FU #1 - A preparação: da expectativa à realidade

Recapitulando: a decisão já estava tomada. O futebol no Brasil não era mais um caminho possível para mim, ainda mais depois de saber que havia uma opção interessante e, aparentemente, dentro do meu alcance. Ainda assim, não abandonei o Cruzeirinho e muito menos a UFRGS. Segui levando ambos paralelamente, dando uma atenção especial aos estudos. Ao mesmo tempo, pesquisando muito e elaborando um plano de ação para começar a perseguição ao meu mais novo objetivo.

Não leu o primeiro texto? Confere aqui.

Apresentei o assunto aos meus pais, pois sempre compartilhei tudo com eles. Eles acharam a possibilidade muito interessante. Seria realmente o ideal. No entanto, não se entusiasmaram tanto, pois não acreditavam que a ideia iria pra frente. Para eles, era algo ainda muito fora da realidade, principalmente pela falta de ideia do valor do investimento. Me aconselharam, então, a continuar focado na faculdade e seguir brigando pelas minhas chances no Cruzeiro. Foi o que eu fiz. Mas a ideia não saiu da minha cabeça.

Pesquisando sobre os meios que poderiam me levar até lá, encontrei algumas empresas que faziam uma espécie de seletiva para avaliar os interessados em conseguir uma bolsa esportiva nos Estados Unidos. Era o primeiro passo.

Logicamente, o investimento era a principal objeção. Quanto custaria fazer isso? Já havia pesquisado sobre o valor médio das universidades de lá. Era alto, muito alto. Eu precisaria não só de uma bolsa esportiva alta, mas de uma bolsa acadêmica também.

Caso contrário, sem chances.

As datas da seletiva em Porto Alegre coincidiam com treinos no Cruzeiro. Era um final de semana com dois dias de seletiva. Nos dois dias, eu tinha treino no clube. E agora? Vi aquilo como a oportunidade do momento, o cavalo passando encilhado – eu não poderia deixar passar. Não foi a maneira mais honesta, admito, mas foi a solução que encontrei. Já inscrito na seletiva, liguei para o meu treinador e falei que estava com uma forte virose. Disse pra ele que era impossível treinar, que me cuidaria no final de semana para estar bem na segunda-feira. Não tive o menor peso na consciência, porque  sabia que a minha falta não seria de extrema importância para o grupo, e que esse ato poderia resultar em algo muito positivo para mim. Resultou mesmo. Minha “mentirinha” deu certo – estava confirmada a minha participação na seletiva.

As seletivas ocorreram na PUCRS, em um campo de grama sintética. Seriam dois jogos de 90 minutos, um no sábado e outro no domingo. Eram muitos pais presentes, inclusive o meu, que como de praxe sempre me acompanhou. Os avaliadores da empresa estavam fazendo os preparativos das câmeras. A seletiva seria gravada para futuramente ser utilizada, também, para edição e envio dos melhores momentos aos treinadores americanos. Claro, apenas para aqueles que seguiriam o processo – que para a minha surpresa, seriam pouquíssimos.

Minha confiança não era das maiores. Por outro lado, a minha condição física estava ótima – eu vinha treinando quase diariamente e jogando alguns amistosos nos últimos quatro meses. Estava voando. Não tinha a menor ideia de quem seriam os meus concorrentes, de onde eles viriam, qual seria o nível deles ou se eles estavam tão preparados quanto eu. Mas eu sabia que disposição, da minha parte, não faltaria. Nunca faltou.

No primeiro dia de seletiva, joguei o meu melhor futebol. Voei em campo. Consegui mostrar tudo o que eu precisava mostrar. Percebi, também, que a grande maioria dos meus concorrentes não estava tão bem preparada como eu. Fisicamente e tecnicamente, consegui me destacar. Alguns até pareciam ser atletas esporádicos, com uma compreensão diferente do jogo. Logo, chamei a atenção dos avaliadores da empresa ainda no primeiro dia, e de todos os pais que assistiam também. Foi uma dose de confiança que eu não ganhava fazia tempo. Valiosa.

No segundo dia, o nível naturalmente caiu – a intensidade também. Muitos não souberam dosar a energia e chegaram no segundo dia acabados. Consegui manter o meu nível, com um pouco menos de intensidade, mas fiz novamente um bom jogo. A seletiva acabou e em uma breve conversa com os avaliadores após o segundo jogo, me foi dito que as chances de conseguir uma bolsa alta eram bem grandes – possivelmente uma das maiores que eles conseguiriam para um atleta. O resultado definitivo do tamanho da bolsa esportiva que eu poderia ganhar, viria após alguns dias de análise. Empolgado e ansioso era pouco para me descrever naquele dia – que vai ficar sempre na memória.

Dias depois, chegou o resultado. A minha estimativa de bolsa esportiva era realmente alta, mas não tanto quanto eu imaginava. Além de tentar dar um jeito de conseguir uma bolsa maior, a bolsa acadêmica seria crucial para viabilizar esse objetivo. A parte mais assustadora é que nada era garantido. Ou seja, a estimativa de bolsa que eu tinha era alta, porém os treinadores poderiam não julgar da mesma maneira. Se assim fosse, o sonho iria por água abaixo, e toda a preparação de nada serviria. Valeria a pena arriscar ou dar mais uma chance ao futebol aqui no Brasil?

Com tudo isso acontecendo, o Cruzeiro foi eliminado do Gauchão Sub-20 e a grande maioria dos jogadores foi dispensada. Incluindo eu. No restante do semestre, foquei apenas na faculdade e consegui boas notas. No semestre seguinte, a mesma coisa. Neste momento, eu já estava decidido a ir para os EUA, mas ainda não tinha nada certo. Então, como eu não poderia ficar longe do futebol, entrei no time de futebol universitário da UFRGS, que treinava todas as quartas e sábados pela manhã e disputava alguns campeonatos. Um esporte universitário bem diferente do que eu estava almejando, mas mesmo assim preenchia um pouco da minha necessidade de volta e meia botar a chuteira no pé.

Foi então, mais ou menos no final do semestre, que o inesperado aconteceu. Havia uma luz no fim do túnel. Surgiu uma oportunidade de teste no 15 de Novembro, de Campo Bom. Só que tinha um detalhe: eu teria que morar no alojamento do clube. A faculdade teria que ser trancada. Mas nada disso foi empecilho. Mais uma vez, agarrei outra oportunidade com unhas e dentes. Mudei de ideia e voltei para as categorias de base.

Eis então que chega a minha primeira experiência morando longe de casa. Os alojamentos não eram ruins. A comida era boa. Morávamos no estádio do clube, onde treinávamos ocasionalmente. O nível não era tão alto quanto no Cruzeiro, mas eu também já não tinha a mesma condição física de quando eu estava lá. Precisei treinar muito duro para alcançar essa condição. A maioria dos jogadores já vinha treinando consistentemente por todo o semestre, eu cheguei depois e tive que acompanhar. Foi difícil. Lá encontrei alguns ex-colegas de equipe, facilitou a minha adaptação. Me dei muito bem com os jogadores que moravam no meu alojamento, inclusive com alguns falo até hoje.

Para encurtar a história, durei mais ou menos um mês e meio. Acabei sendo dispensado após me lesionar durante um amistoso contra o São José. Não fiquei muito abalado, até estava, de certa forma, feliz por voltar ao conforto de casa. Precisava desse acolhimento. Na mesma semana tive uma conversa com os meus pais e com a minha avó, que morava conosco. Precisava saber se seria possível ir atrás do meu objetivo de jogar e estudar nos EUA, se eles me apoiariam nessa decisão. Era a minha única saída, eu não via outra opção. Foi então, que, com o apoio incondicional da minha família, a decisão foi tomada. Era o grande detalhe que faltava. O sinal verde para a busca do meu objetivo foi dado, e agora era hora de me preparar de verdade.

Os meus sentimentos: um misto de felicidade com ansiedade e preocupação. Pensando comigo mesmo: “agora eu tenho que ir, não tem volta”. Seriam no mínimo quatro anos longe de casa, buscando o meu futuro em uma terra desconhecida. Eu nunca tinha nem viajado para fora do país. Minha preparação seria de um ano, para embarcar em agosto de 2014. Assim, voltei para a universidade, onde eu precisava buscar as notas mais altas possíveis para garantir a bolsa acadêmica. Segui treinando com o time da universidade, mas também comecei a fazer um treinamento físico por fora. Meu inglês era razoavelmente bom em termos de gramática e escuta, o problema mesmo era falar. Fiz aula particular por um tempo, e depois estudei muito mais por minha conta. Precisava tirar uma boa nota no teste de proficiência em inglês, para que mais universidades me aceitassem – isso também era essencial para que eu não precisasse fazer aulas complementares de inglês chegando lá, caso eu falhasse no teste.

Aos poucos, o processo avançou. Eram incontáveis formulários a serem preenchidos, documentos a serem traduzidos e enviados para os Estados Unidos, e livros a serem folhados. Estive a frente de tudo, não dependia ou pedia nada para meus pais ou para mais ninguém. Sempre fui muito ansioso e focado, não deixava nada para amanhã, apenas fazia o que tinha que ser feito o quanto antes. Na faculdade, as notas estavam boas, os treinos eram suficientes juntamente com a minha preparação física por fora. Aos poucos, as horas mais decisivas chegavam.

Agora, eu dependia apenas da minha nota no teste de inglês e do meu vídeo de melhores momentos editado. Estava a dois passos de começar a receber propostas dos treinadores. Era a parte mais crucial do processo. Nessas alturas, a minha chance de conseguir uma bolsa acadêmica eram de quase 100%. Nessa situação era impossível me manter calmo. Achei o teste bastante difícil, mais do que eu esperava. Pela minha longa preparação, eu não admitiria atingir uma nota abaixo da média. Minha longa preparação e disciplina não me deixaram na mão, minha nota foi bem acima da média – o que me permitiu uma chance de receber uma maior quantidade de ofertas. Os caminhos estava se abrindo.

Eis que, então, com o meu vídeo pronto e com os requisitos acadêmicos devidamente preenchidos… Chegou a hora. Minha ficha seria enviada para diversos treinadores universitários, e então as primeiras ofertas começariam a chegar. A hora da verdade estava chegando… Como foi o approach dos treinadores? Como escolher a universidade certa? Quais os principais critérios a se levar em consideração? Todas essas perguntas serão respondidas na sequência da série sobre o futebol universitário nos EUA.

Henrique Lucena Pires

Formado em Ciência do Exercício e Administração de Empresas com foco em Saúde e Bem-estar pela University of Jamestown (Dakota do Norte/EUA)

Prêmios futebolísticos: NSAA 1st Team All-conference (2017), AAII 1st Team All-Conference (2017), U.S Coaches 1st Team Scholar All-American (2017), U.S Coaches 2nd Team All-Plains Region (2017), NPSL South-Central Conference Champion (2016)

Prêmios escolares: Dean’s List (2015, 2016, 2017), College Fellow in Health and Fitness Administration (2017), U.S Coaches 1st Team Scholar All-American (2017)