Futebol feminino: a quebra de um paradigma no Brasil

Em 1979, o Brasil se libertava do Decreto-Lei 3.199, Artigo 54, que proibia mulheres de praticarem esportes incompatíveis com as condições de sua natureza, dentre os quais, o futebol. Hoje, 40 anos depois de muita luta, empenho e dedicação, pode-se dizer que a categoria vive um outro momento e dá sinais de mudanças e esperança aos amantes da modalidade. Competições nacionais, grandes atletas e a busca pelo título inédito de uma Copa do Mundo fazem parte de nosso atual repertório.

O então presidente Vargas, em 1941, autorizou a proibição da prática futebolística por mulheres no Brasil, por motivos que, segundo ele, feriam a “natureza feminina”. Durante 38 anos o futebol feminino foi considerado ilegal, protegido por lei e com pena para quem descumprisse o Decreto. A situação ficou mais severa em 1965, quando o Governo Militar incluiu nominalmente – algo ainda inexistente para a proibição: a lista de esportes considerados inadequados para mulheres na legislação.

Mesmo assim, as mulheres nunca deixaram de jogar futebol praticando o esporte de forma clandestina até o momento em que alguém, incomodado, evocava o decreto para que a partida terminasse. “Elas jogavam, principalmente, em campos de várzea e em locais em que o Estado não chega, como as periferias. Isso é muito importante destacar. Essa resistência estatal, na verdade, era o menor obstáculo que elas encontravam”, conforme aponta Giovana Capucim e Silva, autora do livro “Mulheres Impedidas: A proibição do futebol feminino na imprensa de São Paulo”.

A ilegalidade permaneceu até 1979, quando o Governo deu fim à proibição da prática futebolística às mulheres. Mas apenas no ano de 1983 a modalidade foi regulamentada nacionalmente.

Como fase de um novo momento dentro do futebol feminino nacional, a Seleção Brasileira foi criada. Cinco anos após a regulamentação da categoria, em 1988, a primeira equipe foi estruturada para disputa de um torneio experimental para a Copa do Mundo que viria a ser realizada três anos mais tarde. Pretinha, Sissi e Michael Jackson foram as pioneiras deste time que entraria para a história.

Após testes e preparações, em 1991, a Seleção entrava em campo no Mundial, realizado na China. Estreou bem, vencendo o Japão por 1 a 0. O pontapé inicial havia sido dado: o Brasil começava a construir sua consolidação no cenário do futebol feminino.

Aos poucos, a estrutura foi sendo montada e grandes jogadoras surgindo. A participação em importantes competições, como Copas do Mundo, Olimpíadas e Pan-americanos, calejou a equipe que se moldou com derrotas e vitórias para que hoje a nova geração de continuidade com a mesma, ou até melhor eficácia que a passada, mais de três décadas depois.

Corinthians é o atual campeão nacional | Crédito: Mauro Horita

E a continuação da modalidade vem com o investimento interno na categoria, o que demorou, mas que está sendo executado atualmente. Hoje, o país tem campeonatos nacionais de futebol feminino – profissional e de base. A competição principal tem transmissão em TV aberta. Jogadoras recebem estruturas para desempenhar o bom futebol e a torcida cada vez mais comparece aos estádios.

Desde 2013, a CBF organiza a competição que, neste ano, apresenta a sua 7ª edição. Com clubes renomados, jogadoras experientes, e talentos revelados, o campeonato chama a atenção do público e vem atraindo cada vez mais expectadores e praticantes.  

Entre altos e baixos, o futebol feminino nacional, aos poucos, se firma em busca de proporcionar um futuro promissor e vitorioso à categoria.

Marta é um ícone do futebol mundial | Crédito: FIFA

“Qual é, qual é, futebol não é pra mulher? Eu vou mostrar pra você, mané, joga a bola no meu pé…” É neste trecho da música de Cacau e Gabi Kivitz, que a seleção brasileira se inspira para a disputa do mundial deste ano. Em um novo momento, com mais visibilidade, apoio e reconhecimento, as meninas do Brasil vão atrás do título inédito da Copa do Mundo.

E aí, bora torcer?

Texto de Guilherme Maia | Jogando Com Elas