FU #3 - A chegada: primeiros desafios nos EUA

Minha jornada começou de modo oficial. Embarquei naquele avião, que faria uma escala em São Paulo, e outra escala em Chicago para finalmente chegar até Fargo, na Dakota do Norte. De lá, eu ainda esperaria algum dos meus novos colegas de equipe me buscarem, para mais 1h30min de viagem até Jamestown. Uma jornada de mais de 24h entre escalas e aeroportos. Eu nunca tinha ficado mais de 1h30min em um avião… Mas a viagem em si não me preocupava, a minha ansiedade em descobrir tudo o que me esperava era muito maior. Uma coisa eu já senti desde que embarquei no avião foi aquela sensação de que agora seria eu por mim mesmo, que eu teria que me virar sozinho em qualquer situação. As decisões agora eram exclusivamente minhas. As consequências também. No início, foi assustador não ter alguém que eu confiasse por perto.

Chegando mais próximo do meu destino final, dos ares só se via muitos campos e pouca civilização. Parecia um lugar pouco povoado. A sensação de estar no meio do nada aumentava a cada metro que eu me aproximava do aeroporto. Enfim, aterrissei em Fargo – um aeroporto de apenas cinco portões. Um pouco confuso, perambulei por alguns minutos dentro do pequeno aeroporto até que achei a porta de saída. Por ali não via ninguém com alguma identificação da universidade, que viria me buscar. Eu estava sem internet ainda e não conseguia contato com absolutamente ninguém. Apenas confiei no que o treinador me disse, que iriam estar lá para me buscar quando o meu voo chegasse. 

Esperei por mais de meia hora, e nada… Já estava um pouco desesperado, mas pelo menos eu já havia conseguido internet depois de alguns minutos, e pude avisar o pessoal em casa que estava tudo bem. Bom, nem tanto. Passou 1h e nem sinal de alguém para me buscar. Comecei a pensar que era uma cilada, que eu estava no lugar errado ou que simplesmente haviam esquecido de mim. Alguns bons minutos depois, já praticamente certo de que algo estava errado, avistei alguém com uma jaqueta laranja e preta que dizia “University of Jamestown”. Ufa! A parte boa: alguém veio me buscar. A parte ruim: essa 1h30min de viagem seriam eternas visto a minha ansiedade em saber logo o que me esperava. Mais de um ano me preparando para aquele momento, para chegar na universidade – que tempos atrás era apenas um objetivo muito distante e naquele dia estava se tornando uma realidade. Parecia mentira.

Aliviado, entrei no carro com mais três colegas de equipe. Dois deles eram ingleses, e eu não estava muito familiarizado com aquele sotaque que muitas vezes parecia uma língua totalmente distinta da que eu havia me esforçado por anos para aprender. Não entendia nada. Solícitos comigo, eles tentavam falar mais devagar para facilitar o meu entendimento, mas mesmo assim não foi fácil. Se você for para uma universidade forte no futebol, possivelmente irá encontrar muitos estrangeiros na equipe, e isso também significa muitos sotaques e níveis de aprendizado na língua diferentes. Você sempre vai encontrar pessoas que vão entender o que você diz facilmente e vice-versa, e são com essas pessoas que você tende a criar uma amizade mais forte. No início, foi muito difícil manter uma conversação longa, pois eu ainda traduzia tudo mentalmente para o português. Assim, eu entendia quase tudo, mas eu só conseguiria ter uma conversação normal quando eu pensasse em inglês. Demoraria um pouquinho até eu chegar nesse nível, e por enquanto eu teria que contar com a boa vontade das pessoas de falar mais devagar.

Lembro de olhar pela janela do carro, e só via algumas fazendas, mas nada urbano. Quer dizer, haviam algumas cidades que mais pareciam pequenos vilarejos. Até que, finalmente, chegamos em Jamestown. Logo de cara, apesar de pequena, a cidade parecia muito bem organizada e limpa. O prédio mais alto da cidade tinha oito andares. O comércio parecia bastante tímido. Igrejas, restaurantes, cadeias de fast-food e bares dominavam o cenário da avenida principal da cidade. Tempos depois, fui descobrir que a quantidade de igrejas e bares é um parâmetro para medir o tamanho das cidades em Dakota do Norte. Conheci muitas pessoas que vinham de cidades de menos de 500 habitantes, no interior do estado – para eles Jamestown era uma megalópole. Pensem no choque cultural.

Me aproximando da universidade, lembro de ver um estacionamento muito grande com pouquíssimos carros estacionados. Muitas pessoas trabalhando aparentemente na manutenção dos dormitórios. Era raro ver alunos caminhando pelo campus, que parecia ser muito organizado e bonito, com mais de quinze prédios divididos entre dormitórios e departamentos. A pré-temporada do futebol, futebol americano, voleibol e alguns outros esportes começava mais de vinte dias antes das aulas. Essa era a razão de o campus estar vazio.

Fui conduzido até o escritório do meu treinador, finalmente era hora de conhecer o cara que lutou tanto para me levar até lá. Seria normal um forte abraço, ou algo que demonstrasse uma felicidade em me ver ali, que topei cruzar o continente por causa dele. Não foi muito bem o que aconteceu. Meu treinador me cumprimentou, e sem trocar muitas palavras já me avisou sobre o teste físico que teríamos em poucas horas. Eu recém tinha chegado de uma jornada de mais de um dia, mas nada disso foi levado em conta. As boas-vindas do meu treinador foram tão frias como o inverno de oito meses de Dakota do Norte.

Logo, fui deixar as minhas coisas no quarto onde eu viveria apenas durante a pré-temporada, pois muita coisa ainda estava sendo arrumada para o início das aulas – fui avisado de antemão que em mais alguns dias mudaria de quarto. Fui então começando a conhecer alguns “Freshmen” (calouros) que estavam chegando para o seu primeiro ano no time de futebol e na universidade, assim como eu. Alguns mexicanos, com os quais já simpatizei logo de cara, pois temos uma cultura bem próxima. Mais ingleses haviam chegado, alguns americanos e africanos também.

Naturalmente formamos um grupinho dos calouros e andávamos sempre juntos. Mesmo sem se entender tão bem, existe um fator que fala uma língua universal: o futebol. Era o motivo principal que levou a grande maioria para lá, todos estavam curiosos para saber como os novos companheiros de time jogavam. Conversávamos sobre o time que cada um torcia, como era o futebol em cada país, em que posição jogávamos. Essa troca cultural já começou a me fascinar. E nunca mais parou.

O primeiro contato com a comida da universidade, que era servida em um refeitório para todos os alunos, não foi dos melhores. Como as aulas ainda não haviam começado, os cozinheiros estavam trabalhando com recursos reduzidos e cozinhando só o básico. Muita massa sem gosto e saladas descongeladas. Para cada garfada, um suspiro de saudade da comida da minha mãe.

Os primeiros dias foram bastante difíceis, a zona de conforto estava muito longe, tudo era aprendizado e a única coisa que eu sentia que realmente sabia era jogar futebol. Me peguei pensando na minha vida no Brasil, que era tão confortável, tranquila, sem muitas dificuldades e com um futuro praticamente encaminhado… Por que abandonar tudo isso por essa “loucura”? Não estranhe se você pensar em voltar logo nos primeiros dias, é normal. É como aquele primeiro mergulho no mar gelado, que traz um desconforto grande, frio danado, um choque, e você já quer sair. Mas se você decide ficar, depois de alguns minutos o corpo se acostuma com a temperatura da água e você não quer mais sair.

Algumas horas depois, nos encontramos com o restante do grupo de jogadores. Lembram da chuteira encomendada ao capitão da equipe? Antes mesmo de me cumprimentar, ele já me entregou em mãos. Ela viria a ser a melhor chuteira que já calcei. Que saudade! Só que nesse momento, mal sabia o quanto teria que suar para poder pisar com ela nos gramados de Jamestown. Chegou a hora dos testes físicos. A maioria passou em todos, menos na “5 minute mile”, que era de longe o mais difícil. Dos “Seniors”, que já estavam no último ano, a grande maioria passou. Eles serviam de exemplo para os mais novos, como eu. Nosso treinador, muito chateado que a grande maioria não havia passado, anunciou então que enquanto todos os jogadores não fossem aprovados no teste, ninguém treinava com bola.

Sem surpresas, ficamos todos pressionados pelos mais velhos, e furiosos por estarmos perdendo dias preciosos em que poderíamos aumentar o nosso entrosamento com os novos companheiros. Pelos próximos cinco dias nós faríamos o teste da milha uma vez na manhã e outra na tarde, e depois do teste era treino físico que não acabava mais. Pesadelo. A única vez que tocamos na bola nesses cinco dias foi após um treino, que fomos para um parque no meio do campus, e com uma bola comprada no mercado, fizemos uma altinha.

Depois de cinco dias, obviamente nem todo mundo passou no teste – mas pela melhora significante no tempo de cada um, o treinador resolveu ceder e começar a treinar com bola. Mas, quem não havia passado ou melhorado o seu tempo significativamente, teria que fazer treinos físicos extras no final de cada treino e ainda tentar fazer o teste uma vez por dia. Melhorei meu tempo de 5:45 na primeira vez para 5:06 na última tentativa, e assim fui considerado aprovado no teste. Sempre gostei de correr e fui referência por onde passei pela minha condição física, mas esse teste era muito difícil. Fui percebendo a cada dia que a capacidade física de um atleta seria crucial para ganhar minutos de jogo, quem não estivesse bem fisicamente talvez nem ficasse no banco.

Os treinos eram muito intensos na pré-temporada, o nível era muito bom. Não pensava que teria colegas de time tão qualificados, que facilmente jogariam nos times que passei. Havia, até involuntariamente, uma espécie de estigma cultural pelo futebol no Brasil. Todos, inclusive o treinador, já esperavam de mim uma técnica muito apurada, dribles, recursos, magia com a bola. É a imagem que o Brasil passa, e eu tinha muitas dessas qualidades, modéstia a parte. No entanto, eu tive colegas de time americanos, ingleses e de diversas outras nacionalidades que eram extremamente técnicos. Era a primeira vez que eu estava jogando com jogadores não compatriotas, e eu me espantava positivamente todos os dias com a qualidade dos caras. A cada dia ficava mais claro que eu teria que suar muito, e mostrar muito nos treinos para conseguir alguns minutos nos jogos.

Fora de campo, eu já estava me dando muito bem com a maioria dos meus companheiros de equipe. O acolhimento da equipe com os calouros foi impressionante, e foi também um fato crucial para a minha rápida adaptação. Fiquei positivamente surpreso com toda a paciência e disponibilidade dos mais velhos com os calouros. Aos poucos já começava a sentir o espírito de união do grupo e entender que a minha família pelos próximos quatro  anos estava ali.

Os primeiros coletivos foram acontecendo, e o time titular ia ficando cada vez mais claro. Geralmente começava na equipe reserva, e durante o treino eu era colocado na equipe titular por alguns minutos. Comecei a me animar bastante, pois os mais velhos começaram a me acolher cada vez mais. Nada de panelinha, nada de trairagem e colegas de equipe tentando te sabotar ou falar mal de você pelas costas. Isso já me dava um alívio grande pelas minhas experiências anteriores, e as coisas pareciam rumar por um caminho promissor. Exceto pela parte que a minha documentação ainda não estava regulamentada, então era grande a chance de eu perder ao menos os dois primeiros jogos da temporada.

O primeiro jogo começava a se aproximar, as aulas em breve começariam, e então mais desafios estavam por vir. Quer saber como foi a minha estreia nos gramados americanos? Quais foram os meus primeiros desafios na vida universitária? Como funciona o sistema de ensino nos EUA? Qual é a relação dos estudos com o futebol? Então se liga que na sequência estaremos de volta com mais um capítulo desta série.

Henrique Lucena Pires
Formado em Ciência do Exercício e Administração de Empresas com foco em Saúde e Bem-estar pela University of Jamestown (Dakota do Norte/EUA)

Prêmios futebolísticos: NSAA 1st Team All-conference (2017), AAII 1st Team All-Conference (2017), U.S Coaches 1st Team Scholar All-American (2017), U.S Coaches 2nd Team All-Plains Region (2017), NPSL South-Central Conference Champion (2016)

Prêmios escolares: Dean’s List (2015, 2016, 2017), College Fellow in Health and Fitness Administration (2017), U.S Coaches 1st Team Scholar All-American (2017)