Guardiola e a importância de Fernandinho

Por Leo Urnauer

Fernandinho será titular do Manchester City na próxima quarta-feira (10) no confronto decisivo contra o United pela Premier League. Motivo de alívio para Pep Guardiola. O treinador não poderia deixar de contar com seu jogador mais importante na mais importante partida do ano. Se vencer, a equipe dará um grande passo para conquistar o sexto campeonato inglês de sua história. É questão de honra o título da PL depois da desclassificação na Champions League.

Em momentos cruciais da temporada 2018/2019, os Citizens sofreram justamente quando o brasileiro estava fora por lesão. Foi assim na sequência de derrotas para Crystal Palace e Leicester em dezembro pela Premier League e também no último mês, quando a equipe até conseguiu bons resultados, mas decaiu em desempenho.

Isso ocorre, primeiramente, porque não há substitutos para o volante no elenco. Se Agüero lesiona, entra Gabriel. Quando De Bruyne ficou fora, Bernardo Silva deu conta do recado. Somado a falta de suplentes, Fernandinho possui características bem específicas que o tornam peça chave no modelo de jogo do time. Sem ele, a engrenagem não funciona. O clube inglês encontra dificuldades inclusive de achar no mercado europeu um sucessor para o brasileiro que completa 34 anos em maio.

Versatilidade

“Eu acho que Fernandinho pode atuar em dez posições. É rápido, inteligente e forte. Pode jogar até como zagueiro ou iniciando a construção do ataque”, disse Guardiola em junho de 2016. O treinador sempre gostou de dispor de jogadores versáteis em seus times. Foi assim com Mascherano no Barcelona e Philipp Lahm no Bayern.

A razão para isso é que o futebol evolui nos últimos anos para uma complexidade que demanda atletas multi-funções. Zagueiros confortáveis na construção ou atacantes com boas leituras defensivas. Todos têm que fazer de tudo um pouco. E Fernandinho é personificação desse conceito: um volante que além de marcar, é bom pelo alto, tem ótimo passe, faz lançamentos precisos e é extremamente inteligente na leitura do jogo.

Construção das Jogadas

Assim, ele não deixa de ser um coringa para Guardiola utilizar em diferentes exigências e situações das partidas. Se o time adversário marca alto? Fernandinho é muito bom dando apoio aos zagueiros, distribuindo a bola e ajudando o time a sair da pressão. Se o oponente fica todo atrás da linha da bola? O brasileiro tem bom passe e controla o ritmo da partida.

Não à toa que Maurício Pochettino colocou Dele Ali para marcar individualmente o camisa 25 no primeiro jogo das quartas da Champions. O treinador do Spurs sabe que o volante é a principal peça do City no início da construção do ataque. Em média, o brasileiro completa um pouco mais de 70 passes por jogo, mas nesta partida, não atingiu 35.

Disputa com Liverpool está acirrada na PL | Foto: Press/Manchester City

Esse tipo de estatística da quantidade de passes completadas é muito mais significativa para o desempenho de Fernandinho do que número de gols e assistências. Se analisarmos minuciosamente, veremos ainda que muitos desses passes quebram linhas de marcação e são importantíssimos para a progressão do ataque do City de uma maneira organizada (conceito importante do Jogo de Posição de Guardiola).

Ofensivamente, a função de Fernandinho é cadenciar as ações. Por sua inteligência, sabe exatamente o ritmo certo e como girar a bola para movimentar o adversário. No momento oportuno, acelera para colocar os meias e os pontas em condições vantajosas para criar chances no terceiro final. Sem a bola, oferece linhas de passe e aproximação gerando superioridade em todas as fases do ataque: sempre há mais jogadores do City no setor.

Marcação e equilíbrio do time

Na esmagadora maioria das partidas, o Manchester City enfrenta adversários posicionados atrás da linha da bola, prontos para contra-atacar. E Fernandinho é parte fundamental também nessa contenção. Em entrevista, ele disse uma vez que via seu papel “como o equilíbrio entre defesa e ataque”. Além das qualidades com a bola no pé que mencionei, ele é agressivo e excelente em antecipações e desarmes. As estatísticas novamente podem indicar um número não tão alto dessas ações defensivas em relação a outros jogadores.

Fernandinho vive grande fase | Foto: Sam Robles/The Players

Mas é sempre bom colocar em contexto. São menos frequentes às vezes que o City é atacado também. Quando isso ocorre, Fernandinho está lá. A vitória por 2 a 1 sobre o Liverpool em janeiro foi, por exemplo, uma de suas melhores exibições defensivas com a camisa do City.

Por último, a capacidade de Fernandinho para atuar no perde-pressiona é fundamental. Esse é um das ideias de jogo mais importantes para Pep: recuperar a bola o mais rápido possível depois de perdê-la. Para isso é fundamental que os jogadores interpretem corretamente quando pressionar, antecipar ou recompor.

Substituto

Ao longo da temporada, Gündoğan e o John Stones foram testados como primeiro volante. Apesar de serem dois grandes jogadores, não conseguem ser tão efetivos quanto o brasileiro. O camisa 8, por exemplo, não sente-se tão confortável jogando de costas e distribuindo o jogo contra times que exercem pressão alta. Também não é um exímio marcador, o que faz os Citizens terem dificuldades na transição defensiva.

No caso do zagueiro inglês, Guardiola o enxerga podendo exercer outra função já que detém um ótimo passe. Mas nas vezes que foi testado mostrou que precisaria de mais adaptação para jogar no caos que é o meio de campo.

Indo mais a fundo, poucos jogadores conseguem ter a excelência nos gestos técnicos que o brasileiro atingiu na posição e aí que talvez encontremos o ponto principal dessa análise. Pode parecer um preciosismo, mas a verdade é que uma bola sem a aceleração correta e um posicionamento mal calculado são detalhes importantes para o funcionamento do modelo de jogo.  

O desafio na próxima janela de transferência será achar no mercado um potencial suplente. Apesar de todas as qualidades, Fernandinho não consegue manter sempre um alto nível de atuações. O que não deixa de ser normal dadas as exigências físicas e táticas da posição.

Arrisco a dizer Tanguy Ndombélé do Lyon seria uma boa aposta. O meia francês mostrou nesta Champions características muito interessantes indo ao ataque mas também defendendo. É excelente atuando sobre pressão e pode melhor ainda mais nas mãos de alguém com Pep Guardiola.