FU #4 - Futebol e estudos: as primeiras experiências

FU #4 - Futebol e estudos: as primeiras experiências

A temporada estava prestes a começar, e logo as aulas também começariam. A ansiedade de jogar a minha primeira partida oficial longe das terras tupiniquins era muito grande. No entanto, havia um empecilho – a minha inscrição na liga universitária ainda não havia sido validada. Isso poderia acontecer pelo fato de eu haver jogado por algumas categorias de base, assim o meu processo de inscrição foi mais demorado. Além disso, meu semestre letivo na UFRGS acabou na metade de junho e os meus últimos históricos escolares chegariam na liga apenas no início do mês de julho. 

Perto da estreia, chegou a resposta oficial e a liga só iria regularizar a minha situação após a primeira partida. Lembro de ver os jogadores mais velhos indo conversar com o treinador, pois não tinham visto o meu nome na lista dos relacionados para o primeiro jogo e queriam entender o porquê. Apesar de triste por não jogar, me senti muito valorizado, todos tinham uma expectativa e queriam que eu estivesse apto a jogar o quanto antes. 

As aulas começaram na semana do primeiro jogo da equipe. Eu não sabia muito o que esperar, apenas entendia um pouco de como funcionava o sistema norte-americano de ensino, pelo o que eu havia estudado antes de ir. Mesmo eu tendo estudado em universidades aqui no Brasil, não era certo que a universidade americana aceitasse os meus créditos cursados e os validassem. Por isso, comecei como um calouro. Todos os calouros tem um pouco mais de 1 ano para cursar matérias consideradas “gerais”, como: álgebra, ética, religião, artes, governo americano e etc. Nesse meio tempo o aluno pode visitar departamentos, conversar com professores e participar de diversas aulas. Assim, a decisão por qual carreira seguir se torna mais fácil, pois você tem um tempo para amadurecer a sua escolha. Depois desse tempo, você começa a cursar as aulas mais específicas para o seu “major”, que é como o grau superior é chamado de maneira geral. A vantagem era que eu já sabia o que eu queria, então mesclei matérias gerais e específicas para “exercise science” no meu primeiro semestre.

Todos os alunos recebiam um “advisor”, que é um professor que te acompanha nas decisões durante toda a carreira universitária. O advisor te ajuda a montar a sua rotina de aulas – que é muito importante, principalmente no primeiro semestre, por exemplo. Com a ajuda do meu advisor, o canadense Prof Mahoney, consegui deixar a minha grade de aulas equilibrada e ideal para um primeiro semestre. As minhas aulas seriam todas pela manhã e início de tarde, pois o treino era no meio da tarde e à noite havia o grupo de estudos obrigatório da equipe de futebol.

Ah, esse assunto é interessante. Nesse grupo de estudos, os jogadores que tinham as melhores notas e eram referência no âmbito acadêmico lideravam as seções  todas as noites, e os calouros eram obrigados a participar. A partir do segundo semestre, se você acumulasse uma média GPA acima de 3,0/4,0, a participação no grupo era opcional. Quem não comparecesse ao grupo, não treinava e estava sujeito a não ir aos jogos. Também, quem não atingisse o mínimo de 2,5/4,0, também estaria fora dos treinos e jogos. Podia ser o capitão, goleador, craque do time. Não interessava, a regra era clara. No início não levei fé, mas quando comecei a ver alguns bons jogadores sentados no banco assistindo o treino e ficando fora das listas de jogos, vi que não era brincadeira. Os americanos eram mesmo disciplinados, em vários âmbitos – ou eu entrava no esquema, ou meu sonho iria por água abaixo. 

A primeira partida da equipe foi logo antes das aulas começarem, no domingo. Não entrei na lista por questões burocráticas, mas todos do grupo eram permitidos e solicitados a participar da rotina do dia de jogo e apoiar os companheiros que entrariam em campo. Assim já comecei a entender como funcionava a rotina. Todos almoçavam juntos, com uma dieta recomendada pelo próprio treinador. Depois todos iam para o vestiário, onde a galera se revezava com as playlists e o ambiente era de descontração. A escalação estava sempre no quadro branco quando todos chegavam, e ao lado algumas funções táticas e jogadas ensaiadas. O treinador entrava no vestiário apenas alguns minutos depois para dar a preleção. Juntos, caminhávamos até o gramado onde iniciaríamos o trabalho de aquecimento, que durava um pouco mais de 30 minutos. Após isso, a reunião final do grupo junto com o treinador na beira do gramado, a entrada do time em campo, hino Americano e bola rolando. 

Nas arquibancadas, muitos alunos, professores e membros do staff e da comunidade. Tínhamos um acordo de reciprocidade com outros times da universidade: uns iam aos jogos dos outros. No primeiro jogo, a minha tese já se confirmou – o time era mesmo muito bom. O adversário era difícil, qualificado, mas mesmo assim ganhamos de 2×0. 

Agora era hora de se concentrar nos estudos, e o primeiro dia de aula foi mais de introduções e apresentações. Me matriculei em uma aula de governo americano, que foi uma das mais legais e interessantes do semestre. Com um pouco mais de 3 semanas em solo americano, o meu inglês já estava muito melhor e eu já estava cada vez mais adaptado. Fui percebendo que todo o meu processo de aprendizado ainda aqui no Brasil fazendo aulas particulares de inglês, assistindo séries legendadas em inglês e anotando minhas dúvidas de vocabulário, e mais as outras várias táticas que utilizei, foram dando bastante resultado. Meu inglês começou a decolar e eu sabia o quão crucial isso seria para a minha adaptação.  Claro, o frio ainda não havia começado, esse seria outro processo de adaptação. Nós já tínhamos um grupo de calouros bastante coeso, morávamos no mesmo dormitório e ficávamos a algumas portas de distância. Sempre depois dos treinos e entre as aulas nos reuníamos para jogar sinuca, ping-pong ou video game e conversar. Eram alguns americanos, ingleses, 2 mexicanos e apenas eu de brasileiro. Isso também contribuiu demais para eu melhorar ainda mais o meu inglês, pois eu não tinha escolha, eu tinha que falar e entender. Me acostumar. Caso contrário, eu não conseguiria socializar. Ao final de cada dia, era tanta coisa que eu havia aprendido que ficava difícil mensurar – e foi assim quase até o final da minha jornada.

Eis então que recebo a notícia de que a liga finalmente havia confirmado minha inscrição, e eu estava liberado para jogar. Meu treinador me deu a notícia e me adiantou que eu estaria na lista do próximo jogo. Nas poucas conversas por vídeo que fazíamos, contei para os meus pais a novidade e que seria possível assistir pela internet o meu primeiro jogo. Quer dizer, eu esperava que fosse entrar, pois era praticamente certo que eu não começaria de titular. Meus pais sempre foram muito compreensivos em limitar as nossas conversas de vídeo, no Skype. Pois sabiam que a minha rotina era corrida, e que eu precisava me ambientar na minha nova rotina. Falávamos uma vez por semana no Skype, e alguns dias na semana por WhatsApp. A rotina era tão corrida que sobrava pouco tempo pra sentir saudades do Brasil, eram muitas novidades, muitas experiências e muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo. 

 A minha estreia seria contra Morningside College, uma equipe razoável na época. Além de ser a minha primeira partida fora do Brasil, seria a minha primeira partida no modelo de futebol universitário norte-americano. O futebol universitário norte-americano tem regras que o tornam um “tipo” diferente de futebol, como a das substituições ilimitadas, cronômetro regressivo (que o juiz pode pedir para pausar quando desejar) e prorrogação com gol de ouro. As substituições ilimitadas aumentavam consideravelmente a minha chance de ingressar na partida, então as minhas esperanças de ganhar alguns bons minutos eram grandes

Ao final do primeiro tempo, o treinador me chama. Era a hora. A cobrança dos atletas um com o outro era muito grande, mesmo em um jogo relativamente fácil. Dei meus primeiros toques na bola, a sensação era de êxtase depois de um bom tempo sem disputar um jogo oficial. O time era organizado e eficiente, fácil de se encaixar, mas eu ainda estava muito “cru” em termos de entendimento tático. Ainda não havia me adaptado com a função que o treinador queria de mim, pois nunca havia jogado de costas para o gol e por isso acabava sempre tentando buscar o jogo e não fazendo exatamente o que o treinador queria.

Saí no intervalo e retornei ao campo na metade do segundo tempo, ficando até o final do jogo. Joguei por mais de 30min, tive uma atuação razoável nos meus critérios. Senti um futebol muito diferente, mais físico, muito intenso e dinâmico. Havia muito pouco tempo para pensar com a bola o pé, acho que essa foi uma das minhas principais dificuldades. Na parte da comunicação, muitas vezes ficava difícil de entender o que o treinador ou os outros jogadores queriam de mim. Eram muitos termos, muitas expressões, e só após alguns jogos que fui começar a entender o que eles realmente queriam dizer. 

Na semana seguinte, tivemos o nosso primeiro jogo fora da universidade. Foi a minha primeira viagem com a equipe, de mais 8h até o estado de Iowa. Acordei atrasado, o despertador não tocou. Tenho um pavor muito grande de chegar atrasado em qualquer compromisso. O time inteiro estava esperando por mim e pelo meu colega de quarto, outro calouro. Como punição, ficamos encarregados de carregar os materiais de treino durante toda a viagem.

Quando tínhamos viagens que nos fariam perder ao menos 1 dia de aula, o treinador enviava a lista de atletas solicitados para que todos os professores ficassem sabendo. Nós também tínhamos o dever de avisar os professores que iríamos faltar determinada aula por causa de uma viagem com a equipe. Todos os professores eram extremamente acostumados com isso, e se precisássemos remarcar qualquer atividade não haveria problema algum. Assim, a educação e o esporte caminham lado a lado na jornada universitária norte-americana.

As populares roadtrips eram divertidas, mas bastante cansativas. Na maioria das vezes, saíamos muito cedo e dormíamos ainda boa parte do caminho no ônibus. Equipes masculina e feminina viajavam juntas quase todas as vezes, com as meninas para a frente do ônibus e os meninos para o fundo. As viagens eram sempre uma boa oportunidade de conversar e conhecer melhor os companheiros de equipe. Além disso, muitos levavam jogos e outros passatempos para que as longas horas de viagem se tornassem mais curtas.

Chegando em Iowa, fui alocado em um quarto com 2 seniors que estavam em seus últimos anos de universidade e figuravam os mais velhos da equipe. Eu iria ter que me acostumar com os hotéis, com certeza seriam muitos nos anos que ainda estavam por vir. Nessa primeira viagem, tudo era novidade, nunca tinha vivido nada parecido. Foi uma experiência muito legal e já aprendi bastante na minha primeira jornada. Naquele final de semana, disputamos dois jogos: um jogo no sábado e outro no domingo. Logo após o segundo, já embarcaríamos no ônibus e partiríamos para as 8h de retorno até Jamestown, chegando em casa na madrugada de segunda-feira. Sim, teríamos que acordar cedo para ir pra aula, não tínhamos passe livre para faltar. 

Ganhamos os dois jogos, porém já comecei a entender o ritmo alucinante que era o futebol universitário. Havíamos jogados duas partidas super intensas em menos de 48h, e por isso foi necessário a utilização de quase todo o elenco nos dois jogos. Aos poucos já comecei a me acostumar com o estilo de jogo americano, era muito contato físico e muita intensidade. As substituições ilimitadas eram combustível para essa intensidade. Meu treinador já havia me dito que eu teria que ganhar massa muscular e fazer um trabalho forte de musculação fora da temporada. 

O início da temporada estava sendo muito promissor, e as primeiras experiências estavam sendo bastante enriquecedoras. Até agora, eu estava emaranhado em um ritmo alucinante de futebol e estudos. Eram muitos aprendizados e também muita evolução – principalmente quanto ao processo de adaptação, que já avançava como nunca. Como foi o final do meu primeiro semestre na faculdade? E da temporada? A primeira volta pra casa? Como foi o meu primeiro inverno em Dakota do Norte? Se você quer conhecer as respostas para essas perguntas, fica ligado e não perde o próximo texto!

Henrique Lucena Pires

Formado em Ciência do Exercício e Administração de Empresas com foco em Saúde e Bem-estar pela University of Jamestown (Dakota do Norte/EUA)

Prêmios futebolísticos: NSAA 1st Team All-conference (2017), AAII 1st Team All-Conference (2017), U.S Coaches 1st Team Scholar All-American (2017), U.S Coaches 2nd Team All-Plains Region (2017), NPSL South-Central Conference Champion (2016)

Prêmios escolares: Dean’s List (2015, 2016, 2017), College Fellow in Health and Fitness Administration (2017), U.S Coaches 1st Team Scholar All-American (2017)