Futebol fora da caixa: Público na Copa América

Futebol fora da caixa: Público na Copa América

Está no ar o terceiro texto da série ‘Futebol Fora da Caixa’. O tema não poderia ser outro se não a Copa América. O assunto inicial, logo nas primeiras partidas, foi em relação ao público e a renda da competição. Foi decretado de imediato que o alto preço do ingresso era o único responsável pela falta de público em diversos jogos do torneio. Nesse texto buscaremos apontar outros motivos que contribuíram para deixar os espaços vazios que vimos nas arquibancadas. 

Para começar, é preciso entender as razões que levam torcedores aos estádios de futebol. Estudos apontam diversas variáveis que influenciam na decisão de assistir aos jogos in loco ou não. No entanto, há uma que não está em nenhum trabalho acadêmico. É a paixão, sentimento que o indivíduo nutri por seu clube ou seleção. Esse argumento é usado pelo grupo de torcedores que estará apoiando seu time de qualquer jeito, independente da fase do mesmo, de sua própria situação financeira e das dificuldades que surgem sem a interferência dele, como o trânsito e as condições climáticas.

Mas a história de torcedores fanáticos não nos interessa agora. Para este texto, os argumentos presentes na análises racionais que existem sobre o assunto são mais relevantes. Separamos algumas variáveis significativas para explicar o caso da Copa América.

O primeiro argumento que aparece aqui é em relação ao preço dos produtos substitutos e complementares às entradas para Copa América. Estes são os que você consome ao invés do produto principal e junto do mesmo, respectivamente. Em relação aos substitutos, ver o jogo em casa tem sido muito mais interessante. Você pode festejar com seus amigos e a cerveja não é proibida. O clima se torna muito mais alegre, ao contrário do que é visto nas arquibancadas, onde torcedores dormiram em meio ao jogos. Quanto aos produtos complementares, seu valor significativo também pesa na decisão de ir ou não ao jogo. Devem ser considerados os custos com transporte e alimentação, que não estão baixos atualmente. O preço da cerveja durante a Copa América, nas sedes onde seu consumo é liberado, é R$ 14,00 por uma lata, muito distante do considerado justo.

Estrelas do futebol mundial não são o suficiente para lotação dos estádios na Copa América no Brasil

Também é importante analisar a qualidade do evento. Pensando apenas nas principais seleções, o Brasil chegou repleto de desconfiança para a competição. Garanto que você não ficou esperando por um grande espetáculo na estreia. A Argentina está completamente em baixa, talvez em situação pior que a Copa do Mundo. E olha que a coisa foi feia no Mundial. Uruguai não possui um estilo de jogo que atraia o público em geral. Um futebol jogado com força e intensidade não costuma cair nas graças do torcedor brasileiro, mesmo as grandes estrelas Suarez e Cavani.

Um terceiro argumento vem dos aspectos sociais. Quando muitas pessoas se mobilizam para participar do evento, acaba ocorrendo um efeito manada, com mais pessoas reagindo da mesma forma. Existe ainda quem utilize o jogo como afirmação social. Estar presente em uma partida da seleção brasileira e mostrar isso em suas redes sociais possui grande significado na atualidade. Esses fenômenos são vistos principalmente nos jogos do Brasil. No entanto, o evento não foi capaz de criar o mesmo apelo em outros jogos, com públicos em torno de 10 mil pessoas em diversas partidas.

Trazemos sempre exemplos e comparações que possam exemplificar nossas ideias. Dessa vez traremos os números da Copa das Confederações para comparar com a Copa América. No torneio que teve início em 15 de junho de 2013, os estádios eram novidade. Foram seis arenas utilizadas, todas inauguradas entre fevereiro e começo do próprio mês de junho. Ser um dos primeiros a conhecer as novas arenas certamente foi um dos fatores considerados pelos torcedores brasileiros.

Além dos próprios estádios, o clima de evento internacional também era novidade. Presenciar a Espanha, campeã da Copa do Mundo de 2010 e bicampeã Eurocopa 2008 e 2012, jogando no Maracanã, era algo inédito. Em 2019, além da própria Copa das Confederações, você já presenciou grandes estrelas por aqui no Mundial e nos jogos Olímpicos. Os megaeventos deixaram de ser algo escasso nesta década. E é claro, o preço dos ingressos. Na comparação entre os dois eventos, houve uma inflação em 110% para os jogos da primeira fase e cerca de 150% para as partidas de maior importância, como abertura, semifinais e final. A inflação real no período foi de 40%. Que diferença, não é? 

Após todos os aspectos explicados anteriormente, ficou claro que faltou estudo aos responsáveis pela precificação dos ingressos da Copa América para que os estádios estivessem cheios. Faltou analisar que os demais aspectos não teriam força suficiente para sustentar um alto preço de ingressos. O produto acabou menos atrativo, os organizadores deixaram de ganhar dinheiro. A lição que fica para a Conmebol e outros gestores do futebol é que o estudo é sempre necessário e sem ele seu produto não trará o melhor resultado possível.

Por Rodrigo Romano, do Cadeira Central.