores aptos e também de um grupo que queira a mesma coisa. Um grupo unido. E isso passa fundamentalmente pelo seu treinador, seu líder. O técnico precisa conhecer as pessoas com quem trabalha, saber como eles reagem, saber o que vai fazer o jogador desempenhar melhor. Guardiola no seu documentário All or Nothing, fala na preleção que alguns jogadores só jogam bem quando estão com raiva dele, o técnico. Então ele provoca essa raiva em determinados jogadores para a resposta ser em campo. Isso é estratégia inteligente. Conhecer cada um. E isso vem de se relacionar com os atletas e passa também por conhecer o perfil comportamental, os sabotadores, e principalmente, a história de vida de cada um deles (só esse assunto, daria um artigo completo no futebol).

E além de criar relacionamento e conhecer sua equipe, o treinador precisa ser um bom gestor de vestiário. As disputas pessoais e conflitos de ego entre jogadores com alto salário e renomados são recorrentes no esporte. Tanto que Guardiola diz que o ego é a fonte da maioria dos problemas de uma equipe. E o desafio é não deixar isso se propagar no time e afetar o ambiente de trabalho. E sobre isso, todos nós conhecemos uma história de vestiário rachado por causa de situações pontuais e atletas julgados problemáticos, não é mesmo? 

O treinador com Inteligência Emocional também utiliza da meritocracia para colocar os melhores em campo. Bom desempenho em treinos e jogos credencia o jogador a estar na equipe titular. Isso mostra que o técnico é uma pessoa confiável, e o sentimento de injustiça entre os atletas diminui muito quando o técnico se mostra imparcial e valoriza o esforço de todos. 

E por falar em justiça, sempre abordo uma questão importantíssima sobre liderança. O líder precisa tratar todos como seres únicos. Essa história de tratar todo mundo igual é um dos maiores erros que pode se cometer (polêmicaaaaaa) em altos cargos, sejam esportivos ou não. É importante para o treinador saber que atletas experientes não podem ser tratados da mesma forma que jovens talentos recém oriundos da base, por exemplo. E não falo aqui sobre tratamento com pessoas, que todas devem ser bem tratadas, com respeito, carinho, atenção. Falo sobre cobranças individuais, metas para a carreira, maneira de desafiar cada um. O técnico, falo de novo, precisa conhecer o jogador para extrair o melhor dele, e isso também engloba saber o momento da carreira que o jogador está.

Não é uma tarefa fácil ser líder, seja no esporte ou em corporações. Mas o que precisa ser entendido é que facilita muito quando a liderança sabe que ela precisa agir com inteligência. Inteligência social, emocional, espiritual, tática. A liderança inteligente age de acordo com o que o time precisa. Reconhece o que a equipe e jogadores estão precisando em determinados momentos da competição. É um líder enérgico na hora certa, um líder transformador quando necessário mudar, é líder de desempenho quando precisa ter mais resultado, usa de liderança mais liberal em alguns momentos, em outros momentos é mais diretivo. Neste quesito, Mourinho é um defensor da teoria que liderança não tem estilo. Ele diz que tem que ter uma liderança ajustada à realidade. Não é um técnico vencedor à toa, concordam?

Muitas vezes o treinador vai ser gestor de pessoal, gerenciador de conflitos e relacionamentos e outras tantas vezes precisará ser gestor do negócio. Pensar no resultado final mesmo. Vai ter que lidar com emoções, relações interpessoais, elaborar os objetivos a ser atingidos pela equipe, traçar planejamentos e até metrificar as etapas para saber se as metas estão sendo cumpridas. Tudo isso para no final da temporada ter conquistado os objetivos e sentir paz, tranqüilidade e motivação para continuar se desenvolvendo e ir atrás de sonhos maiores.

Hoje o maior exemplo que temos em nível mundial de treinador de futebol com Inteligência Emocional é Pep Guardiola. E o que mais impressiona quando conhecemos sua trajetória e filosofia de vida/trabalho é que não são coisas difíceis de aprender e fazer. São coisas relativamente simples, mas que transformam o jogo quando postas em prática. Ele pensa no atleta, no resultado e no como executar o que precisa ser feito. 

Exemplo de ação: “Se você treinar mal, você jogará mal. Se você trabalhar forte no treinamento, jogará da mesma maneira”. Foco no resultado. Esse tipo de pensamento gera emoção de entusiasmo, motivação, que leva ao comportamento de se dedicar ao máximo. 

Exemplo de empatia e relacionamento: “Eu vou perdoar se os jogadores não conseguirem acertar, mas não se eles não tentarem.” Com esse pensamento ele faz os jogadores darem o melhor de si para não causar decepção ao seu líder, e eles têm a certeza de que a decepção não tem a ver com o resultado final. A liberdade de falhar os deixa muito mais seguros e confiantes para arriscar na hora dos jogos. 

Exemplo de conhecer seus jogadores e suas emoções: “Eu não estou lidando com jogadores, estou lidando com pessoas. Eles têm medos e se preocupam em falhar”. Guardiola entende exatamente o que acontece com cada atleta que ele trabalha. E por conhecê-los tão bem e conhecer melhor ainda como funciona o futebol, trabalha com os jogadores pontos emocionais essenciais como coragem, motivação, medos e preocupações. 

A Inteligência Emocional aplicada ao esporte, ou neste caso especifico, à liderança é muito mais do que ter controle de emoção. Aliás, em nenhum momento deste artigo usei este termo. Uma boa gestão de equipe passa por se desenvolver em primeiro lugar, se conhecer, saber como a tríade pensamento, emoção e comportamento se aplica em todas as áreas da nossa vida. 

Não conheço a vida particular de todos os treinadores de futebol, mas me arrisco a dizer que os técnicos que usam de Inteligência Emocional no seu trabalho também o fazem na sua vida pessoal, e certamente possuem um alto de nível de felicidade e satisfação em todas as áreas da sua vida, confirmando que o sucesso se encontra também neste equilíbrio. 

Gisele Kümpel
Empresária e Co-fundadora da Sociedade Gaúcha de Inteligência Emocional.
Treinadora comportamental, Especialista em Inteligência Emocional e Psicologia do Esporte.
Coach de Liderança e Consultora Empresarial.