FU #2 - Escolhas: a decisão

FU #2 - Escolhas: a decisão

A hora chegou. Os primeiros contatos dos treinadores começavam a entrar na caixa de e-mails. Cerca de dez universidades demonstravam interesse em contar comigo nos seus elencos. Os e-mails chegavam praticamente juntos. Imaginem um guri, que não estava nada acostumado com as atenções, de repente ter tantas universidades lá dos Estados Unidos oferecendo bolsas valiosas. Fiquei atônito com tanta coisa acontecendo. Não queria deixar os treinadores esperando a minha resposta, mas eu também tinha que analisar todas cuidadosamente. Eu só podia escolher uma.

Então, aí vai a primeira dica: analise e estude tudo o que você puder sobre o lugar que pode ser a tua nova casa nos próximos quatro anos. Desde o país que você vai até a universidade, estude tudo. Preferi demorar um pouco mais para responder os treinadores interessados, mas pelo menos ter um pouco mais de conhecimento sobre cada lugar e cada universidade. Por incrível que pareça, lá eu conheci muitos colegas de equipe que não faziam ideia para onde haviam ido, e isso atrapalhou muitos que acabaram indo embora tempos depois. Quanto mais conhecimento, menos surpresas – esse é meu lema.

Minha mãe dizia: “Não vai pra lugar muito frio, guri”. Meu pai dizia: “Não vai pra onde tem furacão”. E por aí vai… Algumas propostas arquivei logo de cara, pois os valores das bolsas eram muito baixos e ficaria inviável financeiramente. Recebi propostas de diversos lugares: Califórnia, Texas, Carolina do Sul, Carolina do Norte, Missouri, Alabama e Dakota do Norte. Todos esses estados eram já um pouco familiares para mim, muito por todas as pesquisas que eu fiz – exceto pela tal da Dakota do Norte.

Uma coisa eu tinha certeza, eu não estava indo para os Estados Unidos para passear, conhecer lugares e curtir a vida. O meu mindset era de me formar e me tornar um jogador de futebol profissional, seja onde for. Para atingir meus objetivos, o fato de morar em uma cidade turística, uma praia incrível ou no meio do nada não fazia diferença.

Nunca havia lido ou escutado nada sobre este estado de mais ou menos 700 mil habitantes, fazendo fronteira com o Canadá. Apesar de já praticamente descartar ir pra lá, depois de descobrir que a temperatura chegava a -35C no inverno… Eu fiz meu tema de casa. Pesquisei sobre o estado e sobre a cidade de Jamestown, de 15 mil habitantes, onde fica a universidade. Parecia interessante, um campus pequeno, mas muito organizado e bonito – com menos de mil alunos na época. Havia lido muito sobre as vantagens de escolher uma universidade pequena, e me apeguei muito a isso. Diziam que o acolhimento melhor, a locomoção para as aulas e treinos era mais fácil, que os professores eram muito mais acessíveis, que você criava grupo de amigos com muito mais facilidade, entre outras vantagens que me chamaram a atenção.

O time de futebol de lá era cheio de estrangeiros, na verdade um híbrido de britânicos e americanos. Nenhum sul-americano. Um time aparentemente muito bom, que havia chegado nas etapas nacionais do campeonato universitário pela primeira vez na história da universidade. O fato de não ter nenhum brasileiro no time não me assustou, era até meu objetivo. Segui um conselho sábio do meu tio, que com sua experiência de ter vivido por anos em um país distante, certa vez me aconselhou a ir para algum lugar sem brasileiros – pois eu aprenderia muito mais.

As pesquisas já eram suficientes, era hora de começar a responder os treinadores no inglês mais correto que eu podia escrever. Com calma, fui respondendo um a um. Tentei negociar com todos eles o valor da bolsa, e os meus minutos em campo no meu primeiro ano. É comum os calouros não jogarem tanto em jogos oficiais nos primeiros dois anos, para acumular experiência e se tornarem titulares ao longo do tempo. Esse fato era um pouco estranho para mim, pois pensava que com toda a experiência acumulada aqui nas categorias de base brasileiras, não precisaria “ganhar tanta experiência”. Mas as coisas funcionavam assim no futebol universitário americano, e com o tempo fui entendendo que precisava sim, e muito, de experiência – o futebol universitário é um tipo diferente de futebol.

Logo tive a primeira resposta, apenas minutos depois de enviar o e-mail. Adivinha de quem, meu caro leitor? De lá mesmo, era de Jamestown. O treinador foi extremamente rápido em aceitar a minha pedida de bolsa, e me oferecer bons minutos de jogo no primeiro ano – pois o time perderia muitos jogadores que se formariam no ano seguinte. As partes positivas de ir para lá começavam a ficar cada vez mais destacadas. O treinador sempre foi muito objetivo e incisivo, ele me queria lá. Logo comecei a perguntar mais sobre o time, a universidade e a cidade,. Todos os detalhes que podia arrancar dele.

O Coach Nienhaus sempre foi extremamente rápido em me responder, sempre buscando me encaminhar já para os próximos passos, talvez temendo uma melhor oferta de outra universidade. Me garantiu mais de dez vezes que eu não iria passar frio, e que a universidade tinha toda a infra-estrutura para aguentar invernos congelantes. Era tempo de Copa do Mundo no Brasil, conversamos brevemente sobre um ou outro jogo. Aliás, já deu para perceber que ele não era muito bom de conversa, os e-mails que eu recebia eram sempre muito objetivos e permitiam poucas oportunidades de quebrar o gelo. As outras respostas também vieram, com uma demora um pouco maior. Alguns treinadores demoravam um ou dois dias, até um pouco mais.

Você também sonha em jogar futebol nos EUA? | Foto: Arquivo Pessoal

No final das contas, financeiramente nenhuma proposta bateu a de Jamestown e também nenhuma demonstração de interesse foi maior que a de lá. Não havia mais motivos para titubear. A University of Jamestown, que inicialmente foi quase descartada, seria mesmo a minha nova casa nos próximos quatro anos. Estava decidido. 

Em meados de abril, dei o meu sim para a University of Jamestown. A partir de agora começava a parte mais burocrática de todas, que era a matrícula na universidade. Eram muitos documentos, muitas traduções, processos para finalizar a inscrição na liga universitária, entre outras burocracias. Tudo com um auxílio muito bom tanto por parte da universidade, quanto por parte da empresa que estava me ajudando com o processo. Como o meu semestre universitário aqui no Brasil ainda não tinha acabado, eu não tinha os meus últimos históricos escolares para traduzir e enviar para a universidade – esse fato atrasou um pouco a minha inscrição na liga universitária, e assim eu ficaria de fora dos três primeiros jogos da temporada por questões de elegibilidade.

A minha preparação foi se intensificando a cada dia. Muito empenho na UFRGS, para conseguir as melhores notas possíveis e assim aumentar a minha bolsa acadêmica. O empenho também era forte na parte física, pois agora eu já sabia que o principal teste físico para os atletas que quisessem fardar a laranja de Jamestown era a “5 minute mile”, ou seja, correr o equivalente a 1,6km em meros cinco minutos. Quatro voltas na pista oficial de atletismo em apenas cinco minutos, isso é praticamente o tempo de um corredor. Assim, já fui começando a entender que teria que me reeducar fisicamente para conseguir jogar futebol lá. Fui entendendo cada vez mais que a velocidade, a resistência e a força, muitas vezes deixavam a técnica na saudade nos olhares dos treinadores americanos.

A passagem comprada para o dia 08/08/2014, data que embarquei no Salgado Filho rumo a um destino improvável, desconhecido, inimaginável… Aos poucos a ficha foi caindo. Sabia que voltaria em seis meses, pois já havia decidido que eu voltaria uma vez ao ano para casa. Seria no Natal – que é quando a família toda se reúne, então teria a oportunidade de ver todos. A saudade já começava a bater antes mesmo de ir, pois aos poucos fui me dando conta de quanta coisa estava deixando para trás. Tudo o que estava abrindo mão. Almoços de família, futebol com os amigos, festas, churrascos, comemorações, formaturas, aniversários e até funerais. Delicado falar sobre esse assunto, mas é uma realidade, faz parte da vida. Eu tinha que entender que poderia não estar presente em momentos que estariam precisando de mim. Você aí, que quer mesmo embarcar nessa jornada, é melhor ter noção do que pode acontecer por aqui enquanto estiver fora – isso não vai poder te derrubar

Algumas semanas antes do embarque, o capitão do time de Jamestown entrou em contato comigo e se colocou à disposição para tirar minhas dúvidas e me ajudar no que precisasse. Aproveitando da boa vontade do volante inglês de Leamington Spa/Inglaterra, pedi se podia comprar e enviar uma chuteira que estava namorando fazia um tempo, para a sua residência em Jamestown. Ele se colocou à disposição para me ajudar. Então a empolgação só aumentava, minha chuteira que daria os primeiros passos nos gramados americanos já estava comprada. Sonhava todos os dias com a universidade, com o time, com a vida lá em Jamestown – mesmo sem ter tanta noção da mudança radical que me aguardava. Era ansiedade que não cabia mais.

Eis que chega o dia do adeus. Meus pais, meu irmão, minha prima e mais alguns amigos foram ao aeroporto se despedir. Já havia recomendado à minha mãe, “manteiga derretida”, que chorasse tudo o que precisava chorar antes de ir para o aeroporto, de preferência sem a minha presença. Foi até mais fácil do que eu pensei. Também não olhei muito para trás, apenas entrei na fila do embarque, um último abano, olhos mareados, e sabe-se lá o que estava por vir pela frente.

Como fui recebido em Jamestown? Como foram os meus primeiros dias? Quais foram os meus primeiros desafios e como eu lidei com eles? Respostas para essas perguntas virão no meu próximo texto. Fica ligado, não perde!

Henrique Lucena Pires

Formado em Ciência do Exercício e Administração de Empresas com foco em Saúde e Bem-estar pela University of Jamestown (Dakota do Norte/EUA)

Prêmios futebolísticos: NSAA 1st Team All-conference (2017), AAII 1st Team All-Conference (2017), U.S Coaches 1st Team Scholar All-American (2017), U.S Coaches 2nd Team All-Plains Region (2017), NPSL South-Central Conference Champion (2016)

Prêmios escolares: Dean’s List (2015, 2016, 2017), College Fellow in Health and Fitness Administration (2017), U.S Coaches 1st Team Scholar All-American (2017)