Futebol universitário nos EUA: a história antes da decisão

Um guri com o sonho mais sonhado do Brasil. Um sonho incansavelmente buscado por milhões de brasileiros. Um sonho para milhões sonharem, muitos perseguirem, e pouquíssimos realizarem. É o sonho de ser jogador de futebol profissional.

Tu, caro leitor, vai me dizer que um dia não sonhaste em ser jogador também?  

Vou ser bem sincero: é a primeira vez que estou entrando em detalhes sobre a minha experiência com o futebol em si. Não reparem se eu abusar um pouco nas minucias da história. Usarei esse espaço também como desabafo a você, leitor. Ao mesmo tempo, estou ansioso para compartilhar detalhes da minha jornada nos Estados Unidos e no futebol universitário de lá. Mas de que outra forma eu começaria, sem contar um pouco da minha história com o futebol aqui no Brasil? Então, lá vai!

Desde a maternidade, o primeiro presente: uma camisa de futebol. Regalada pelo meu avô – na época sócio remido do clube. Meu pai, de quem eu herdei diretamente esse sonho, por muito pouco não conseguiu realizá-lo. A paixão cresceu comigo, a vontade de um dia poder protagonizar tudo isso era cada vez maior. Por vezes, foi até maior que eu. A ingenuidade ainda me impedia de ter uma noção do quão árduo esse caminho poderia ser, de quantos tombos eu iria tomar, de quantas lições eu iria aprender, e de quantas vezes eu iria pensar em desistir. Menos ainda eu poderia imaginar, no final da história (alerta de spoiler), as oportunidades que esse esporte me daria – a razão pela qual serei grato ao futebol por toda a minha vida.

Começou lá em São Francisco de Paula/RS, serra gaúcha, interior do estado. Na escolinha de futsal da cidade.

Logo, a mudança para Porto Alegre, aos meus oito anos, me proporcionou um leque maior de oportunidades no futebol. Me inscrevi na escolinha de futsal e logo, sendo um guri do interior sem nenhuma referência na capital, comecei a fazer os primeiros amigos na cidade grande justamente pela intimidade com a bola. Com o passar dos anos fui me desenvolvendo e cada vez levando a coisa mais a sério. Com 14 anos, entrei na escolinha do Grêmio e tive o meu primeiro contato com o futebol de campo – até então era só futsal. Me adaptei rápido e já quis seguir. Por dois anos fiquei lá, mas a falta de oportunidades me fez buscar outros caminhos. Entrei na escolinha do Flamengo em Porto Alegre. Lá aprendi muito, principalmente a marcar – uma deficiência que me atrapalhava.

Futebol é sonho de guri| Foto: Arquivo Pessoal

Após um pouco mais de seis meses, recebi uma oportunidade na equipe sub-17 do E.C São José. Lá tive a minha primeira experiência em categorias de base, um pouco frustrada, já que não consegui me federar e nem mesmo jogar uma partida oficial. Joguei na lateral-direita, minha posição de origem é meia-esquerda. No início não gostei, mas acabei me acostumando e aprendendo muito. Evoluí. Saindo de lá, me formei no ensino médio e passei no vestibular para Educação Física, em uma universidade particular. O foco agora era nos estudos. O futebol, por sua vez, teve uma breve pausa.

Após um semestre bem sucedido de faculdade, com ótimas notas e com a sensação de estar no curso certo, uma oportunidade apareceu. Tomei uma decisão difícil, com o apoio dos meus pais, que foi dar uma pausa nos estudos para retomar a busca incessante pelo meu sonho. Fui parar no Cruzeiro, de Porto Alegre. Lá eu me federei e disputei o meu primeiro campeonato oficial em uma categoria de base, a Copa FGF sub-19. Na verdade, apenas fiz parte do elenco, porque jogar que é bom… nada. O ano acabou em outubro, fomos eliminados prematuramente da competição. Ao final da temporada, me disseram: “deixa o teu contato que te ligamos no ano que vem”. Foi uma maneira mais requintada de me dispensar. Era óbvio que a ligação não viria. Mais um carrinho por trás no meu sonho. Era, então, hora dos estudos voltarem a ser prioridade na minha vida.

Sem poder voltar para a faculdade – trancada -, fui convencido pelos meus pais a estudar para o vestibular da universidade federal. Eu tinha quase certeza que não iria passar. Quase certeza. Estudei durante dois meses por conta própria e com a ajuda de muitos amigos que já se preparavam para as provas. Para a minha surpresa e nem tanto dos meus pais, passei. Comecei a cursar Educação Física, agora na universidade federal, sem pagar nada, estudando praticamente ao lado da minha casa. E aí, Henrique, desistiu? Não mesmo.

Cheguei aonde muitos lutavam, e se empenhavam dia e noite durante anos; onde poucos chegam, mas para mim não era o suficiente. Estava empolgado por ter conseguido me federar e ganhar espaço no elenco da equipe no ano que passou. Aquela confiança seguia acesa dentro de mim, consegui olhar para trás e ver uma evolução satisfatória dentro de campo. Amadureci muito. A ligação prometida ao final da temporada, claro, não veio. Ataquei por outro lado, pedi indicações, e, em fevereiro, antes mesmo de começarem as aulas, lá estava eu de volta aos gramados. No mesmo Cruzeiro, que agora treinava em Cachoeirinha, na região metropolitana de Porto Alegre. Eu teria que pegar dois ônibus para ir e dois para voltar do treino. Empecilho? Que nada! Todo esforço era válido.

O foco agora não era apenas no futebol ou no estudo. Era nos dois. Eu teria que dar um jeito de conciliar as aulas com os treinamentos em Cachoeirinha. A rotina seria extremamente cansativa, e eu sabia disso – mas não tive nenhuma dúvida em agarrar com unhas e dentes essas oportunidades. Então, começaram os treinos pela manhã. Minhas aulas eram na parte da tarde/noite, por sorte muito perto da minha casa. Muitas vezes esse fator acabou me salvando de não chegar atrasado.

O meu nível técnico estava bem dentro da média do grupo, minha determinação e disciplina sempre estiveram acima da média, modéstia à parte. Mas logo comecei a perceber que as minhas chances não estavam surgindo. Não demorou muito mais do que algumas semanas para eu perceber que o treinador já tinha os seus “bruxos” no grupo. Algo que eu já tinha vivenciado em outras oportunidades. Jogadores de empresários, amigos dos treinadores, todos passavam na frente. Nem sempre nível técnico, empenho ou performance nos treinos eram o suficiente para resultar em uma chance. Isso desestimulou, abalou, tirou um pouco a minha confiança. Até eu perceber que a coisa funcionava assim mesmo – e assim fui tomando conhecimento desse lado não tão romântico do futebol.

No início do semestre letivo as aulas eram menos cansativas, e isso me permitia focar mais no futebol. Ao longo do semestre, com a escassez de chances, com aulas mais maçantes e o período de provas chegando – acabei retomando o foco nos estudos. Foi então que o que eu mais temia aconteceu. Começaram os conflitos entre aulas e treinos. A comissão técnica decidiu começar a treinar 2 turnos, algumas vezes na semana. Eu não podia jogar meu semestre de estudos fora, não podia faltar nem as aulas e muito menos as avaliações. Mas e o treino? Toda a nação boleira sabe as consequências de faltar treinos. As chances que já não estavam vindo, não viriam nunca! Nessa encruzilhada não tinha meio-termo, eu precisava escolher um caminho. Não foi fácil, mas foi lógico. Decidi ter uma conversa franca com o meu treinador, explicar a situação pra ele, e avisar que eu faltaria alguns treinos no turno da tarde por causa da faculdade.

Logo de cara, ele estranhou um pouco a situação, pois obviamente a minha realidade era diferente da grande maioria dos atletas do grupo. A questão social fala muito alto nessas e horas, o preconceito existe. Sim, preconceito – simplesmente por ter outras oportunidades na vida mas insistir no futebol. Para muitos dos meus colegas de equipe na época, o futebol era a chance da vida. Não existia plano “B”. Para outros, a necessidade já existia, colocar comida na mesa com 17 anos e filho para criar. Futebol não era mais apenas um sonho para eles, era a única chance e a única esperança de eles se tornarem bem-sucedidos na vida.

Eu, por outro lado, membro de uma família de classe média e estava cursando uma universidade federal – com um futuro infinitamente mais promissor. E o que tínhamos em comum? Claro, o mesmo sonho. Mas em circunstâncias tão diferentes, pode-se dizer que não é justo estarmos brigando pelo mesmo sonho? Que eu estando naquela posição tiraria a chance de outros que “precisam” do futebol muito mais do que eu? Por um lado eu pensava: “Mas e daí? É o meu sonho!”. Por outro, eu pensava: “Não é justo com esses caras, o futebol tá longe de ser a minha única chance de dar certo na vida.”. Pensamento esse que tirou meu sono por incontáveis noites.

Fato é, que para o meu treinador eu era apenas mais um no grupo. Não fazia muita diferença para ele, naquela altura, não contar comigo uma vez ou outra no treinamento da tarde. Eu não pegava nem lista para os jogos do Gauchão sub-20, estava longe de ser uma prioridade para ele. A conversa foi mais fácil que eu pensei – e até hoje eu me pergunto por que ele não me dispensou. Então, comecei a me ausentar de alguns treinamentos e muitos pensamentos vieram à tona: “Claramente vou passar a temporada toda apenas treinando, não vão me dar chances. Será que vale a pena continuar?”

O futuro seria nos EUA | Foto: Arquivo Pessoal

Mais ou menos nessa época, em uma conversa casual um amigo próximo me perguntou se eu não gostaria de jogar futebol universitário nos Estados Unidos – ele conhecia alguém que tinha ido e ouviu falar que as universidades davam bolsas esportivas altas dependendo do nível técnico no esporte. Eu fiquei extremamente interessado em saber como funcionava tudo isso. Estudar em uma universidade norte-americana e jogar futebol em alto nível competitivo… Como isso seria possível?  Logo comecei enlouquecidamente a pesquisar tudo sobre esse sistema americano. Aos poucos, isso já ia se tornando o meu mais novo objetivo: conseguir uma bolsa de estudos em uma universidade norte-americana e jogar futebol em alto nível. Estudos e esporte alinhados, ambos com a mesma importância. Além disso, morar em um país de primeiro mundo, ter contato com culturas diferentes, aprender uma nova língua e vivenciar uma experiência única – com a chance de obter um diploma estrangeiro e receber oportunidades no futebol profissional após o final da jornada universitária. Era uma solução perfeita, tudo o que eu precisava. No entanto, mais uma vez, mal sabia eu do tamanho das dificuldades que iria enfrentar no processo de atingir esse mais novo objetivo. E não foram poucas.

Curtiu o texto? Fique ligado nos próximos posts para saber mais detalhes de como me preparei para estudar e jogar futebol universitário nos Estados Unidos, e de como foi a minha jornada de 4 anos lá.

Henrique Lucena Pires
Formado em Ciência do Exercício e Administração de Empresas com foco em Saúde e Bem-estar pela University of Jamestown (Dakota do Norte/EUA)

Prêmios futebolísticos: NSAA 1st Team All-conference (2017), AAII 1st Team All-Conference (2017), U.S Coaches 1st Team Scholar All-American (2017), U.S Coaches 2nd Team All-Plains Region (2017), NPSL South-Central Conference Champion (2016)

Prêmios escolares: Dean’s List (2015,2016,2017), College Fellow in Health and Fitness Administration (2017), U.S Coaches 1st Team Scholar All-American (2017)