Gestão de Clubes Gigantes, por Carlos Amodeo

Gestão de Clubes Gigantes, por Carlos Amodeo

O sucesso do Grêmio vai além das quatro linhas. Uma gestão competente e organizada tem sido essencial para que o sistema do clube funcione com êxito. Para entender melhor como funciona o modelo efetuado pelo Tricolor, o FootHub trouxe nesta segunda-feira (04) o CEO Carlos Amodeo para compartilhar sua experiência profissional.

O evento iniciou com uma contextualização do futebol como negócio. O esporte se transformou em uma indústria complexa, com diversos agentes e capaz de movimentar grandes quantias financeiras. Um exemplo que ilustra essa complexidade é a transmissão das partidas do campeonato brasileiro, que envolve televisão aberta, fechada, pay-per-view e mais recentemente o streaming, com a Rede Globo e o Esporte Interativo disputando a audiência dos torcedores. Em relação aos clubes, estes são associações sem fins lucrativos, constituídos por um ambiente que envolve política, paixão e uma cultura própria. Segundo Amodeo, um dos grandes desafios do dirigente brasileiro é profissionalizar um clube com esta estrutura. As dificuldades de um ambiente ainda não profissional afetam algumas áreas, como a relação com bancos, que costumam dificultar empréstimos às associações por sua falta de boas práticas de governança.

A partir desse contexto, o CEO do Grêmio apontou alguns paradoxos enfrentados por ele ou qualquer outro profissional que trabalhe no futebol. O primeiro é a relação entre o próprio profissional e o dirigente político. É necessário que se mantenha um equilíbrio, com cada um respeitando seu papel. Na sequência, investimento versus orçamento. É fundamental para a saúde financeira de um clube que um plano orçamentário seja respeitado, sem o acúmulo de dívidas. Talvez a mais difícil de lidar seja paixão x razão, ainda mais no contexto do futebol. Para finalizar, o paradoxo capaz de resumir os outros é imediatismo ou sustentabilidade.

Ainda sem entrar no caso do Grêmio, Amodeo elencou alguns fatores de sucesso e melhores práticas para a gestão de um clube. O primeiro é integrar processos de gestão do departamento de futebol com à gestão geral do clube, que envolvem áreas como o planejamento estratégico e gestão financeira. Também é preciso integrar os dirigentes políticos com profissionais. Os primeiros, devem fazer o papel institucional dentro do clube, enquanto a gestão operacional fica a cargo dos gestores. Para fechar os fatores, o equilíbrio entre sustentabilidade e competitividade, destacado pelo palestrante como um grande desafio, que acaba trazendo maiores dificuldades para quem busca este ponto. Quanto as melhores práticas, na visão de Carlos Amodeo, ter um planejamento estratégico como pilar principal é fundamental para gerir um clube gigante. Além disso, é preciso trabalhar com uma gestão financeira com visão de curto, médio e longo prazo, levando em conta indicadores de desempenho. Um sistema de gestão que facilite processos acaba auxiliando em todas as práticas, facilitando alguns pontos de trabalho. 

Hora de falar do tricolor. Carlos contou um pouco sobre sua rotina, que envolve reuniões semanais com o Conselho de Administração do Grêmio, composto por seis membros. De acordo com o assunto, algum executivo de área específica acaba participando. Em relação à gestão, o tricolor trabalha com um mapa estratégico, cuja base é um sistema sólido de governança, capaz de implementar as melhores práticas e processos. A consequência disso é um modelo de gestão eficaz, que garanta viabilidade financeira. O CEO destacou alguns objetivos que norteiam a gestão gremista, e que são visíveis aos olhos de quem acompanha o clube no período recente. O primeiro deles é a integração entre todas as categorias de base com o profissional, criando um DNA para o clube. O investimento em ativos, que podem gerar riqueza para o clube, é mais um destes, tendo a própria categoria de base como exemplo. Melhorar constantemente a relação entre investimentos e competitividade, aproveitando ao máximo os recursos disponíveis. O torcedor também é alvo da gestão, sendo a fidelização do associado mais um ponto a ser atingido. Em relação às finanças, buscar o ponto de equilíbrio do fluxo de caixa. Aqui se entende a necessidade que todo o clube brasileiro tem em vender seus jogadores. Por fim, uma evolução constante no uso de tecnologia, aproveitando as inovações para ter vantagens competitivas sobre os concorrentes.

Amodeo trouxe alguns números para mostrar que todo o conhecimento passado está dando resultado ao Grêmio, além dos títulos dentro de campo. O valor da marca Grêmio está consolidado como a mais valiosa além dos clubes de Rio de Janeiro e São Paulo. Em relação à cultura de futebol implementada, vale destacar a reposição com Matheus Henrique para a saída de Arthur para o Barcelona. Uma evolução econômica, alcançando superávits nos últimos anos, e receita chegando aos R$ 400 milhões. As dívidas também foram reduzidas, com foco nas cobranças de curto prazo e endividamento bancário, que caiu 67%. Como consequência, diminuem também as despesas financeiras, como juros mais altos pagos por empréstimos. Para fechar o evento, o palestrante citou seus próximos desafios no cargo: adquirir a gestão da Arena, trazendo sensação de pertencimento ao torcedor e possibilitando novos negócios, consolidar o modelo de gestão, para garantir cada vez menos influência política e de paixão no médio e longo prazo, e buscar novas fontes de receita, passando a tratar o futebol como entretenimento e aproveitando as oportunidades da transformação digital.  

Foi uma chuva de conhecimento e conteúdo. Amodeo deu uma verdadeira aula sobre a gestão vencedora do Grêmio aos mais de 30 presentes no FootHub, mostrando que existe muito trabalho fora dos gramados para atingir o nível que é visto dentro de campo.

Foto: Leo Moraes